O HOMEM QUE VENDEU A PRÓPRIA ESPOSA

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O ano de 2016 ficou marcado pela operação Lava Jato, que desvendou um esquema de corrupção gigantesco, envolvendo políticos, empresários e funcionários de estatais.

Foram tantas as denúncias e as provas de corrupção desenfreada que muitas pessoas de bem ficaram com a impressão que não mais é possível corrigir a sociedade brasileira. Que a corrupção está tão entranhada entre nós que nenhum esforço vai conseguir mudar esse quadro.

Eu tenho uma visão mais otimista. Concordo que a corrupção no Brasil atingiu níveis insuportáveis e tornou-se fundamental fazer mudanças importantes no nosso sistema político.

Mas é possível, sim, tornar as coisas melhores. Construir uma sociedade que venha no futuro se pautar pelos valores da honestidade e da sinceridade.

E para justificar essa minha esperança, aponto para a história de diversos personagens bíblicos, homens e mulheres, que cometeram atos muito indignos, mas ainda assim foram capazes de deixar um legado admirável.

E tomo como exemplo o caso de Abraão: ele foi um homem de grande fé e é profundamente admirado por isso. Mas não é possível dizer que Abraão tenha sido um homem sem falhas, pois cometeu vários atos indignos e um deles foi a venda da sua própria esposa, Sara, para o faraó do Egito, quando realizou um gordo lucro. O relato bíblico é o seguinte:

Houve fome naquela terra e Abrão desceu ao Egito para ali viver algum tempo. Quando estava chegando ao Egito, disse a Sarai, sua mulher: “Bem sei que você é bonita. Quando os egípcios a virem, dirão: ‘Esta é a mulher dele’ e me matarão, deixando você viva. Diga que é minha irmã, para que me tratem bem e minha vida seja poupada por sua causa´”. Quando Abrão chegou ao Egito, viram os egípcios que Sarai era uma mulher muito bonita. Os homens da corte a elogiaram diante do faraó e ela foi levada ao seu palácio. Ele tratou bem a Abrão por causa dela e Abrão recebeu ovelhas e bois, jumentos e jumentas, servos e servas, e camelos. Mas o Senhor puniu o faraó e sua corte com graves doenças… Por isso o faraó mandou chamar Abrão e disse: “O que você fez comigo? Por que não me falou que ela era sua mulher?… Aí está a sua mulher. Tome-a e vá!” A seguir o faraó deu ordens para que… Abrão partisse, com sua mulher e tudo o que possuía. Gênesis capítulo 12, versículos 10 a 20

Abraão justificou sua mentira – apresentar Sara como sua irmã e aceitar vendê-la ao faraó por um gordo dote – por causa do medo que sentiu de ser maltratado pelos egípcios.

Mas custa crer que um homem com a fé de Abraão não confiasse no livramento de Deus. Não faz sentido que ele tenha  agido de forma tão covarde. É muito mais provável que Abraão tenha percebido a oportunidade de lucrar e obteve sucesso na sua empreitada.

O ardil de Abraão levou em conta um aspecto muito importante, que não é destacado pelo texto bíblico: O faraó egípcio era considerado pelo seu povo como um deus vivo e recebia um tratamento compatível com esse status.

Mas, em contra partida, era obrigado a demonstrar poder à altura de tal condição. Dentre outras coisas, era “responsabilidade” do faraó garantir que a cheia anual do rio Nilo fosse de bom tamanho, para que houvesse colheita suficiente para alimentar o povo – um faraó chegou a ser deposto após uma série de anos de seca, por ter “falhado” nessa missão.

Cabia ainda ao faraó demonstrar um comportamento ético compatível com sua condição de homem-deus. 

Ao tomar Sara como esposa, o faraó ficou diante de um dilema do tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”: se o faraó reconhecesse publicamente ter sido enganado por Abraão, demonstraria fraqueza. Por outro lado, se assumisse que tomara como esposa a mulher legítima de outro homem, sabendo o que estava fazendo, demonstraria um comportamento ético incompatível com seu status.

A única saída aceitável era abafar tudo. E foi isso que o faraó fez: Abraão saiu rapidamente do Egito, conservando todos os bens recebidos como dote pela compra de Sara.

E Abraão certamente ficou satisfeito com o sucesso da sua empreitada, tanto assim que repetiu o esquema da “venda” de Sara em outra oportunidade, dessa vez para um homem chamado Abimeleque (Gênesis capítulo 20). E mais adiante seu filho, Isaque, fez o mesmo, vendendo Rebeca (Gênesis, capítulo 26).

Se foi bom para Abraão, para Sara o episódio certamente foi constrangedor. Muita gente tenta “adoçar” a situação dizendo que nada houve entre o faraó e Sara. Mas, isto não parece provável, pois ela entrou de fato no harém real e lá ficou por um período de tempo.

Ora, Faraó deve ter ficado muito entusiasmado com sua mais recente “aquisição”, pois Sara era uma mulher muito bonita. Naturalmente, não tardou em desfrutar da “mercadoria” comprada. Embora isso não esteja relatado na Bíblia – o texto se cala a respeito – essa conclusão parece ser a mais provável.

E fico me perguntando se esse fato também não contribuiu para o longo de tempo que transcorreu para o nascimento de Isaque, filho de Abraão e Sara – esse tempo foi necessário para que não houvesse dúvidas que Abraão era de fato o pai de Isaque.

Voltando a Sara, penso que ela ficou emocionalmente ferida com o comportamento de Abraão, o que ajuda a entender seu comportamento insensível, por exemplo, no episódio do banimento da escrava Agar e do primeiro filho de Abraão, Ismael (Gênesis capítulo 21, versículos 12 a 21).

O poder que ela demonstrou ter sobre o marido nesse episódio, forçando-o a banir o próprio filho, comprova que Abraão se sentia, de certa forma, devedor de Sara. Afinal, a sociedade da época era patriarcal e a mulher não mandava nada. 

Conforme já disse antes, esse episódio ocorrido com Abraão é apenas um exemplo, dentre muitos outros, que demonstram como as pessoas eram corruptas nos tempos bíblicos. Outros exemplos interessantes, mas que não tenho tempo de discutir aqui, são o roubo da benção do irmão (cometido por Jacó); a venda de José pelos próprios irmãos, para ser escravo no Egito; o massacre do povo de Siquem por Simeão e Levi, filhos de Jacó; o estupro de Tamar, filha de Davi, por seu meio-irmão; a forma como Jesus foi traído por Pedro; e assim por diante. 

Mesmo sendo corruptos, os personagens bíblicos foram capazes de construir uma história maravilhosa, que nos encanta e instrui até hoje. E o segredo desse sucesso foi o envolvimento de Deus nos acontecimentos – isso fez toda a diferença.

E o mesmo pode acontecer com o Brasil. Se nosso país se voltar para Deus e deixar que Ele atue em nosso meio, nossa história futura será muito diferente daquela que foi no passado. Tenho certeza disso.

Com carinho

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