A CORRIDA DA FÉ

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Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé… Considerai, pois, aquele que suportou tais contradições dos pecadores contra si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos. Hebreus capítulo 12, versículos 1 a 3

A carta aos Hebreus tem autor desconhecido – é o único livro do Novo Testamento nessa condição. Há quem o atribua a Paulo, mas a maioria dos estudiosos entende ser o estilo do texto muito diferente daquele que o apóstolo usou em suas outras cartas, como Romanos ou Gálatas.

O texto deve ter sido escrito por volta do ano 65 da nossa era, já que Timóteo ainda estava vivo – é citado no início da carta.

Hebreus é um texto dirigido ao povo judeu e busca mostrar que Jesus é o Messias, o filho de Deus. A razão para ter sido escrito é simples: naquele momento da história havia grande discussão no meio dos judeus sobre quem Jesus de fato era – não devemos nunca esquecer que o cristianismo começou como um grupo dentro do judaísmo.

É interessante observar que o argumento teológico do autor de Hebreus, na passagem que citei acima, faz uso de uma analogia tirada dos esportes – fala em correr a carreira da fé. E isso não é de se estranhar: os esportes já eram muito populares naquela época, sendo que as Olimpíadas já ocorriam na Grécia há séculos. E a vitória numa prova olímpica era considerada grande honra.

O trecho citado acima fala da “corrida” da fé, ou seja da trajetória que cada cristão(ã) deve seguir ao longo da sua vida espiritual. E começa falando que temos uma nuvem de testemunhas para nossos atos.

E temos mesmo e de dois tipos. O primeiro grupo de testemunhas é a sociedade onde vivemos. As pessoas tendem a acompanhar de perto como os(as) cristãos(ãs) se comportam e são rápidas em apontar desvios de conduta e criticar. Sem dúvida, há um rigor de julgamento maior com os(as) cristãos(ãs).

Em outras palavras, a sociedade julga a doutrina cristã pela maneira como os(as) cristãos(ãs) se comportam. E não deveria ser assim, afinal a doutrina cristã não perde validade se aqueles(as) que dizem segui-la não obedecem de fato aquilo que Jesus ensinou. Mas essa é a realidade dos fatos e isso coloca sobre os ombros de cada cristão(ã) um certa dose de responsabilidade.

Um bom exemplo do que acabei de falar é Gandhi, o líder do movimento de independência da Índia e um dos heróis do mundo no século passado, homem com história de vida admirável. Ele seguia o hinduísmo, mas quando jovem foi exposto às ideias cristãs.

Certa vez, já famoso, ele declarou: “eu quero Jesus, mas não quero o cristianismo“. Estava se referindo ao fato que os europeus, que se diziam cristãos, cometiam barbaridades com as populações dos países que dominavam, como era o caso da Índia.  

O outro grupo de testemunhas dos nossos atos é formado pelos “heróis da fé” (Hebreus capítulo 11), homens e mulheres que fizeram a obra de Deus e deixaram uma marca na história, como Moisés, Abraão ou Ester.

Essas pessoas são testemunhas nossas no sentido que suas ações servem de fonte de comparação para nós, permitindo apontar as coisas boas e ruins que fazemos hoje em dia.

Depois, o texto de Hebreus fala sobre a necessidade de deixar de lado o embaraço para seguir na “corrida” – outras traduções falam em “desembaraçando-nos de todo peso“. Do que o autor está falando?

Está se referindo às coisas que atrapalham nossa vida espiritual, mesmo não sendo pecados. Elas nos impedem de viver uma fé plena, de estabelecer uma relação íntima com Deus. 

Por exemplo, digamos que eu goste muito de futebol, o que nada tem de errado em si. Mas se esse gosto atrapalhar meu compromisso com a obra de Deus, aí ele se tornou um peso, um embaraço. O mesmo pode ser dito de outras coisas importantes como família, trabalho, lazer, etc. Todas elas são importantes e em princípio boas, mas se passarem da medida certa, podem atrasar o desenvolvimento do relacionamento com Deus.

Outra coisa que pode atrapalhar a “corrida” da fé é o pecado. E é mais fácil de entender a razão do que no caso anterior: o pecado nos afasta de Deus. Rompe o relacionamento que com Ele. E não podemos “correr” bem sem respirar o “oxigênio” que vem da relação com o Espírito Santo. Simples assim.

Assim, precisamos nos santificar, lutando diariamente para deixar de lado as tentações e os pecados de qualquer natureza. É somente assim que conseguimos avançar na nossa fé.

O último ponto a comentar é sobre o alvo da corrida: aquilo que nos dá razão para correr. Um atleta se esforça numa Olimpíada para vencer sua prova e ganhar a medalha de ouro. Além do sentimento de missão cumprida, a vitória olímpica atrai fama e naturalmente vantagens financeiras, através de patrocínios.

O alvo do atleta olímpico é, portanto, a medalha. De certa forma, é para essa medalha que ele “olha” mentalmente quando está treinando, cansado, sentindo dor. É no alvo a sua frente que o atleta encontra motivação para seguir.

No caso da corrida da fé, o alvo é Jesus: receber a salvação que somente pode vir d´Ele. É esse o alvo que precisamos ter em mente, especialmente quando estivermos espiritualmente cansados(as), doloridos(as) ou desanimados(as). E pensar naquilo que Jesus nos prometeu que nos vai dar forças para prosseguir, sem esmorecer jamais.

Com carinho

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