PRESTE ATENÇÃO NAS PREMISSAS OCULTAS

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Os cristãos discordam muito entre si quanto ao que é certo fazer segundo a Bíblia. Uns pensam que é pecado divorciar, enquanto outros acham que não. Uns defendem que o batismo tem que ser feito por imersão (e somente para adultos), enquanto outros batizam por aspersão (e incluem crianças). Uns acreditam que as pessoas são predestinadas, enquanto outros discordam totalmente. E assim por diante.

Mas por que as pessoas leem a mesma Bíblia e chegam a conclusões tão diferentes? Será que o problema é má intenção – uma vontade deliberada de distorcer o que a Bíblia diz -, ou falta de entendimento do que foi lido? Nem uma coisa nem outra – normalmente as pessoas que pensam diferente são igualmente sinceras e capazes.

As diferenças de opinião se devem às premissas distintas que as pessoas usam para construir suas conclusões. Premissas são ideias consideradas como verdadeiras que servem como ponto de partida, como base, para qualquer raciocínio. Por exemplo, tenho como premissas que Jesus é Deus encarnado e que Ele veio ao mundo para nos salvar. Tudo o que penso sobre religião vai se apoiar nessas duas ideias. Já um ateu, diferentemente de mim, vai raciocinar partindo de duas premissas diferentes: não há nada além do mundo natural (físico) e Deus não existe, é uma ficção.

E quase sempre as premissas não são adotadas pelas pessoas a partir de um raciocínio lógico. Por exemplo, um ateu não deixa de acreditar em Deus porque viu uma prova científica que Ele não existe, até porque essa prova é impossível de encontrar. Não, essa pessoa deixa de aceitar Deus por uma experiência frustrada com Ele, por ter sido criado num lar cristão excessivamente legalista que lhe fez muito mal, por não ter tido suas dúvidas repondidas no momento adequado e assim por diante.

Os cristãos certamente têm um núcleo de crenças em comum – por exemplo, Jesus é o Salvador e a Bíblia a Palavra de Deus -, mas partem de premissas muito distintas em relação a muitos temas de grande importância como, por exemplo, a figura de Deus. Quando a pessoa olha para Deus como se fosse um Pai, perceberá os atos d´Ele de forma distinta do que faria se o percebesse como um Juiz severo. As premissas fazem toda a diferença.

Um fator que complica bastante as coisas é que a maioria das premissas que as pessoas usam são “ocultas”, estão presentes mas não são percebidas com clareza. Por exemplo, se uma pessoa vê Deus como um Juiz severo porque teve um mau relacionamento com seu próprio pai, normalmente não se dá conta disso.

Identificando as premissas ocultas
Vou explicar melhor o que quero dizer com um exemplo. Acho que todos conhecem a declaração que Jesus fez, referindo-se ao divórcio: “aqueles que Deus juntou, não os separe o homem“. Nos comentários ao texto que escrevi aqui no blog sobre o divórcio (veja mais), várias pessoas usaram esse versículo para tentar derrubar meus argumentos, alegando que o divórcio, exceto por infidelidade, é pecado (equivalente ao adultério), conforme Jesus estabeleceu.

Ora, quem argumenta assim está partindo da seguinte premissa: quando o casamento foi feito numa igreja, a união foi feita por Deus. Essa é, por exemplo, a posição da Igreja Católica e de muitas denominações evangélicas. Muitos podem até nem se dar conta que usam essa premissa, mas ela é que está na base da conclusão de que não podemos “separar quem Deus juntou”.

Mas não há qualquer suporte bíblico para essa premissa. É claro que o casamento feito na igreja e aquele sancionado por Deus podem até coincidir e eu até diria que isso acontece com frequência, mas não é possível concluir que isso sempre aconteça. Pense num casamento onde as pessoas não têm qualquer vínculo com a igreja onde vão se casar e simplesmente participam daquele ato para dar uma satisfação para a sociedade – conheço casos em que um dos noivos era ateu. E esse tipo de situação é muito frequente. Onde está a garantia que Deus abençoou a união de quem nem acredita n´Ele?

Portanto, quando as pessoas estão discutindo o divórcio, na verdade discutem, sem perceber, a premissa que o casamento na igreja equivale ao casamento feito por Deus.

Esse exemplo demonstra que, para identificar as premissas usadas, é preciso raciocinar ao contrário, partindo da conclusão e ir caminhando para trás.

Mais dois exemplos 
Um outro caso bem conhecido é o do aborto. A maioria dos cristãos (dentre os quais me incluo) considera o aborto um pecado, por violar o mandamento de não matar. Já aqueles que aceitam o aborto, sejam cristãos ou não, entendem que a mulher tem o direito de escolher como vai usar seu corpo.

A questão oculta aqui é: a partir de qual momento o feto é considerado um ser humano? Aqueles que são contra o aborto, entendem que já na concepção existe um ser humano formado. Os que admitem o aborto entendem que somente haverá um ser humano num estágio mais avançado da gravidez e, portanto, abortar antes não é pecado – há como uma “janela de oportunidade” para praticar o ato sem pecar.

Essa é a questão verdadeira e não se a mulher tem ou não direito sobre seu corpo. É claro que a mulher tem esse direito, mas nunca em detrimento de outra vida. Ou seja, quando a vida humana é constatada, a criança em gestação passa a ter direito à vida, que é superior ao direito da mulher sobre seu corpo, e ninguém discute isso, nem os que defendem o aborto. A questão então é decidir a partir de que ponto isso se dá. Mas esse ângulo da questão é pouco discutido.

Outro exemplo interessante é o que trata da autoridade espiritual. Recentemente ouvi uma pessoa defender a tese que, segundo a Bíblia, precisamos ser submissos às autoridades espirituais que Deus coloca no nosso caminho. E essa pessoa citou exemplos bíblicos para justificar seu raciocínio. Concluiu afirmando que, numa igreja, as pessoas precisam ser submissas aos seus pastores e aos demais líderes locais que sejam legalmente instituídos, porque essas pessoas têm autoridade espiritual sobre a membresia daquela igreja.

É certo, em termos bíblicos, que precisamos ser submissos às autoridades espirituais. Mas a questão verdadeira é: quem são as autoridades espirituais na nossa vida? A pessoa a que me referi acima usou a premissa oculta que toda pessoa apontada para cargo de liderança numa igreja, seguindo princípios institucionais (canônicos) legais, é automaticamente uma autoridade espiritual. Mas onde isto está escrito na Bíblia? Será que um padre legalmente apontado para uma paróquia, mas que abusa de crianças, tem autoridade espiritual? Ou um pastor que rouba os dízimos deve ser obedecido? Duvido muito.

Pessoas podem ter sido legalmente apontadas para uma posição de liderança, mas isso lhes garante apenas autoridade institucional não autoridade espiritual. São duas coisas diferentes. A autoridade institucional vem dos homens e a espiritual de Deus. É por isso que os profetas do Velho Testamento não tinham qualquer autoridade institucional – um deles era pastor de cabras e ovelhas -, mas tinham grande autoridade espiritual.

Por confundir autoridade institucional com espiritual, muitos membros de igrejas ficam à mercê de lideranças religiosas desqualificadas e não encontram forças para reagir. Vemos isso acontecer toda hora.

Palavras finais
Procure sempre por aquilo que está oculto por trás de declarações como “tal coisa é pecado” ou “a Bíblia manda fazer tal coisa”. Você pode se surpreender com as descobertas que fará.

Com carinho

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