O NOVO “TEMPLO DE SALOMÃO” EM SÃO PAULO

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Acabou de ser inaugurada, em São Paulo, uma igreja evangélica gigantesca, obra luxuosa que custou quase R$ 700 milhões. Nela foram utilizados materiais da melhor qualidade, boa parte deles importados. Impressiona a quem olha.

Essa nova igreja foi denominada “Templo Salomão”, pois alega seguir o modelo que foi utilizado pelo rei Salomão no templo de Jerusalém, construído cerca de 3.000 anos atrás. Mas, na verdade, a nova igreja apresenta mais diferenças do que semelhanças com o templo original – basta lembrar que o templo de Salomão media apenas 27 m x 9 m, uma bagatela perto da igreja que acabou de ser construída.

A pergunta que cabe, então, é porque houve essa preocupação dos donos da nova igreja de “ancorar” sua imagem à do templo de Jerusalém? Penso que existiram duas motivações.

A primeira foi angariar como que um “selo de aprovação” divina para a nova igreja. Afinal, foi o próprio Deus quem orientou a construção do templo original e há na Bíblia uma detalhada descrição do que foi construído (1 Reis capítulos 6 e 7). Talvez por isso quase não houve críticas à nova obra no meio evangélico – pelo contrário, a maioria das pessoas com quem tenho falado se mostra entusiasmada com o que foi feito. 

O segundo aspecto tem a ver com o modelo de religião para o qual essa nova igreja aponta: rico e grandioso. Mas esse é o modelo errado de religião para o cristianismo, como mostro a seguir. 

Foi a partir de Moisés (alguns séculos antes de Salomão) que a religião dos israelitas se tornou consolidada e sistematizada. Deus estabeleceu quem deveria ser sacerdote, a liturgia que deveria ser seguida nas cerimônias religiosas, quais festas precisariam ser comemoradas (como Yom Kippur e Páscoa) e assim por diante. 

Salomão foi o rei mais rico de Israel e foi justamente durante seu reinado que a religião adquiriu um cunho rico e grandioso. Construiu o templo de Jerusalém e conduziu ali grandes festividades, onde milhares de animais foram sacrificados. E infelizmente essa riqueza e poder gerou enormes distorções – toda vez que a religião se torna poderosa e rica, isso acaba acontecendo. 

Tanto foi assim que, cerca de 1.000 anos depois de Salomão, Jesus denunciou com vigor essas distorções, chegando a expulsar os vendedores e cambistas de moeda que operavam no recinto do templo de Jerusalém. Ele criticou muito a classe sacerdotal, que se preocupava mais em enriquecer, do que em pastorear o povo.  

Assim, se alguém procurar encontrar na Bíblia referencias a uma religião rica, para poder justificar uma igreja como aquela que acabou de ser construída, vai ter que olhar para Salomão e para os reis que o sucederam. Se olhasse para Jesus e para os seus apóstolos, jamais conseguiria justificar um prédio desse tipo.

Não é de estranhar, portanto, que a nova igreja tenha sido “ancorada” em Salomão. E é aí que reside minha perplexidade. Como uma denominação que se diz cristã toma como modelo aquilo que Salomão e seus sucessores fizeram e se esquece daquilo que o próprio Jesus criticou? 

Não faz qualquer sentido. E fico triste de precisar fazer essa constatação.

Com carinho   

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