O PROBLEMA DAQUELES QUE NÃO TÊM DEUS

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“…Semanas atrás, descobri que tinha metástase múltipla no fígado…esse tipo particular de câncer não pode ser contido. Cabe a mim agora escolher como viver os meses que me restam…Isso não significa que desisti da vida…e quero…no tempo que me resta aprofundar minhas amizades, dizer adeus para as pessoas que amo, escrever mais, viajar se tiver forças, atingir novos níveis de entendimento e compreensão. Isso vai envolver audácia, clareza e simplicidade no discurso; tentar acertar minhas contas com o mundo…”  Oliver Sacks         Publicado no O Estado de São Paulo em 20/02/2015

Este texto triste foi escrito por um conhecido cientista, bastante famoso pelos seus estudos sobre a evolução do cérebro humano. Sua forma de encarar a morte próxima é admirável, mas certamente deixa um travo amargo para quem lê o texto. Pelo menos, assim foi comigo.

Sacks é um ateu convicto e boa parte das suas pesquisas tiveram como objetivo demonstrar que Deus não foi necessário para que a humanidade chegasse onde chegou. Nesse sentido tem sido um crítico forte do cristianismo. E agora, infelizmente,  sua vida vai chegando ao fim – o mundo certamente ficará mais empobrecido depois da sua partida.

O travo amargo a que me referi antes vem não somente da expectativa da morte iminente desse homem, mas também de uma pequena frase sua no texto citado acima: “tentar acertar minhas contas com o mundo“. Repare bem: Sacks, um ateu, sabe que precisará prestar contas do que fez durante sua vida. 

E ele não está sozinho – todos temos dentro de nós a percepção que precisaremos prestar contas a um poder maior. Isso está “gravado” na nossa mente. Não há como fugir dessa percepção. 

Sacks pretende prestar contas para o mundo – para ele, aí reside o poder maior ao qual se curva. Mas o que é o “mundo”. Não acredito que ele tenha se referido ao universo físico, às leis naturais, pois isso não faria sentido. Acho que ele se referiu à sociedade na qual vive. À opinião pública.

O erro de Sacks é imaginar que “sociedade” ou “opinião pública” são entidades às quais se pode prestar contas. Afinal, elas nada mais são do que conceitos abstratos procurando descrever forças complexas que atuam no dia-a-dia das pessoas, influenciando seu comportamento. A “opinião pública”, por exemplo, tanto é formada por pessoas conservadoras, que assistem todos os dias os jornais da televisão, como os jovens que trocam ideias via Twitter ou Facebook. E esses dois grupos pensam de forma totalmente diferente. Valorizam coisas distintas. 

Além disso, pessoas que foram aprovadas pela opinião pública e a sociedade da época em que viveram, podem passar a ser execradas posteriormente – ficam na história como seres humanos horríveis. Bons exemplos disso são Stalin e Lenin, que implantaram e consolidaram o comunismo na Russia. Portanto, Sacks pode até ser aprovado hoje e reprovado mais adiante, como qualquer um de nós. 

Em outras palavras, quando colocamos nossa confiança e expectativas nas mãos de entidades humanas não há garantia de nada. Simples assim. E é exatamente aí que reside o problema daqueles que são ateus e das pessoas que dizem acreditar em Deus, mas vivem de fato como se Ele não existisse. Sabem que precisam prestar contas dos seus atos neste mundo mas pensam que entidades humanas podem servir como “juiz”. Mas a “sociedade” ou a “opinião pública” não podem prestar esse papel.

E, ao por perceber esse problema, muitos ateus convictos acabam por se converter no final de suas vidas. Um caso famoso é o filósofo Anthony Flew, que passou anos escrevendo artigos que procuravam provar que Deus não existe, e mudou de opinião poucos anos antes de morrer.

Todos vamos prestar contas. E todos têm essa certeza dentro de si. A questão é saber para quem essa satisfação será dada. Se a entidades humanas, como a “opinião pública”, seja lá o que isso queira dizer, ou a um Deus Santo. Eu acredito na segunda hipótese.

E se você concorda comigo, não viva como se esse fato não fosse verdade. Não deixe de levar em conta Deus na “equação” da sua vida. É isso que importa de fato.

Com carinho

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