A FÉ CRISTÃ PRECISA SER CEGA?

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Estando sempre preparados para para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. 1 Pedro 3, versículo 15

Muitas pessoas acham que o cristianismo é uma fé cega, irracional. E o interessante é que alguns cristãos, sem perceber, dão força a essa ideia quando defendem que a fé verdadeira precisa ser cega, ou seja, não precisa se apoiar na razão.

Mas, não é isso que a Bíblia ensina, conforme pode ser visto no texto acima. O apóstolo Pedro afirma que precisamos estar sempre preparados para explicar as razões que nos levam à fé em Jesus Cristo. E se precisamos apresentar razões, é porque a fé precisa também ser racional e, portanto, nunca pode ser cega.

Portanto, é a própria Bíblia quem pede para os cristãos usarem sua razão e avaliarem os argumentos contra e a favor da doutrina cristã. E tal postura demonstra grande segurança de que o cristianismo se apoia numa base racional sólida.

Agora, sei que a esmagadora maioria das pessoas não se converte depois de analisar argumentos, contra ou a favor do cristianismo. A conversão se dá num ato de fé inspirado pelo Espírito Santo. Em outras palavras, a caminhada espiritual das pessoas quase nunca começa pela razão. Mas não acho viável, no mundo moderno, as pessoas conseguirem progredir espiritualmente sem usar seu raciocínio para entender as bases da fé cristã.

Mais cedo ou mais tarde as dúvidas vão surgir, sobre esse ou aquele aspecto da fé cristã e se as pessoas não encontrarem explicações que façam sentido lógico, não vão conseguir superá-las e podem até se afastar da fé. Por exemplo, jovens criados/as na igreja frequentemente perdem sua fé depois de entrar na faculdade e serem submetidos às dúvidas de professores ateus. Como não têm boas respostas para os questionamentos que ouvem, esses jovens ficam confusos e muitos se perdem.

Vou dar alguns exemplos das respostas racionais que a doutrina cristã tem para diversas questões lançadas contra o cristianismo, comprovando que nossa fé não é e nem precisa ser cega. É claro que não tenho espaço aqui para falar de todas as possíveis críticas feitas à fé cristã – falo sobre várias delas em outras postagens aqui no site. Mas, acredito que alguns poucos exemplos servem para comprovar o que acabei de falar

O que não pode ser provado pela ciência é irracional?

Os materialistas – quem não acredita em Deus e pensa só existir o mundo material – afirmam que a fé cristã é irracional porque não pode ser provada cientificamente. Para essas pessoas, o que não recebe o “selo de aprovação” da ciência não existe ou é mentira.

Ora, é evidente que experimentos científicos nunca vão conseguir provar a existência do mundo espiritual, que não é físico, pela sua própria natureza. É como se eu tentasse medir o peso de uma pessoa com uma régua – não vai ser possível. Mas, isso não quer dizer que a pessoa não tenha peso e sim que a régua não é o instrumento adequado para medir o peso (é preciso uma balança para fazer isso).

A falta de evidencia científica sobre o mundo espiritual não é prova que essa outra realidade não existe. No máximo, indica que não é possível provar o mundo espiritual a partir de experimentos da ciência. Mas, isso não quer dizer que acreditar no mundo espiritual seja irracional.

Um exemplo explica melhor o que acabei de afirmar. Imagine duas pessoas estão começando a andar por uma estrada que não sabem onde vai dar. A primeira pessoa acha que a estrada vai dar na cidade A e a outra acha que vai acabar na cidade B. E não há placas indicativas e ninguém para quem perguntar sobre o caminho. Evidentemente, durante a caminhada não haverá como garantir quem está certo – somente ao chegar no final é que a verdade será conhecida.

Aí um dos viajantes fica acusando o outro de ser irracional, por acreditar que a estrada vai dar numa cidade diferente daquela que ele pensa ser o destino correto. Ora, isso não é justo, pois não há como provar quem tem razão, antes de chegarem ao destino final.

É exatamente essa a situação de quem acredita que nada existe depois desse mundo e acusa o povo cristão de ser irracional. Quem não acredita em Deus acha que a “estrada da vida” não vai dar em lugar nenhum, enquanto o povo cristão acha que vai dar no Paraíso (para uns) e no Inferno (para outros). E só vamos ver a verdade depois de sair dessa vida terrena.

Voltando ao exemplo dos dois viajantes, é claro que, ao longo do caminho, eles tentarão coletar evidências para confirmar se estão no caminho certo. E as evidencias coletadas podem fortalecer ou enfraquecer sua crença inicial. Da mesma forma, por exemplo, no caso do povo cristão, uma benção obtida como resposta de oração ou uma profecia que se cumpra, reforçam a convicção das pessoas que o mundo espiritual existe mesmo.

Mas, nunca serão colhidas evidencias suficientes para provar estar certo ou errado aquilo que se crê. Portanto, os dois lados vão seguir sua vida com base na fé que têm: uns achando que nada existe depois dessa vida, enquanto outros acham que existe muita coisa.

A fé com base no testemunho da Bíblia é irracional?
Outra objeção feita ao cristianismo tem a ver com o fato da nossa fé ser baseada no testemunho de um livro, a Bíblia. Há quem considere que isso é um absurdo pelo fato da Bíblia não ser confiável.

Mas, essa outra crítica ao cristianismo também não é válida. Primeiro, porque todas as crenças são construídas da mesma forma, isto é, com base em testemunhos considerados confiáveis. Por exemplo, as pessoas usam um GPS porque acreditam que a informação nele contida é a expressão correta da geografia da área onde estão, ou seja, elas têm fé no “testemunho” daquele produto. Outro exemplo: Eu nunca vi um elétron, mas acredito na sua existência porque confio naquilo que muitos cientistas relataram.

Praticamente tudo que sabemos é baseado em testemunhos de terceiros – até nosso nome e dia de nascimento. E é esse processo de testemunho que permite a transmissão do conhecimento humano e o desenvolvimento da ciência e da cultura.

Assim, construir crenças com base em testemunhos de terceiros, que a pessoa considere verdadeiros, é inteiramente racional – todo mundo faz isso. A questão de fato, então, é quais testemunhos podem ser considerados confiáveis. Por exemplo, será que a Bíblia é um testemunho verdadeiro?

Quem critica o cristianismo afirma que não. E é interessante perceber que, nessa altura da conversa, a própria escolha de qual testemunho é ou não confiável passa a ser feita com base nas crenças que as pessoas já têm, e nem poderia ser diferente. Em outras palavras, os testemunhos que as pessoas já aceitaram como verdadeiros vão determinar quais outros testemunhos também serão aceitos. Por exemplo, se a pessoa foi convencida pelo autor de um livro que a Bíblia não é verdadeira, ela considerou o testemunho desse autor como confiável e o usou para determinar que outros testemunhos (os dos autores da Bíblia) não são adequados. E assim por diante.

Na prática, as pessoas escolhem, de forma consciente ou não, aquilo em que irão acreditar, pois aceitam os testemunhos com base naquilo que já pensavam antes. Foi por isso que o grande teólogo cristão Anselmo de Canterbury afirmou: “creio para poder entender“.

Para os ateus o testemunho da Bíblia não é confiável, pois eles não acreditam no sobrenatural e, portanto, um livro que fala disso todo o tempo não pode ser verdadeiro. Simples assim. E os cristãos constroem seu raciocínio de forma exatamente oposta. Portanto, se a pessoa não acredita que existe um mundo espiritual, rejeita tudo que a Bíblia descreve como fantasias e acusa quem pensa diferente dela de irracional. E os cristãos fazem exatamente o oposto.

Agora, muito pode ser dito para mostrar que a Bíblia é um documento historicamente correto, cheio de informações preciosas. Mas, para quem não acredita no mundo espiritual, relatos de milagres, de aparições de anjos, de pragas lançadas contra o povo egípcio, etc, não passam de lendas.

E voltando ao ponto inicial dessa discussão e, como não é possível provar que o mundo espiritual existe (nem que não existe), não há como sair desse impasse. Voltamos ao exemplo dos dois caminhantes na estrada, que não sabem onde ela vai acabar.

Em resumo, não é irracional usar a Bíblia como base para construir sua fé. É tão racional quanto acreditar que apenas experiências científicas podem comprovar a realidade. E é exatamente assim que todo conhecimento é construído. Portanto, ninguém pode acusar a fé cristã de ser irracional.

É claro que muitos cristãos, como eu já disse, pregam uma fé cega, mas esse é um problema de como essas pessoas encaram sua fé e não da doutrina cristã em si.

E essa visão estreita (a tal fé cega) também ocorre do lado dos ateus. Certa vez, um cientista que disse saber que as evidencias apontavam para um início do universo (o “Big Bang”), disse que preferia não aceitar essas evidências pelas consequências que elas geravam, isto é a necessidade de incluir na discussão a figura de um Criador que deu início ao universo. Esse cientista também preferia manter sua fé (nesse caso no mundo material) totalmente cega.

Com carinho

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