A ESTRATÉGIA DO MINISTÉRIO DE JESUS

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Hoje vou falar sobre estratégia. Mais especificamente sobre a estratégia que Jesus adotou no seu ministério, isto é, fazer discípulos.

Sua atuação envolveu grande investimento de tempo para identificar, desenvolver e empoderar seus discípulos, para que eles viessem a dar continuidade à obra de Deus.
Essa estratégia é cada vez mais importante no mundo atual, embora, na prática, seja pouco usada pelas igrejas cristãs. Basta ver os constantes conflitos que acontecem entre as pessoas que frequentam as igrejas e a realidade que os crentes mudam de igreja quase com a mesma frequência com que mudam de roupa. 
Há muitas razões para isso, como, por exemplo, a impaciência das pessoas, que querem resultados imediatos em todas as áreas das suas vidas, inclusive no campo espiritual. Quando os resultados não vêm com a velocidade que desejam, elas se decepcionam e mudam de igreja.
Mas, hoje eu quero me concentrar num problema específico: a diferença entre os objetivos das pessoas e e os objetivos das igrejas. Vou tentar me explicar melhor. Uma organização pode ser definida como um grupo de pessoas que se junta na busca de objetivos comuns (sua missão). Vejamos alguns exemplos de missões: governar o país mantendo a ordem e promovendo a justiça social (governo federal), dar lucro para os investidores (empresas privadas), converter almas a Cristo (igrejas cristãs) e assim por diante. 
São os objetivos da organização que verdadeiramente definem os seus caminhos e sua forma de operação. Se os objetivos forem bons – por exemplo, ajudar o próximo -, a organização tende a ser boa. Mas, quando os objetivos são egoístas, como obter o lucro a qualquer custo, isto é, sem considerar o impacto das ações da organização sobre a sociedade como um todo, as coisas tendem a caminhar mal.
Cada pessoa que participa de uma dada organização costuma ter seus próprios objetivos de vida – p. ex. segurança, prosperidade, reconhecimento e assim por diante. E os objetivos das pessoas costumam ser diferentes daqueles estabelecidos pela organização à qual pertencem. Por exemplo, um dos objetivos das pessoas costumam ser maximizar seus rendimentos pessoais (salários), enquanto é comum que as organizações queiram maximizar seus lucros. E um dos caminhos para a maximização dos lucros da organização costuma ser pagar o menos possível para os seus colaboradores. Portanto, há um constante potencial para conflito aí.
Quando não há muita compatibilidade entre os objetivos da organização e os objetivos dos seus integrantes, é preciso trabalhar para aproximar as diferenças, para alinhar os objetivos pessoais e os corporativos. Por exemplo, no exemplo que acabei de dar, a solução poderia ser distribuir pelos funcionários parte dos lucros, fazendo-os sentir-se  como “sócios” da empresa. E é exatamente por isso que existem os bônus. 
Cristãos são pessoas como as outras e, portanto, almejam mais ou menos as mesmas coisas: conforto, prosperidade, segurança, etc. A diferença é que os cristãos verdadeiros não almejam só coisas materiais, mas também se empenham por herdar a vida eterna. E sabem que precisam impor certos limites aos seus objetivos materiais para não prejudicar seu acesso à vida eterna. 
Agora, as igrejas têm (ou deveriam ter) como objetivo principal implantar o Reino de Deus neste mundo. E isto significa evangelizar, acolher e discipular as pessoas, dar assistência material aos menos favorecidos, etc. E é fácil perceber que não há compatibilidade total entre esses objetivos e aqueles que as pessoas estabelecem para si mesmas.
Afinal, os requisitos necessários para a implantação do Reino de Deus são sacrifício, dedicação, desprendimento pessoal e assim por diante. Enquanto os objetivos das pessoas têm a ver com prosperidade, conforto, segurança, etc. No primeiro caso, é preciso “domar” o eu, enquanto no segundo, ele domina.
Como algumas igrejas administram esse conflito
Ao longo do tempo, as igrejas têm desenvolvido várias estratégias para lidar adequadamente com essa diferença de objetivos. Vou dar alguns exemplos:
Há igrejas que ajustam seus objetivos para torná-los mais “palatáveis” para as pessoas – algumas chegam a fazer estudos de marketing para entender melhor o que seu público quer ouvir. E aí elas liberalizam as práticas e costumes considerados adequados, tornando as exigências feitas às pessoas mais fáceis de suportar e cumprir. E, para dar suporte teológico para essa postura bem liberal, relativizam os ensinamentos da Bíblia, especialmente os mais incômodos, como aqueles relacionados com o pecado.
O problema com o liberalismo excessivo é que a igreja se torna muito parecida com o mundo e acaba ficando irrelevante – o “sal”, que deveria ser a ação da igreja na sociedade deixa de ter sabor.
Há igrejas que estabelecem objetivos sérios e importantes para seus frequentadores, mas, na prática, não lutam por eles. Querem agir para ajudar as pessoas a mudar de vida, pois muitos dos seus hábitos delas são errados, mas tudo fica no discurso. As pessoas continuam mais ou menos vivendo suas vidas, numa zona de conforto, sem serem desafiadas em nada. Cada uma delas mantém seu padrão de vida – inclusive seus “pecados de estimação” – e não há muito conflito. 
Esse tipo de igreja funciona como aquelas que liberalizou demais suas práticas, embora não reconheça que fez isso. Elas são nominalmente mais rigorosas e preocupadas com o pecado, mas isso fica apenas no discurso.
Outras igrejas lidam com esse conflito especializando-se em divulgar doutrinas simplistas, mas que falam ao coração das pessoas. Fazem muitas promessas – prosperidade, saúde absoluta, etc – que, infelizmente, não têm qualquer respaldo bíblico.
As pessoas aderem a essas igrejas de forma entusiasmada e elas crescem rapidamente. Mas, quando as promessas não se materializam, elas ficam decepcionadas e abandonam a igreja que estavam frequentando e vão para outra, onde o ciclo de promessas e esperanças começa de novo. Nesse caso – o das promessas sem respaldo bíblico –  as igrejas tentam convencer as pessoas que não há diferenças entre os objetivos da organização e os dos seus frequentadores, mas a realidade, na maior parte das vezes, acaba se impondo.  
Há ainda igrejas que tentam harmonizar os  objetivos recorrendo ao medo do Inferno para controlar as pessoas. E muitas pessoas, apavoradas (especialmente aquelas com menos cultura e conhecimento), se deixam “escravizar”. Abrem mão dos seus objetivos pessoais em prol dos objetivos das igrejas. Os objetivos das igrejas passam a dominar suas vidas.
As consequências aqui são cristãos amedrontados e um ambiente propício à hipocrisia – as pessoas apenas fingem que estão fazendo aquilo que delas é requerido.
Como Jesus resolveu esse conflito
Jesus agiu de forma criativa. Sua estratégia foi simples: Ele trabalhou para que seus seguidores mudassem seu comportamento pessoas. E adotassem para suas vidas objetivos mais em linha com os parâmetros do Reino de Deus, como perdão, fidelidade a Deus, amor ao próximo e assim por diante.
E o ponto crucial dessa estratégia é a mudança interior. Jesus se empenhou para que seus discípulos passassem a “sonhar os sonhos de Deus”. Isto é, para que essas pessoas internalizassem os objetivos do Reino de Deus nas suas vidas e passassem a adotá-los como seus.
Para conseguir fazer isso, Jesus investiu pesadamente no discipulado dos seus seguidores: passou três anos convivendo com essas pessoas dia e noite e ensinando-as através de cada atitude e palavra que vinham dele. Foi um trabalho difícil e lento, mas que produziu mudanças verdadeiras e duradouras – basta ver o caso do apóstolo Pedro, antes um homem instável e medroso e, depois, um dos pilares da igreja cristã.  
E, durante o processo de discipulado dessas pessoas, Jesus não se afastou um milímetro da vontade de Deus – não fez concessões e muito menos permitiu que as pessoas se acomodassem numa zona de conforto. Chamou-as à responsabilidade e cobrou delas compromisso com o Reino de Deus.
É claro que essa estratégia não gerou resultados imediatos – depois de três anos, Jesus conseguiu formar apenas um punhado de discípulos fiéis. Mas os resultados foram duradouros. Os discípulos por Ele formados multiplicaram o trabalho de Jesus, formando novos discípulos e levando a mensagem cristã aonde iam. E a igreja cristã cresceu de forma segura e confiável, sem fazer concessões, mas também sem escravizar as pessoas.  
Infelizmente, essa estratégia não é muito popular hoje em dia, por ser demorada e requerer muito esforço dos líderes religiosos. Boa parte desses líderes tem pressa e mede seu sucesso pelo crescimento rápido das suas próprias igrejas. Assim, não há tempo para discipular, só para fazer promessas e mais promessas.
Essa estrategia também não agrada às pessoas sedentas por promessas de prosperidade e cura e buscando resultados imediatos. Poucas pessoas têm paciência para frequentar uma igreja por bom tempo, participar dos cultos, frequentar a Escola Bíblica e grupos de discipulado para aprender sobre a Palavra de Deus e consolidar seu caráter cristão.  
Aí se junta “a fome com a vontade de comer”: todo mundo quer resultados rápidos e procura investir o mínimo de esforço para conquistá-los. Os conflitos são simplesmente “empurrados para baixo do tapete” e frequentemente nunca resolvidos, ou resolvidos apenas quando as pessoas saem da igreja e levam consigo seus problemas. 
Reconhecer que os objetivos do Reino de Deus e os objetivos das pessoas não são sempre compatíveis entre si é muito importante, pois essa constatação dá bem a dimensão do desafio a ser enfrentado pelas igrejas cristãs. Simplesmente, não há respostas fáceis e resultados imediatos. 
Afinal, o discipulado cristão é um processo de mudança das pessoas. E essa foi a estratégia adotada por Jesus. Ele procurou ensinar as pessoas a deixar de lado seu próprio eu e passar a priorizar os objetivos do Reino de Deus. E essa não é uma tarefa fácil. Essa estratégia exige muito tempo, paciência e esforço. Mas, esse é o único caminho possível.

Com carinho

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Vinicius Moura
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Carmem

Obrigado pelas suas palavras. Realmente um dos nossos desafios é fazer com que as pessoas conheçam verdadeiramente os ensinamentos de Jesus e o prazer que é militar na Sua Igreja.

Vinicius

carmen
Visitante

Vinicius
Esta reflexão está muito boa. Ela está em uma linguagem simples, de fácil entendimento. Oxalá, pessoas que ainda não conhecem os objetivos dos cristãos e da igreja, entre neste blog e venha conhecer-nos. É a minha oração.
Carmen