A ILHA ONDE AS PESSOAS NÃO TINHAM PROBLEMAS

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Há uma estória da mitologia grega muito interessante. Fala de uma linda ilha, onde os navegadores aportavam, cansados de longas viagens marítimas. E eram recebidos bem demais, tendo todos seus desejos atendidos – comida farta, lindas roupas, festas contínuas, etc.

Eram tão bem recebidos que iam ficando, ficando e acabavam se esquecendo de suas casas e famílias. E quando isso acontecia, eram transformados em animais.

A tal ilha era governada por uma poderosa feiticeira má, chamada Circe, cujo objetivo na vida era escravizar os homens. Ela usava o prazer e a anestesia da falta de problemas para tornar as pessoas suas escravas.  

Lembrei dessa estória porque penso que há por aí várias “ilhas de Circe” no mundo atual. Refiro-me às redes sociais mais importantes – Facebook, Instagram, etc.

Não me entenda mal: não sou contra as redes sociais, inclusive porque, se não fossem elas, eu não estaria aqui, trocando essas ideias com você. Redes sociais, são excelentes fontes de informação e permitem facilitam sobremaneira o contato das pessoas – nelas é possível encontrar amigos(as) perdidos ao longo da trajetória da vida, compartilhar momentos de alegria com quem se ama, trocar experiências importantes e assim por diante.

A minha comparação das redes sociais com a “ilha da feiticeira Circe” tem a ver com o fato de que elas se apossam e passam a controlar a vida das pessoas, de forma impressionante. Funcionam como “coleiras eletrônicas”.

Para comprovar o que acabei de falar, basta fazer uma experiência simples: tire por uns dias o celular de um(a) adolescente e observe o que vai acontecer na vida dele(a). É como se esse(a) adolescente tivesse sido mandado para o exílio – ficará sem se comunicar, sem vida social, sem maneira prática de interagir com seu mundo.

As redes sociais me lembram a “ilha de Circe” principalmente porque nelas as pessoas parecem não ter problemas – suas postagens são sempre de comemorações, passeios, viagens, enfim de coisas boas, de momentos alegres. Raramente são mostrados os problemas, as lutas e as derrotas normais na vida de qualquer pessoa.  

E quando alguém coloca uma postagem sobre um problema pessoal, aparece uma enxurrada de comentários dizendo que o problema vai passar, não será nada e assim por diante. Há como um esforço coletivo para minimizar a dificuldade pela simples razão que as pessoas não querem ouvir falar de problemas. Só gostam de lidar mesmo com coisas boas. 

Vejo quatro problemas importantes nas redes sociais – nessas “ilhas de felicidade” nas quais passamos a viver. O primeiro deles é a perda do contato pessoal, trocado pelo virtual.

Por exemplo, quando alguém faz uma postagem no Facebook revelando um problema, recebe inúmeras mensagens virtuais de apoio no Facebook. Agora, pergunte para a pessoa que está sofrendo quantos telefonemas ou visitas recebeu – muito poucos, pode ter certeza. 

Trocar o contato pessoal pelo virtual é um grande erro, pois uma coisa não substitui a outra. É interessante perceber que a doutrina cristã enfatiza o contato pessoal, o “olho no olho”.

Assim, não foi por acaso que Jesus viajou durante todo o seu ministério – Ele queria entrar em contato direto com as pessoas. Queria sentir pessoalmente a reação delas ao seu Evangelho. E também queria levar-lhes pessoalmente seu carinho e conforto. 

O segundo problema que vejo no uso das redes virtuais é o vício: já há muitos relatos de pessoas que se tornam totalmente dependentes delas. Entram pelas madrugadas conectadas – ficam permanentemente presas à sua “coleira eletrônica”. 

Ora, todo vício é prejudicial ao corpo e à mente humana. E é pecado, pois viola o mandamento de colocar Deus em primeiro lugar. Quando as redes sociais se tornam a coisa mais importante na vida de uma pessoa, Deus perde relevância na vida dela. Simples assim.

O terceiro problema que vejo no uso desmedido das redes sociais é a exposição da vida íntima das pessoas. Muitas vezes elas publicam postagens sem perceber o alcance das informações que estão tornando públicas. E quando percebem o que fizeram, já é tarde demais.

Tem gente que já perdeu emprego por causa. Casamentos já foram desfeitos. Amizades foram perdidas. Sem contar que as informações registradas nas redes sociais nunca mais serão apagadas. Sempre estarão lá.

As redes sociais não permitem o benefício do esquecimento, coisa especialmente importante para quem está tentando mudar os rumos da sua vida. 

O último problema que vejo no uso das redes sociais é a oportunidade, gerada para quem controla essas redes, de lucrar com as informações pessoais dos(as) usuários.

Eu sei muito pouco sobre quem você é, quando você entra aqui no site – sua anonimidade está respeitada. Só saberei alguma coisa mais específica se você escrever para o site, pedindo uma opinião ou fazendo um comentário. Mas, no Facebook, por exemplo, é bem diferente.

Na sua página pessoa ali há um monte de informações importantes: quem você é, o que faz, onde vai, o que gosta, o que não gosta, etc. E é possível construir um perfil completo seu com base nessas informações. 

Um banco de dados com essas informações é o sonho de qualquer marqueteiro – empresas, partidos políticos e até governos estão dispostos a pagar fortunas para ter acesso a essas informações. Logo, não é por acaso que as empresas donas dessas redes sociais, como Facebook ou Instagram, valham tanto dinheiro na Bolsa de Valores.
 
E conhecendo o que você pensa e gosta, as empresas donas das redes sociais vão trabalhar incansavelmente para torná-las ainda mais atrativas, para que você fique ainda mais dependente delas e, sem perceber, revele ainda mais sobre si mesmo(a). Um processo que se auto-alimenta, tendo como isca o prazer proporcionado pelo uso dessas redes, igual à “ilha de Circe”.

No livro do Apocalipse (capítulo 13), é profetizado que, no final dos tempos, o Anti-Cristo conseguirá dominar a maior parte da sociedade humana, que se mostrará dócil e contente com essa dominação. A experiência com as redes sociais, a meu ver, comprova como isso está cada vez mais fácil de fazer. 

Cabe a cada um(a) de nós, portanto, ter consciência desses problemas. Usar sim as redes sociais, por suas qualidades, mas nunca se deixar dominar e escravizar por elas.
 
Com carinho

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