A BANALIDADE DO MAL

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A pergunta mais frequente que ouço, ao longo de mais de 25 anos de ensino sobre a Bíblia, é: Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? Para aqueles(as) interessados nessa complexa questão, há outro post aqui no blog onde trato disso (veja mais). Agora, quase nunca ouço a pergunta oposta: Por que pessoas boas fazem coisas ruins?

Em outras palavras, ficamos surpresos e revoltados quando uma boa pessoa sofre. Tendemos a achar que Deus foi injusto e não se importou com aquela pessoa como devia. Mas achamos natural quando tomamos conhecimento que alguém julgado “bom” comete um ato ruim. E isso revela muito sobre a natureza humana: sempre julgamos as situações usando o critério que mais nos favorece.

O fato é que o ser humano mostra-se capaz de atos maravilhosos – misericórdia, perdão, caridade e outros – mas também de coisas tenebrosas – inveja, raiva, maledicência, egoismo e outros. Somos capazes de fazer tanto o bem como o mal, dependendo das circunstâncias da vida e das nossas motivações no momento.

Essa contradição humana é o tema do famoso livro “O médico e o monstro”. O personagem principal, que representa a condição humana em geral, tem dentro de si tanto um médico bom, como um “monstro assassino”.

Tempos atrás, havia entre os intelectuais a certeza que o ser humano é basicamente bom e somente pratica o mal por ignorância ou por alguma deformação de caráter. Vemos ecos dessa postura na mídia, quando tenta justificar os crimes cometidos por pessoas pobres apenas com base na carência da suas vidas.

O cristianismo pensa diferente: defende a tese que a natureza humana tende para o pecado e torna-se preciso lutar constantemente para se manter no caminho certo.

Agora, a tese dos intelectuais foi derrubada por uma grande intelectual, de origem judaica, Hannah Arendt. Ela defendeu a ideia que “o mal é banal”, ou seja pode ser cometido habitualmente e sem muita percepção por pessoas comuns, sem qualquer problema maior aparente.

Ela chegou a essa conclusão ao acompanhar de perto o julgamento do famoso carrasco nazista Adolf Eichmann, na década de sessenta do século passado. Seu objetivo inicial foi estudar o que tinha levado uma pessoa a praticar o mal em escala tão grande.

E antes do começo do julgamento, estava certa que iria encontrar na sala do tribunal um monstro. E contou que viu apenas um homem de óculos, com cara de burocrata, igual a tantas outras pessoas que conhecia. Ela não parecia desequilibrado e sua vida pregressa tinha sido boa – ela descreveu sua experiência no famoso livro “Eichmann em Jerusalém”.

Um ser humano normal, como você ou eu, tinha cometido crimes terríveis por motivos banais, como avançar na própria carreira. Em outras palavras, essa conclusão deu força ao pensamento cristão – o mal existe em cada um(a) de nós.

Na Bíblia há um bom exemplo de mal praticado por motivos banais: o Rei Davi mandou matar seu capitão da guarda (Urias), homem extremamente fiel, para esconder que a mulher de Urias estava grávida do próprio rei (2 Samuel capítulo 12, versículos de 7 a 15).

Se o profeta Natã não tivesse feito Davi dar-ser conta do seu ato horrível, o rei teria ficado com sua consciência em paz. E estou falando aqui de Davi, um “homem segundo o coração de Deus”, como a Bíblia se refere a ele.

A verdade é que nem sempre somos capazes de distinguir claramente entre o bem e o mal que praticamos. Muitas vezes, aquilo que parece ser o bem pode ter uma raiz de mal ou vice versa. E nem sempre nossas intenções estão alinhadas com a qualidade dos nossos atos – a Bíblia fala sobre isso em Romanos capítulo 7, versículo 15, quando o apóstolo Paulo disse, referindo-se a si mesmo: “…pois o [bem] que quero isso não faço, mas o mal que não quero isso faço…”

Concluindo, Deus nos chama para sermos mais humildades. Para aprender a conhecer nossas próprias fraquezas e lidar melhor com elas. E também para mantermos vigilância constante sobre nossos próprios passos, para que eles não nos levem para longe dos caminhos estabelecidos por Deus.

O mal banal, isto é aquele que parece pequeno e trivial, sem maiores consequências, é algo terrível. Isto porque podemos ceder a ele diariamente sem nem nos darmos conta das consequências. E muitas vezes somente vamos perceber onde nos metemos quando o estrago já é muito grande.

A Bíblia alerta sobre isso quando nos manda vigiar e orar constantemente, para que não venhamos cair em tentação (Mateus capítulo 26, versículo 41).

Com carinho

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Anônimo

Achei esse um alerta muito importante sobre como os aprendizados de Cristo devem estar presentes nas vírgulas de nossa existência, no cotidiano, nos momentos banais. Me fez pensar. Obrigada! Roberta Dias Campos