O QUE A BÍBLIA NÃO FALA SOBRE JESUS

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Fala-se muito sobre Jesus – Ele já foi objeto de inúmeros filmes, livros, documentários, etc. Infelizmente, muito do que se fala sobre a vida d´Ele não tem qualquer base histórica, pois os fatos descritos não estão documentados nas fontes históricas disponíveis. 

As fontes históricas sobre a vida de Jesus são essencialmente os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Existem algumas informações esparsas contidas em outros livros da Bíblia (por exemplo,  Atos dos Apóstolos), bem como vindas de fontes extra-bíblicas (como o historiador Flavius Josephus), mas os dados fornecidos não agregam nada de novo ao que os Evangelhos já contam.

Portanto, se queremos saber alguma coisa sobre a vida de Jesus precisamos recorrer aos quatro Evangelhos. Ali estão todas as informações que temos. Simples assim.

Para ajudar você a separar o “joio do trigo”, isto é diferenciar aquilo que tem fundamento histórico do que não tem, vou listar algumas informações largamente aceitas, mas que infelizmente não tem suporte bíblico e, portanto, histórico. 

A idade de Jesus quando morreu

A tradição conta que Jesus tinha trinta e três anos ao morrer. Essa idade é fruto do cálculo que Ele teria nascido no ano 1 e morrido no ano 33 da nossa era. Mas a Bíblia não fala isso.

E não fala porque nela não há referencia a anos absolutos. Todas as contagens de tempo nela contidas são relativas, quando muito tomadas em relação a outros eventos bíblicos, para os quais também não há referencia absoluta. 

Por exemplo, a Bíblia conta que Moisés tinha 40 anos quando fugiu do Egito e foi ser pastor de ovelhas em Midiã (Êxodo capítulo 2, versículo 12). Mas não diz em que ano isso aconteceu e não há como determinar com precisão esse dado. A Bíblia fala que Salomão começou a construir o Templo de Jerusalém no quarto ano do seu reinado (1 Reis capítulo 6, versículo 1), mas o texto não diz em que ano esse reinado começou.

Esse tipo de contagem de tempo, sem referencias absolutas, torna difícil estabelecer o ano exato em que alguns eventos ocorreram, como os anos do nascimento e da morte de Jesus. E aí a tradição inadvertidamente gerou um erro: os tais 33 anos de vida de Jesus.

Hoje se estima que Jesus nasceu entre os anos 5 e 7 Antes da Nossa Era e morreu no ano 30 ou no ano 33 da Nossa Era. Não é possível ter certeza além disso. Portanto, Jesus viveu entre 35 e 40 anos, bem mais do que a tradição aponta.

Há aqui uma curiosidade que vale a pena apontar. O chamado “ano 1”, que divide as duas eras (Antes de Cristo ou Antes da Nossa Era e Depois de Cristo ou Nossa Era), foi estabelecido por um monge chamado Dionísio. Ele estudou os dados históricos disponíveis e calculou um determinado ano como o do nascimento de Jesus e estabeleceu o “ano 1”, registro que acabou adotado por todo o mundo.

Mas Dionísio errou: hoje se sabe que o “ano 1” ocorreu de fato entre 5 e 7 anos antes do que Dionísio calculou. E hoje precisamos conviver com o absurdo que é afirmar ter Jesus nascido entre os anos 5 e 7 Antes de Cristo. Dá vontade até de rir… 

O dia em que Jesus nasceu 

Não sabemos o dia exato em que Jesus nasceu. Pelas descrições da Bíblia, provavelmente isso aconteceu no mês de março, mas não há como ter certeza.

A Igreja Cristã sempre soube disso, mas entendeu que precisaria ter um dia para comemorar essa data tão importante. Até aí nada demais – por exemplo, é comum que os pais de uma criança adotada, quando não sabem o dia exato do nascimento desse(a) filho(a), arbitrem uma data para poder comemorar.

O erro da Igreja Cristã foi, durante certo tempo, ter insistido que Jesus tinha mesmo nascido na virada do dia 24 para o dia 25 de dezembro. Na verdade, essa era a data em que se comemorava o solstício de inverno e nesse dia ocorriam grandes festas pagãs. E a Igreja Cristã quis transformar esse dia numa data comemorativa do seu calendário religioso, daí ter colocado exatamente aí o dia do nascimento de Jesus. 

A infância e a adolescência de Jesus 

O relato bíblico sobre o início da vida de Jesus termina quando Ele tinha cerca de dois anos e seus pais voltaram do exílio no Egito, porque o rei Herodes tinha morrido e o menino não mais corria risco de vida (Mateus capítulo 2, versículos 14 e 15). E foram morar em Nazaré, na Galileia.

Depois, só há um relato curto, já da pré-adolescência de Jesus, com cerca de doze anos, quando os pais o levaram até Jerusalém e Ele se perdeu na volta para casa, tendo sido encontrado conversando com os doutores da Lei (Lucas capítulo 2, versículos 41 a 52). Mais nada.

A continuação do relato dos Evangelhos se dá quando Ele começou seu ministério, entre 32 e 35 anos. É claro que podemos imaginar como Ele viveu todos essas anos, em Nazaré, já que sabemos alguma coisa sobre sua família, inclusive a profissão do seu pai (carpinteiro), e o conhecimento histórico daquela época permite construir um quadro aproximado da sua realidade.

Mas evidentemente não sabemos qualquer particularidade da vida d´Ele ao longo desse período – se ficou doente, se viajou ou ficou apenas em Nazaré, com quem estudou, etc.

Todos os relatos que falam que Jesus viveu entre os essênios (seita judaica), morou na Índia ou qualquer outra coisa sobre esses “anos silenciosos”, não têm qualquer base histórica. São especulação pura e simples.  

O que aconteceu com o pai de Jesus

Sabemos que Maria acompanhou Jesus até o final da vida d´Ele – a Bíblia relata o momento em que ela estava aos pés da cruz (João capítulo 19, versículos 25 a 27).

Mas nada sabemos sobre o que aconteceu com José, pai adotivo de Jesus, depois do relato da viagem a Jerusalém ao qual já me referi.

Os estudiosos normalmente interpretam o silêncio sobre José nos relatos dos Evangelhos, como significando que ele morreu enquanto Jesus era relativamente jovem. E entendem também que, como filho mais velho, coube a Jesus, por ocasião da morte do pai, assumir a responsabilidade do sustento da família.

Tudo isso faz sentido e se encaixa com o relato dos Evangelhos, mas não podemos ter certeza absoluta. Pode ter acontecido alguma outra coisa que desconhecemos.

Esses são apenas alguns exemplos de coisas que as pessoas normalmente afirmam mas que não tem suporte histórico. Claro que haveria mais coisas a contar, mas não tenho espaço para discutir cada uma delas. Mas acredito que já deu para você formar um bom quadro dessa questão.

Com carinho

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