A FÉ CRISTÃ PRECISA SER CEGA?

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… Estando sempre preparados para para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. 1 Pedro 3, versículo 15

Muitas pessoas acham que o cristianismo é uma fé irracional. E o interessante é que alguns cristãos/ãs, sem perceber, dão força a essa ideia quando defendem que a fé verdadeira precisa ser cega, ou seja, não pode ter qualquer compromisso com a razão. 

Mas, não é isso que a Bíblia ensina, conforme pode ser visto no texto acima. O versículo afirma que precisamos estar sempre preparados para explicar as razões que nos levam à fé em Jesus Cristo. E se precisamos apresentar razões, é porque a fé precisa ser racional e, portanto, não pode ser cega

O apóstolo Paulo afirmou que, se Jesus Cristo não ressuscitou dentre os mortos, o cristianismo não tem qualquer base para existir. E ao fazer essa afirmação, Paulo convidou todo mundo – simpatizantes e adversários/as do cristianismo – a examinar os fatos relacionados com a ressurreição de Jesus, evento histórico sobre o qual se conhece a época, o lugar e as pessoas envolvidas, conforme os relatos da Bíblia.

Portanto, é a própria Bíblia quem pede para os/as cristãos/ãs usarem sua razão e avaliarem os argumentos contra e a favor dessa realidade. E tal postura demonstra grande segurança de que o cristianismo se apoia numa base racional e sólida. 

Agora, sei que a esmagadora maioria das pessoas não chega à fé em Jesus depois de avaliar argumentos contra e a favor do cristianismo e sim pela ação do Espírito Santo.

Não há dúvida que a fé não começa pela razão, mas não acho viável, no mundo moderno, a pessoa se manter firme na fé se não entender as bases racionais da fé que tem. Afinal, dúvidas vão surgir, ao longo do seu caminhar na fé, pois isso é natural, e a pessoa precisa encontrar explicações que façam sentido lógico para eliminar essas dúvidas. 

Simplesmente afirmar que as dúvidas devem ser eliminadas apenas pela fé cega, ou seja sem encontrar qualquer explicação lógica para elas, como defendem muitos/as pastores/as, é como “jogar a sujeira para debaixo do tapete”. Isso não costuma funcionar.

São situações como essa que acabam por levar muitos/as jovens criados/as na igreja a perder sua fé, depois de entrar na faculdade, sob influência de professores/as ateus/ateias, que ficam sem boas respostas. E o mais triste é que essas respostas existem… 

Vou dar alguns exemplos das respostas que temos para diversas questões lançadas por quem ataca o cristianismo, para comprovar sim que temos boas respostas. É claro que não tenho espaço aqui para falar de todas as possíveis críticas ao cristianismo – falo sobre várias delas em outras postagens aqui no site. Mas, acredito que alguns poucos exemplos comporvam o que acabei de afirmar.

O que não pode ser provado pela ciência é irracional?
Os materialistas – quem não acredita em Deus e na existência de uma realidade espiritual – afirmam, até com certa arrogância, que a fé cristã é irracional porque não pode ser provada cientificamente. Para essas pessoas, o que não recebe o “selo de aprovação” da ciência não existe ou é uma mentira.

Ora, é evidente que experimentos científicos, que têm necessariamente natureza física, nunca vão conseguir provar a existência do mundo espiritual, que não é físico. É como se eu tentasse medir o peso de uma pessoa com uma régua – não vai ser possível. Mas, isso não quer dizer que a pessoa não tenha peso e sim que a régua não é o instrumento adequado para medir o peso – é preciso uma balança para fazer isso. 

A falta de evidencia científica sobre o mundo espiritual não é prova que ele não existe. No máximo, indica que não é possível provar o mundo espiritual cientificamente. Mas, isso não quer dizer que acreditar no mundo espiritual, como fazem os/as cristãs/ãs, seja irracional.

E um exemplo explica melhor a razão para o que acabei de afirmar. Imagine duas pessoas estão começando a andar por uma estrada que não sabem onde vai dar. E não há placas indicativas e ninguém para quem perguntar o caminho. A primeira pessoa acha que a estrada vai dar na cidade A e a outra pessoa acha que vai acabar na cidade B. Evidentemente, durante a caminhada não haverá como garantir quem está certo – somente ao chegar no final é que a verdade será conhecida. 

Aí o primeiro viajante fica acusando o outro de ser irracional, por acreditar que a estrada vai dar numa cidade diferente daquela que ele pensa ser a verdade. Ora, isso não é justo, pois não há como provar quem tem razão.

É exatamente essa a situação de quem acredita que nada existe depois desse mundo e dos/as cristãos/ãs. O primeiro grupo de pessoas acha, na verdade, que a estrada da vida não vai dar em lugar nenhum, enquanto o povo cristão acha que vai dar no Paraíso para uns e no Inferno para outros. E só vamos ver a verdade na nossa frente depois de sair dessa vida. Até lá tudo que existe são crenças para um lado ou para o outro.

Voltando ao exemplo dos dois viajantes na estrada, é claro que, ao longo do caminho, eles tentarão coletar evidências para confirmar se estão no caminho certo. E as evidencias coletadas podem fortalecer ou enfraquecer suas crenças iniciais. 

Da mesma forma, por exemplo, no caso do povo cristão, uma benção obtida como resposta de oração ou uma profecia que se cumpre, reforçam a convicção que o mundo espiritual existe mesmo. 

Mas, nunca serão colhidas evidencias suficientes para provar aquilo que se crê. Somente depois que as pessoas saírem dessa vida é que poderão saber definitivamente quem tinha razão. Portanto, os dois lados vão seguir sua vida com base na fé que têm: umas pessoas acham que nada existe depois dessa vida, enquanto outras acham que existe muita coisa. Simples assim.  

A fé com base no testemunho da Bíblia é irracional?
A segunda objeção feita ao cristianismo tem a ver com o fato de que uma fé baseada apenas no testemunho de um livro considerado pouco confiável (a Bíblia) não é racional. 

Mas, essa crítica ao cristianismo também não é válida. Primeiro, porque todas as crenças são construídas da mesma forma, isto é com base em testemunhos considerados confiáveis. 

Por exemplo, as pessoas usam um GPS porque acreditam que a informação nele contida é a expressão correta da geografia do da área onde estão, ou seja, elas têm fé no “testemunho” daquele produto. Outro exemplo: Eu nunca vi um elétron, mas acredito na sua existência porque confio naquilo que muitos/as cientistas relataram, ou seja, acredito no testemunho deles/as. 

Praticamente tudo que sabemos é baseado em testemunhos de terceiros – até nosso nome e dia de nascimento. E é esse processo que permite a transmissão do conhecimento humano e o desenvolvimento da ciência e da cultura. 

Assim, construir crenças com base em testemunhos que a pessoa pensa serem confiáveis é inteiramente racional – todo mundo  faz isso. A questão verdadeira, então, é quais testemunhos podem ser considerados confiáveis. 

Quem critica o cristianismo afirma que o testemunho trazido pela Bíblia não pode ser acredita e, portanto, ser tomado como base para construir uma fé racional.

E é interessante perceber que, nessa altura da conversa, que a própria escolha de qual testemunho é ou não confiável é feita com base nas crenças que as pessoas já têm. E nem poderia ser diferente.

Em outras palavras, na prática, as pessoas escolhem, de forma consciente ou não, aquilo em que irão acreditar, pois aceitam os testemunhos que entendem ser confiáveis com base naquilo que já pensavam. Portanto, o teólogo cristão Anselmo de Canterbury estava certo quando afirmou: “creio para poder entender“. 

Para os/as ateus/ateias, a Bíblia é um testemunho que não pode ser confiado, pois o texto está cheio de fantasias. E isso faz sentido, pois, afinal, essas pessoas não acreditam no mundo espiritual do qual a Bíblia trata. E os/as cristãos/ãs pensam exatamente o oposto. 

Repare que, em ambos os casos, a crença vem antes da escolha do que é ou não confiável como fonte de testemunho. E a escolha da fonte de testemunho confiável acaba por reforçar a crença que a pessoa já tinha antes.  

Portanto, se a pessoa não acredita que existe um mundo espiritual, rejeita tudo que a Bíblia descreve como fantasias. E acusa quem pensa diferente de irracional. Os/as cristãos fazem exatamente o oposto, só que a acusação final, a quem não acredita não é de falta de racionalismo e sim de impiedade.

Agora, muito pode ser dito para mostrar que a Bíblia é um documento historicamente correto, cheio de informações preciosas. Mas, para quem não acredita no mundo espiritual, relatos de milagres, de aparições de anjos, de pragas lançadas contra o povo egípcio, etc, não passam de lendas. 

E voltando ao ponto inicial dessa discussão e, como não é possível provar que o mundo espiritual existe, nem que não existe, não há como sair desse impasse. Voltamos ao exemplo dos dois caminhantes na estrada, que não sabem onde ela vai acabar.

Em resumo, não é irracional usar a Bíblia como base para construir sua fé. É tão racional quanto acreditar que apenas experiências científicas podem comprovar aquilo que existe de fato.

Portanto, é arrogância intelectual dos/as atues/ateias acusar a fé cristã de irracional. É claro que muitos/as cristãos/ãs pregam uma fé cega, mas esse é um problema de como algumas pessoas encaram sua crença e não do cristianismo em si.

E essa visão estreita também ocorre do lado dos/as ateus/ateias. Lembro do depoimento de um cientista que disse saber que as evidencias científicas apontam para um início do universo (o tal “Big Bang”), mas que preferia não aceitar essas evidências pelas consequências que geram, isto é a necessidade de incluir na discussão a figura de um Criador para o universo. 

Com carinho

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