O LIVRO DE SALMOS E A VIDA DE DAVI

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O livro de Salmos é um dos mais queridos da Bíblia – é citado a toda hora, inclusive em passagens do Novo Testamento. 

Os salmos são poesias. Normalmente, eram entoadas com o acompanhamento de instrumentos, assemelhando-se aos hinos de hoje em dia. Alguns salmos eram usados em ocasiões especiais, por exemplo durante as peregrinações a Jerusalém (conhecidos como “salmos de ramagem”).

Quando falamos do livro de Salmos, imediatamente vem à mente de todos(as) o rei Davi, pois ele foi o autor da maioria deles e dos que se tornaram mais famosos, como o de número 23. Mas há outros autores de salmos, como os filhos de Coré e Asafe.

Essas poesias tratam de temas importantes como o louvor a Deus, as dúvidas da fé, o sofrimento, a esperança nas promessas de Deus, sentimentos bem humanos, que podem se fazer presentes na vida de qualquer pessoa. É exatamente por isso que as pessoas se identificam e gostam tanto dos salmos.

Há várias formas de estudar o livro de Salmos – por exemplo, escolher um tema (digamos, o sofrimento humano) e encontrar todas as referências a ele ao longo do livro, comparando as várias formas usadas pelos autores para discutir tal tema.

Outra forma de estudar o mesmo livro, muito interessante, embora pouco usada, é usar como eixo a vida de Davi e acoplar a cada momento vivido por ele o salmo correspondente a essa fase da sua vida. Isso proporciona uma chave de interpretação para cada salmo, qual seja o sentimento de Davi ao escrevê-lo.  

Evidentemente, um salmo escrito quando Davi subiu ao trono de Israel, momento de grande alegria para ele, certamente deve ter diferença de tom em relação a texto escrito durante sua perseguição pelo rei Saul, quando estava profundamente angustiado.

Essa abordagem dá um colorido especial a cada salmo, além de ensinar muito sobre a vida de Davi, que foi muito interessante.

Para exemplificar, escolhi dois salmos escritos em momentos bem diferentes da vida em Davi. O primeiro é o conhecido salmo 23, escrito quando Davi ainda não tinha passado por sofrimento e professava fé mais ingênua. 

Ele morava na corte real e ainda gozava do favor do rei Saul e refletiu no texto do salmo 23 sobre sua vida simples, mas agradável, quando era simples pastor de rebanhos. Vejamos o texto desse salmo:

O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

O tom de Davi nesse lindo texto é esperançoso e alegre. E por isso é tão amado pelas pessoas. Ele usa muitas referências tiradas da sua vida de simples pastor de animais – “águas tranquilas”, “cajado”, “pastos verdejantes”, etc. 

O segundo salmo é o 51, escrito num momento terrível da vida de Davi – depois que ele tinha cometido o pecado de adultério com Bate-Seba. 

Davi já era naquela altura rei poderoso e rico, morando num belo palácio, em sua capital, em Jerusalém. Esse enorme sucesso acabou subindo à sua cabeça e esse problema está na raiz do pecado que cometeu

Ele adulterou com Bate-Seba e não satisfeito com isso, mandou matar seu marido, Urias. Em dado momento, Deus interviu, mandando o profeta Natã alertar Davi para seu pecado. Só aí o rei percebeu a enormidade do mal que tinha feito e caiu em profundo arrependimento.

Foi quando escreveu o salmo 51. Vejamos o que ele disse nos versículos 1 a 12:

Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe. Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste. Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário.

O texto do salmo 51 é angustiado, cheio de culpa e arrependimento. Davi percebeu por causa dos seus atos, sua vida nunca mais seria a mesma, como de fato não foi – ele nada mais fez de relevante, embora seu reinado ainda tenha durado cerca de dez anos, e passou por problemas terríveis, inclusive a revolta liderada por ser próprio filho. 

Os salmos 23 e 51 são muito distintos, em termos de tom, conteúdo dos sentimentos expostos e aspectos da relação de Davi com Deus neles invocados. O salmo 23 é esperançoso, alegre, escrito porque quem se considerava justo. Já o salmo 51 mostra uma alma angustiada, um coração cheio de remorsos e arrependimento e contem um pedido desesperado pelo perdão de Deus. 

Ambos os textos foram escritos pelo mesmo homem, mas em momentos bem diferentes da sua vida, em circunstâncias históricas bem distintas. Daí serem tão diferentes.

E acredito que por isso mesmo, exemplificam bem os altos e baixos pelos quais a vida espiritual de cada um(a) de nós costuma passar.

Com carinho 

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