A DESTRUIÇÃO DO PADRÃO FAMILIAR TRADICIONAL

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Os anúncios de televisão costumam mostrar famílias que seguem determinado padrão familiar tradicional – pai, mãe e filhos(as). Algumas vezes também são incluídos avôs e/ou avós. Parece-me que esse é o modelo familiar que Deus concebeu e deseja para os seres humanos. E deve a manutenção desse modelo deve ser perseguido até o limite do possível, pois é o melhor.

Agora, “limite do possível” significa aquela situação onde manter a família como está causaria mais mal do que bem: por exemplo, maridos que agridem continuamente as mulheres (inclusive na frente dos filhos) ou são sempre infiéis; ou filhos(a) que se tornam dependentes de drogas e exploram os pais para manter seu vício. Insistir na preservação dos laços familiares tradicionais nesses casos é contraproducente e pode gerar problemas sérios (veja mais).

Também não se pode negar que a maioria das rupturas familiares tem outras causas e muitas delas poderiam ser superadas através de um esforço sério, como terapia, exercício da tolerância, perdão e assim por diante. Mas esse processo é longo e doloroso e as pessoas não costumam ter paciência e comprometimento para passar por ele – é mais fácil romper os laços familiares, fugir dos problemas.

Por causa disso, infelizmente, a realidade que está diante de nós é a do enfraquecimento dos laços familiares tradicionais, mesmo entre os(as) cristãos(ãs) – as últimas estatísticas do IBGE indicam que cerca de metade das famílias brasileiras não mais está dentro do padrão familiar tradicional.

Assim, existem hoje todos os tipos imagináveis de arranjos familiares como, adultos(as) vivendo o segundo ou terceiro casamento, filhos(as) dos diferentes casamentos dos seus pais vivendo em conjunto – ou seja, crianças e adolescentes que vivem como irmãos(ãs) sem o ser. São comuns também núcleos familiares onde pais ou mães vivem sozinhos com um ou mais filhos(as). E também situações em que filhos(as) que passam parte do tempo vivendo num núcleo familiar (do pai) e o resto do tempo em outro (da mãe), às vezes até em cidades diferentes. Conforme já disse, essa é uma realidade da qual não há mais como fugir.

A forma como muitas igrejas abordam esse problema é, a meu ver, errada. Ficam insistindo no retorno a qualquer custo ao padrão familiar tradicional pois, segundo elas, é o único que a Bíblia aprova. Aí, mulheres são forçadas a perdoar maridos que nunca mudam de fato e continuam a agredi-las ou a trai-las, filhos(as) viciados seguem explorando os pais. Ou seja, as mazelas familiares são perpetuadas em nome do cristianismo.

O que cabe então aos cristãos fazer diante desse quadro de dissolução da família? Acho que três coisas. Em primeiro lugar, nunca rejeitar famílias que mais não seguem o padrão tradicional ideal – infelizmente ocorre, por exemplo, com a Igreja Católica que ainda nega a comunhão aos divorciados.

Jesus nunca fez isso. Ao contrário, ensinou que os “doentes” (pecadores) é que precisam do “médico” (igreja). Portanto, é preciso aceitar as famílias como são e aprender a trabalhar a partir dessa.

Isso não significa aprovar ou compactuar com os erros e os abusos que levam à dissolução dos laços familiares, muitas vezes por motivos até bobos. Mas apenas conviver de forma amorosa com quem vive problemas e dificuldades para trilhar um caminho bom.

Discriminar as famílias que vivem realidade diferente da tradicional só afastas as pessoas das igrejas e de Deus e aí fica muito mais difícil conseguir ajudá-las, inclusive para que corrijam seus erros.

Segundo, além de não discriminar essas famílias alternativas, é preciso tornar o ambiente das igrejas amigáveis para todos os tipos de família. Vou me explicar melhor. Suponhamos que determinada igreja promova um Encontro Anual de Famílias. Será que quando essa atividade é planejada, usa-se como referencia apenas o modelo de família tradicional ou as atividades vão levar em conta todas as outras situações familiares? Se todas as atividades tiverem como pressuposto apenas a família padrão, as pessoas que vivem outras realidades vão se sentir deslocadas. E o pior é que nem irão reclamar pois frequentemente pensam que, como estão erradas, não merecem mesmo tratamento melhor. Eu já  senti esse tipo de problema na própria pele.

Finalmente, reconhecer que pessoas que vivem outras realidades familiares também são usadas por Deus e suas experiências de vida têm muito a ensinar. É claro que testemunhos de casais reconciliados e/ou filhos(as) que retornaram para casa depois muito esforço e oração, são importantes, pois servem para incentivar as pessoas a lutar e vencer seus problemas. E lhes dá esperanças.

Mas, nada ensina mais e melhor do que ouvir as pessoas que não obtiveram sucesso na manutenção da estrutura familiar tradicional. Afinal, é assim que a Bíblia faz. Você acha que a família de Abraão, era exemplar? Vejamos o que aconteceu com dela: Abraão vendeu Sara para o Faraó; Jacó mentiu e roubou a benção de seu irmão, Esaú; os irmãos venderam José como escravo, por ciúmes, e assim por diante. O mesmo pode ser dito sobre a família de Davi, onde aconteceram coisas terríveis, como o estrupo de uma moça pelo seu meio-irmão.

E nunca podemos esquecer que grandes homens e mulheres da fé, pessoas amplamente usadas por Deus, fracassaram em importantes aspectos das suas vidas familiares. Por exemplo, Davi, o “homem segundo o coração de Deus“, cometeu adultério e homicídio (2 Samuel capítulo 11). Abraão não conseguiu manter suas duas mulheres – Sara (esposa) e Agar (concubina) – debaixo do mesmo teto e teve que exilar a concubina e seu filho, Ismael (Gênesis capítulo 21).

Com carinho

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