AS DOENÇAS DO CORAÇÃO

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Vivemos numa sociedade onde o “eu” é cada vez mais importante. O que mais se ouve é “eu mereço isso”, “eu não gosto daquilo”, “eu escolhi tal coisa” e assim por diante. O “eu” tornou-se o motor do nosso dia a dia. 

A excessiva importância do “eu” acaba por gerar doenças emocionais e espirituais importantes, que eu apelidei aqui de “doenças do coração”:

· Ira: pode ser descrita como alguém deve a mim alguma coisa”. Por exemplo, penso que merecia um respeito que me foi negado; ou um reconhecimento que não foi recebido por mim; ou ainda um amor que não foi dado a mim mas a outra pessoa. E por ter sido frustrado naquilo que entendia ser meu direito, por pensar que há uma dívida em aberto comigo, posso me deixar levar pela
ira.

· Culpa: pode ser descrita como “eu devo alguma coisa para alguém”. Fiz algo que não devia e me sinto culpado por isso. 

· Egoísmo: pode ser descrito como “eu venho sempre em primeiro lugar”. E isso gera dificuldade de pensar nas necessidades do próximo e de abrir mão dos meu interesse em favor dele.

· Inveja: pode ser descrita como “eu penso que Deus me deve algo que não me deu”. Pode ser que outra pessoa com quem convivo tenha mais beleza ou inteligência ou ainda sucesso. Pode ser que outros tenham menos problemas do que eu enfrento. E a culpa é de Deus pois Ele pode tudo e poderia mudar minha sorte. 

· Orgulho: pode ser descrito como “eu me considero importante e digno de reconhecimento por parte das demais pessoas”.  

O império do “eu” é provavelmente a maior dificuldade que existe para a construção de uma sociedade melhor e mais justa. Quando o “eu” manda, coisas ruins ocorrem: a ira explode em violência, o egoísmo em cobiça desenfreada, a inveja em fofoca, o orgulho em indiferença e assim por diante.

O fato é que todos temos um pouco dessas doenças em nossos corações. Algumas delas são mais presentes do que outras, mas todas se fazem notar. E precisamos ter consciência clara disso. 

Jesus nos ensinou que o antídoto para os “males do coração” é justamente desviar o foco do “eu”. E é dessa percepção que nascem os dois grandes mandamentos que resumem tudo que devemos fazer: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos

Quando amamos a Deus sobre todas as coisas, esse amor passa a conduzir nossas vidas. E assim seguimos os princípios de vida que Deus estabeleceu, mesmo quando contrariam nosso próprio interesse pessoal. É aí que domamos o nosso “eu”, tornando-o dependente de algo maior. 

Depois, quando decidirmos fazer pelo próximo as coisas que gostaríamos que fossem feitas a nós, nosso “eu” vira uma referencia para aquilo que os outros deverão receber. 

Agora, passar da teoria à prática é difícil. Domar o próprio “eu”, e torná-lo dependente de algo maior, não é simples. Mas felizmente há instrumentos que nos ajudam a fazer isso. Refiro-me às disciplinas espirituais que podem moldar nossa vida. Indico cinco dentre elas a seguir:

Confissão

O programa de luta contra o vício do alcoolismo defendido pelos Alcoólicos  Anônimos começa exatamente pelo reconhecimento do problema e sua confissão pública. E como somos viciados no “eu”, é por aí que precisamos começar também, reconhecendo esse problema. Esse é o ponto de partida para tudo

Perdão

Cancelar as dívidas emocionais que as outras pessoas têm conosco é um passo importante. Isso livra o nosso “eu” de sua carga de mágoas, do desenvolvimento de desejos de vingança e, sobretudo, do risco de conservar a vida congelada no passado (veja mais)

Doação

Dedicar parcelas importantes do nosso tempo e recursos ao desenvolvimento do Reino de Deus aqui na terra é uma forma muito eficaz de combater o egoísmo. A doação de nós mesmos faz com que o foco saia de cima das nossas necessidades e desejos e seja transferido para as outras pessoas. A experiência mostra que quanto mais se dá, maiores frutos são gerados e eles estimulam e gratificam quem doa.

Alegria com o sucesso dos outros

Procurar se alegrar com as realizações daqueles que nos causam inveja é uma disciplina espiritual muito importante. É importante que venhamos aprender a expressar em voz alta essa alegria. E não se trata de uma atitude hipócrita, porque é fruto de uma decisão real de ter tal tipo de alegria no coração.  

Realização de trabalhos humildes

Foi isso que Jesus nos ensinou quando lavou os pés dos discípulos. E não há melhor antídoto contra o orgulho. Eu, por exemplo, quando participo de retiros espirituais, procuro sempre me auto-escalar para lavar pratos e outras coisas simples (embora frequentemente também desempenhe tarefas consideradas mais “nobres”). Isso me ajuda a manter o sentido do serviço a Deus. E posso garantir que as melhores recordações que tenho desses eventos são justamente as que tive na realização dessas tarefas simples. 

Com carinho

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