O FILME SOBRE NOÉ

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Toda vez que aparece um novo filme baseado na Bíblia acontecem muitas discussões. Tenho  para mim que todo filme bíblico, desde que seja respeitoso, vale a pena, porque, no mínimo, gera debate sobre alguns temas importantes. Além disso, as pessoas normalmente têm dificuldade de visualizar o que aconteceu milhares de anos atrás e um filme, quando bem feito, ajuda as pessoas a terem um melhor entendimento quanto aos tempos bíblicos.

Lembro que, quando eu era pequeno, foi lançada uma versão espetacular da história da saída do povo de Israel do Egito. O filme, intitulado “Os Dez Mandamentos”, tornou famoso o ator Charlton Heston, que representou Moisés. Algumas cenas – como a abertura do Mar Vermelho para passagem do povo de Israel – causaram muito impacto. Como nota negativa houve o fato do filme ter romantizado bastante a história, inclusive “criando” um romance entre Moisés e a rainha do Egito. Mas toda obra literária, quando filmada, passa por mesmo esse processo e a Bíblia não iria ser a exceção.

O fundamental é que aqueles que viram o filme, como eu, saíram do cinema com uma percepção mais clara daqueles fatos fundamentais da história de Israel – o período de escravidão de Israel no Egito, os milagres que Deus realizou para que o povo pudesse sair dali e, sobretudo, a importância da figura de Moisés. Até hoje, quando penso no êxodo de Israel, vem à minha mente as imagens daquele filme.

O caso mais recente é o filme sobre Noé, uma obra milionária que está gerando enorme bilheteria e também muita discussão. Foi assim mesmo que aconteceu? Noé existiu de fato? A arca cabia todos os animais? E assim por diante.

Noé existiu mesmo?

Há um erro muito comum quando as pessoas vão discutir os relatos da Bíblia: elas costumam partir para o tudo ou nada. Ou aceitam que os fatos aconteceram exatamente como uma leitura literal do texto bíblico dá a entender ou, se concluírem que não aconteceu assim, passam a pensar que a Bíblia mentiu. Não há meio termo possível.  

Ora, quem age assim não tem muita ideia do que são as obras literárias. É comum que essas obras – e a Bíblia não é exceção – contenham textos que precisam ser interpretados de forma figurativa, pois fazem uso de símbolos para transmitir ideias importantes. E a existência de símbolos não torna a mensagem menos verdadeira.

Um bom exemplo são as parábolas que Jesus contou. Não são necessariamente relatos de fatos reais – o “bom samaritano” ou o “filho pródigo” não existiram necessariamente -, mas nem por isso os ensinamentos que essas parábolas trazem deixam de ser menos verdadeiros.

O livro do Apocalipse está cheio de imagens como a “besta que sai do mar”, o “dragão”, a “grande meretriz”, etc e ninguém em sã consciência acredita nessas coisas literalmente. É claro que são símbolos de outras coisas, como o Anti-Cristo, o diabo, o sistema desse mundo, etc. E ocorre exatamente assim com o relato da grande enchente da época de Noé (Gênesis capítulos 7 e 8): há muito simbolismo nesse texto da Bíblia. Por exemplo, o arco iris como memória da promessa que Deus não vai trazer outro dilúvio para punir o mundo.

Na verdade, a memória coletiva da humanidade inclui o relato de uma enchente catastrófica. E essa memória vai muito além da Bíblia – por exemplo, o chamado “Épico de Gilgamesh” é um relato muito parecido ao da história de Noé, escrito pelo povo sumério, muito antes da Bíblia ser composta. É claro que a Bíblia interpreta os fatos relacionados com essa enchente à luz da crença do povo de Israel em Deus, enquanto relatos como o de Gilgamesh olham para os mesmos fatos do ponto de vista das religiões pagãs. E é absolutamente natural que seja assim.

Houve sim uma grande enchente e um homem que conseguiu salvar sua família construindo um barco. Mas há diversas questões adicionais a serem esclarecidas. Por exemplo, houve realmente uma enchente universal?

Pensar numa enchente que cobriu toda a terra seca existente no mundo, somente deixando de fora os picos dos montes mais altos, não parece muito razoável. Seria necessária uma quantidade de água absurda, que não teria depois para onde escoar – o processo descrito no relato bíblico como as “águas baixaram”. É mais razoável pensar – e essa ideia não contraria em absoluto a Bíblia – que houve uma grande enchente afetando todas regiões onde essas tradições nasceram e foram registradas.

E é fácil entender que quando a Bíblia se refere a uma enchente que atingiu “todo mundo” está usando uma figura de linguagem. Por exemplo, quando eu digo que “todo mundo” esteve, na minha casa na minha festa de aniversário, não estou dizendo que 7 bilhões de pessoas estiveram ali e sim que todas as pessoas que importavam para mim vieram.

É exatamente assim que o relato bíblico deve ser entendido. Tratou-se de um fenômeno que aconteceu numa determinada região da terra – os estudos atuais indicam que tudo se passou na região da Mesopotâmia e do chamado Mar Negro, onde a civilização no Oriente Médio começou. Parece ser que houve uma ruptura do istmo que tornava o Mar Negro um lago, hoje o estreito da cidade Istambul (Constantinopla), ocasionando a invasão desse lago pelas águas do Mediterrâneo, gerando uma inundação catastrófica nas suas margens.

Onde o filme acerta?

Há erros no filme, como os tais gigantes de pedra, coisa que não tem qualquer sentido. Mas prefiro me concentrar aqui nos vários acertos. Primeiro, a indicação que a natureza daquela época – pelo menos 10.000 atrás – era bem diferente daquela que conhecemos hoje. Animais e plantas eram distintos e se comportavam de outra forma. E isso é razoável, pois sabemos que os seres vivos mudam ao longo do tempo, inclusive para se adaptar às mudanças do ambiente como, por exemplo, a tal “era do gelo”.

Sabemos que muitas espécies de seres vivos desapareceram e outras surgiram, inclusive por causa da intervenção dos seres humanos. Portanto, o filme acerta em mostrar uma natureza distinta daquela que conhecemos hoje. Não sei se era tão distinta como o filme mostra, mas certamente era diferente.

Acho que o filme também acerta em mostrar a precariedade da vida humana naquela época. A população era muito pobre e simplesmente lutava para sobreviver – qualquer problema fazia com que as pessoas morressem de fome. Assim, num ambiente daqueles, é notável que alguém tenha conseguido construir um barco para salvar sua família.

Finalmente, acho também positivo o filme mostrar as dúvidas de Noé como ser humano – a dificuldade dele para entender exatamente qual era seu papel no meio daquele evento catastrófico e o que Deus esperava dele.

Resumindo, mesmo com diversas falhas, é um filme que vale a pena ser visto e depois comparado com o relato da Bíblia. Certamente você vai aprender bastante se fizer isso.

Com carinho

2 Comentários


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    Anônimo

    Ola vinicius

    apenas queria comentar oque vi em outro post seu ; voce disse que as pessoas "desmerecem os milagres de Deus" quado falou sobre a parte que jona foi engolido por um peixe e nao por uma baleia (post sobre lendas urbanas) entao acho que eh "desmerecer" tambem o poder de Deus ou a nescessidade do "milagre" nesse caso do diluvio porque poderia sim o mundo todo ter alagado , logicamente nao teria pra ondr escoar a agua mas acho que cabe isso na parte "milagress de Deus" .O que acha?


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      Vinicius Moura

      Acho que os casos de Jonas e do dilúvio são coisas diferentes.

      No caso do dilúvio, não há nenhuma obrigatoriedade, segundo o relato bíblico, que ele tenha acontecido em todo o globo terrestre. Basta que tenha acontecido nas terras habitadas das quais a Bíblia traz o relato. Assim, não há porque defendermos uma quebra das leis naturais quando ela não se faz necessária para entender aquilo que a Bíblia descreve.

      No caso de Jonas, a Bíblia descreve um ato físico – um peixe engolindo um homem. E nenhum peixe que conhecemos poderia ter feito isso. Mas nada impede que um animal desconhecido por nós e que nem mais exista, tenha feito tal coisa. O fato de desconhecermos uma coisa não significa que ela não pode ter acontecido.

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