A FALTA QUE UM PROFETA FAZ

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Profetas fazem falta, muita falta nos dias de hoje.  E vou explicar o porquê.

O povo de Israel, nos tempos do Velho Testamento, contava com três figuras de autoridade: o rei (o líder civil), o sumo-sacerdote (o líder religiosos) e o profeta. Eram pessoas com papéis distintos. 

Ao rei cabia o governo civil, a liderança do povo durante as guerras, a administração da justiça e a manutenção da ordem pública. Normalmente, era uma pessoa apontada por Deus para essa função. A partir de certo momento da história de Israel, o rei passou a ser um posto hereditário, normalmente com os filhos sucedendo seus pais, exceto alguns poucos casos.

Os sacerdotes eram homens que pertenciam ao clã de Levi – um dos doze filhos de Jacó -, descendendo de determinadas famílias dentro desse clã. O sumo-sacerdote tinha uma linhagem ainda mais estrita e era escolhido com base em vários critérios (ficaria muito longo explicitar eles todos aqui). Ele era o líder de todo aparato religioso de Israel – algumas cerimônias religiosas eram feitas exclusivamente por ele, como entrar no local onde ficava a Arca da Aliança, durante a festa anual do Yom Kippur. 

A terceira figura de autoridade para o povo de Israel era o profeta, pessoa escolhida por Deus especificamente para transmitir sua vontade. Muitas vezes cabia a esse homem falar palavras incômodas, como críticas aos poderosos de plantão, com grande risco pessoal. 

Deus escolheu diferentes tipos de pessoas, ao longo da história para exercer o papel de profeta, como pastores de ovelhas, sacerdotes e agricultores. O papel de profeta nunca passou de pai para filho – era um ministério individual, pessoal.  

É fácil entender porque reis não podiam ser profetas: eles estavam mais preocupados com a manutenção do poder e assim frequentemente não faziam a vontade de Deus – bem parecido com os/as políticos/as no Brasil hoje em dia.

Mas é surpreendente perceber que os profetas normalmente também não pertenciam à classe sacerdotal, ou seja não eram líderes religiosos. Isso quer dizer que os sacerdotes , naquela época, também não eram muito bons em entender e pregar a real vontade de Deus. Talvez porque ficavam preocupados demais com os aspectos materiais da religião – administração do Templo, execução correta das cerimônias religiosas e manutenção dos próprios privilégios – para se preocupar em ouvir a Deus. 

A falta de profetas
Conforme já disse antes, penso que temos falta de profetas hoje em dia. Profetas reais, não aqueles/as que ficam por aí nas igrejas dizendo a toda hora: “o Senhor me faz saber isso ou aquilo“. Quase sempre essas pessoas não conhecem de fato a vontade de Deus e expressam apenas os desejos dos seus próprios corações (mesmo quando estão bem intencionados). 

E acho que há duas razões para a falta de profetas verdadeiros hoje em dia. A primeira é que eles/as frequentemente são procurados no lugar errado. As pessoas pensam que vão encontrar nos seus líderes religiosos – pastores, padres, bispos, etc – as palavras de profecia de que precisam.

Sacerdotes até podem ser profetas também, mas a experiência dos relatos do Velho Testamento indicam que isso não é garantido, nem muito frequente. Líderes religiosos muitas vezes não têm esse tipo de chamado de Deus ou até lhes falta estatura moral para cumprir esses papel (p. ex. aí se enquadram padres pedófilos ou pastores/as que exploram financeiramente os fiéis).

A segunda razão para a falta de profetas decorre do desinteresse das pessoas em exercerem esse papel nos moldes estabelecidos no Velho Testamento. Aliás, já era assim naquela época e tanto isso é verdade que, ao serem chamados para serem profetas, diversos homens escolhidos por Deus não ficaram satisfeitos – alguns até recusavam, como foi o caso de Moisés. Esses homens sabiam das dificuldades que os esperavam no cumprimento desse tipo de ministério.

Talvez você se surpreenda com o que acabei de dizer, pois o dom da profecia é muito procurado hoje em dia. Mas o dom que as pessoas querem não é o dom que a Bíblia descreve, mas sim uma ideia meio fantasiosa que elas construíram nas suas cabeças. Elas imaginam que ser profeta é ter poder para fazer revelações sobre o que vai acontecer no futuro. E como conhecer o futuro é um desejo sempre presente nas pessoas, esse tipo de poder coloca o profeta em evidência. 

Na verdade, uma profecia até pode conter revelações sobre o que vai acontecer no futuro, mas esse não é seu objetivo principal. Conhecer eventos futuros, digamos assim, é o lado bom de ser profeta, mas isso frequentemente nem se faz presente. Normalmente profecia é algo bem diferente: uma mensagem difícil de transmitir, especialmente porque quase sempre envolve críticas ao comportamento de outras pessoas ou até de toda uma comunidade.

Em outras palavras, muitas pessoas nas igrejas desejam ser profetas, mas não profetas de verdade, conforme a Bíblia descreve. Elas querem mesmo é ser futurólogos/as e gozar da notoriedade que isso gera. Quase ninguém busca ser profeta para exortar, consolar e ensinar as pessoas, coisa difícil e desconfortável.

É por isso que profetas verdadeiros/as são escassos e eles/as fazem muita falta. Se eles/as fossem mais comuns, líderes políticos advertidos/as publicamente quando suas políticas fossem erradas aos olhos de Deus. Líderes religiosos/as ouviriam o que precisariam fazer para conduzir melhor seus rebanhos e fazer com que as pessoas se aproximassem mais de Deus. E as pessoas comuns também tirariam muito proveito da presença de profetas verdadeiros/as, pois veriam seus/suas líderes sendo colocados no devido lugar, sob influência de palavras fortes, emanadas diretamente de Deus. E também aprenderiam a conhecer melhor aquilo que Deus deseja delas, para poder corrigir seus caminhos.

Profetas verdadeiros/as fazem falta. Muita falta.

Com carinho 

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