O LIVRO MAIS SURPREENDENTE DA BÍBLIA

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O “Cântico dos Cânticos” (“Cantares de Salomão”), um pequeno poema de não mais do que mil e quinhentas palavras, é o livro mais surpreendente de toda a Bíblia. Atribuído ao rei Salomão (teria sido escrito na sua juventude), o livro, parte do Velho Testamento, surpreende por ser erótico. Bem erótico. 

E isso faz com que os líderes cristãos tenham dificuldade em usar Cantares como base para pregações ou estudos bíblicos. Não desconhecem sua existência, é claro, mas ficam constrangidos(as) em basear um estudo sério num texto erótico. Assim, na prática, Cantares quase nunca é usado – não me lembro de ter ouvido nenhum sermão ou estudo baseado nesse livro em quase 50 anos de vida cristã.

Perceba o eroticismo do texto, por exemplo, no conteúdo do capítulo 7 (versículos 1 a 9) reproduzido abaixo:

Ó filha de um príncipe, como são bonitos os seus pés calçados de sandálias! As curvas dos seus quadris são como jóias, são trabalho de um artista. O seu umbigo é uma taça onde não falta vinho. A sua cintura é como um feixe de trigo cercado de lírios. Os seus seios parecem duas crias, crias gêmeas de uma gazela. O seu pescoço é como uma torre de marfim. Os seus olhos são como os poços que ficam ao lado dos portões da grande cidade de Hesbom. O seu nariz é tão belo como a torre do Líbano, de onde se avista Damasco.  A sua cabeça está sempre erguida como o monte Carmelo. Os seus cabelos são como a púrpura; até um rei ficaria preso nas suas tranças. Como você é linda, minha querida! Como você me dá prazer! Como é agradável a sua presença! Você é tão graciosa como uma palmeira; os seus seios são como cachos de tâmaras. Vou subir na palmeira e colher os seus frutos. Os seus seios são para mim como cachos de uvas. A sua boca tem o perfume das maçãs, e os seus beijos são como vinho delicioso.

Tomando emprestada a expressão de um famoso comentarista desse texto, é como se “Deus falasse a linguagem dos enamorados” no texto de Cantares.

Esse livro fala da paixão física entre duas pessoas jovens e belas. Trata-se do diálogo entre um Príncipe (Salomão) e sua amada (Sulamita, feminino de Salomão), acompanhados aqui e ali por um coro. Há pouco contexto para o relato, dando a impressão que o casal estava meio isolado de tudo e de todos, simplesmente vivenciando seu amor. 

É curioso perceber que a mulher é a principal personagem do relato – as falas dela representam 53% do texto, contra apenas 34% do homem. E isso também surpreende, pois a sociedade da época de Salomão era extremamente machista (basta lembrar que esse rei teve setecentas esposas e trezentas concubinas). 

Outro fato também surpreendente é não haver qualquer citação a Deus no texto – a mesma coisa acontece no livro de Ester, mas ali há citações indiretas a Deus, como quando é feita referência ao jejum. Em Cantares nem isso.

Ora, sabemos que Deus não faz as coisas por acaso. Por que então esse livro foi parar na Bíblia?  O que Deus pretendia com um texto desse tipo?

Há duas respostas tradicionais para essas perguntas. A primeira delas argumenta que Cantares fala, na verdade, do amor entre Deus e seu povo – afinal, tanto Israel (no Velho Testamento), como a Igreja Cristã (no Novo Testamento), são tratados como a “noiva” ou a “esposa” de Deus (ou Jesus). Cantares seria, portanto, um texto simbólico cujo objetivo é lembrar a importância do amor entre Deus e seu povo e que esse relacionamento deve ser tão forte e presente como o sentimento ligando um casal apaixonado. 

Penso que essa explicação faz sentido mas não cobre todos os aspectos envolvidos. E digo isso porque as descrições eróticas contidas no Cantares são muito detalhadas para serem apenas parte de um relato simbólico. Normalmente, os relatos desse tipo não perdem muito tempo com detalhes e passam apenas a ideia geral, a moral do ensinamento – por exemplo, na parábola do bom samaritano, Jesus não descreveu como o homem assaltado ou o samaritano eram fisicamente, nem contou quais eram seus nomes ou o que faziam para ganhar a vida.

Como as descrições de Cantares são bem detalhadas, como o extrato de texto que apresentei acima comprova, certamente há mais coisas acontecendo nesse texto do que uma simples referencia simbólica ao amor entre Deus e seu povo.

A segunda explicação para a presença de Cantares na Bíblia decorre exatamente desse raciocínio: o texto demonstra a importância, para Deus, do amor físico entre homem e mulher, sentimento que está na base da formação da família. 

E ninguém deveria ficar surpreendido ao perceber que Deus dá tanta importância a esse aspecto da vida humana. Afinal, Ele nos criou como seres sexuados e isso não se deveu apenas à necessidade de garantir a reprodução humana (como alguns comentaristas afirmam), pois existe na natureza formas de reprodução sem a necessidade de sexo. Deus nos fez assim porque a vida sexual é parte importante do seu plano de criação. Simples assim.

Amor, paixão e sexo têm lugar fundamental na obra de Deus e precisam ser tratados com sensibilidade e maior naturalidade, sem a carga de pecado que as igrejas costumam atribuir a esses temas. 

Nessa segunda linha de argumentação, há muitos ensinamentos que podem ser tirados do Cantares para aconselhar mulheres e homens sobre como levar seus relacionamentos amorosos – não tenho espaço aqui para desenvolver toda essa linha de discussão, o que ficará para textos futuros. Mas esses ensinamentos estão lá no meio do texto de Cantares.

Sendo assim, é surpreendente que Cantares não seja mais usado como fonte de estudo em Encontros ou Discipulados para Casais – confesso que nunca vi isso acontecer. Surpreendentemente, o texto bíblico mais usado para orientar a relação homem-mulher é 1 Coríntios capítulo 13, onde Paulo falou mesmo do amor cristão e não do amor físico entre homem e mulher. Basta lembrar que no seu texto Paulo afirmou que o amor “não arde em ciúmes”, o que evidentemente não descreve adequadamente o comportamento de pessoas apaixonadas.

Há ainda outro comentário importante a fazer, nessa pequena introdução ao livro de Cantares. Sabemos que a chave de interpretação da Bíblia para os(as) cristãos(ãs) é Jesus. Portanto, devem ser procuradas referências a Ele em toda parte do texto bíblico, inclusive em Cantares. E onde encontramos Jesus em meio a um poema erótico? Vou dar uma pista de como isso é feito. 

No começo da história da Igreja Cristã, as pessoas conheciam bem o Velho Testamento, que era a Bíblia usada pelo povo judeu (de onde veio a maioria dos primeiros convertidos). Assim, quando os(as) cristãos(ãs) ouviam um texto do Novo Testamento, por exemplo, falando sobre a vida de Jesus, era fácil para eles(as) detectar no texto que ouviam ecos de citações do Velho Testamento – hoje isso é mais difícil, pois conhecemos bem menos o Velho Testamento que os(as) primeiros(as) cristãos(ãs).

Em João capítulo 20, versículos 1 a 18, está relatado que Maria Madalena visitou a tumba onde Jesus foi enterrado e, não encontrando o corpo (pois Ele tinha ressuscitado), ficou procurando seu Senhor.  

E se olharmos com atenção não é difícil de perceber na descrição de João ecos Cantares capítulo 3, versículos 1 a 4, onde Sulamita fica procurando seu amado pela cidade, sem encontrá-lo – as palavras usadas em ambos os textos são bem parecidas, mostrando que João se inspirou em Cantares para compor seu relato. Em outras palavras, a busca da Sulamita pelo seu amado é um símbolo da busca de Maria Madalena pelo corpo de Jesus. 

Leia Cantares. Acredito que você vai gostar.

Com carinho

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