O QUE PENSAR DO DEPUTADO MARCO FELICIANO?

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Acredito que seja do conhecimento de todos o caso do Deputado e Pastor Marco Feliciano, eleito Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, que foi rejeitado por larga fatia da opinião pública, que não vê nele condições mínimas para a função. 

O debate “sai Feliciano” tem ocupado páginas e páginas dos jornais e vários programas de televisão. Mas acho que tem faltado nesse debate um esclarecimento real das questões em jogo. E é isso que vou tentar fazer aqui.

Aos fatos, começando pela figura do Deputado Feliciano. Trata-se de um Pastor de igreja evangélica neo-pentecostal, que foi eleito com cerca de 200.000 votos, pelo Estado de São Paulo. Feliciano prega uma teologia, a meu ver, completamente distorcida, a tal Teologia da Prosperidade – quanto mais se dá a Deus, mais se recebe d´Ele. 

Eu já me manifestei neste blog por diversas vezes contra essa Teologia, por ser biblicamente errada e levar a abusos na forma como os pastores lidam com as contribuições dos fiéis. E Feliciano, segundo as evidências, lamentavelmente se enquadra nesse tipo de perfil – o video em que ele aparece pedindo a senha do cartão de saque de um frequentador da sua igreja é chocante. 

Mas os problemas teológicos não param por aí. Ele se opõe às politicas de defesa dos direitos da mulher, porque entende, de forma totalmente distorcida, que elas promovem o homosexualismo. Segue também a doutrina que os países da África carregam sobre si uma maldição, fruto do pecado de um dos ancestrais da sua população, linha de pensamento sem qualquer apoio bíblico. Essa doutrina é tão absurda, que nem deveria merecer comentários, não fosse pelo enorme mal que já causou á sociedade, na época da escravidão, ao dar “suporte” bíblico para os escravocratas.

Em resumo, trata-se de um pastor cuja igreja eu não quero frequentar e não recomendo que ninguém o faça.Suas práticas não merecem de mim nenhum apoio e consideração. E acredito que ele não seja adequado para o cargo que ocupa.

Agora vamos ao outro lado da questão, a reação ao Pastor, especialmente por parte da mídia e da intelectualidade. 

E é preciso olhar a questão além do “sai Feliciano”. Primeiro, ele não se auto-elegeu – foi votado para o cargo por diversos outros Deputados, dentro de um grande acordo político, envolvendo inclusive partidos que agora se acham no direito de pedir que ele saia. Hipocrisia total.

Depois, é preciso reconhecer que há muitas outras pessoas no Congresso que não têm perfil para os cargos que ocupam. Na Câmara Federal, um Deputado que está sendo processado por fraude financeira ocupa cargo na importante Comissão de Economia e Finanças. E, na Comissão de Justiça, há dois Deputados já condenados pelo STF por crimes diversos no processo do “mensalão”. E no Senado não é diferente.

Isto quer dizer que a forma como os parlamentares são escolhidos para ocupar as tais Comissões não leva em conta a biografia dos indicados e sim outros interesses, muitos deles menores. Há um erro de origem terrível nisso tudo, que vai muito além da questão “sai Feliciano”. Ou seja, se quisermos evitar que apareçam outros “felicianos” nas Comissões, será preciso mudar os Regimentos da Câmara e do Senado, bem como que os partidos passem a ter mais responsabilidade nas indicações que fazem para o preenchimento desses cargos. 

O terceiro aspecto importante é perceber que estão sendo usadas formas de ataque indevidas contra o Deputado. Isto é, vale tudo para tirá-lo de lá. 

Vou dar um pequeno exemplo: dias atrás, li no Estado de São Paulo uma análise sobre a afirmação que o Pastor fez, na qual usou a palavra Satanás, que quer dizer Inimigo, para se referir aos demais membros da Comissão que preside. É claro que o uso de tal palavra na situação atual é absurdo e reprovável, pois um cristão não deve se comportar dessa maneira. 

Mas tal artigo do Estadão, que cita uma especialista em lingua hebraica moderna, comete um absurdo de volta. A tal especialista nega que a palavra Satanás signifique Inimigo, o que é um erro, pelo menos no que tange ao que interessa, que é o hebraico dos tempos bíblicos. Se o jornal tivesse tido o cuidado de consultar uma fonte que conhecesse mesmo essas questão, poderia ter tido a confirmação desse siginificado. E não teria insinuado, como fez, que o Pastor faltou com a verdade. A verdade é que muitas declarações do Feliciano são distorcidas e tiradas do contexto – aliás não deve ser surpresa para ninguém perceber que a mídia faz isso.

Finalmente, existe ainda a questão que boa parte da população evangélica se sente perseguida pela mídia e a intelectualidade. E isso se aplica ainda com mais força aos pentecostais e aos fundamentalistas, segmento do cristianismo ao qual Feliciano pertence. 

E tal sentimento tem algum fundo de realidade: basta ver como a TV Globo historicamente retrata os evangélicos – ou são corruptos, ou fanáticos ou figuras de caricatura. Nunca exixitiram evangélicos “normais” na teledramaturgia global. Eles só existem, felizmente, na vida real e conheço muitos deles.

E, por conta desse sentimento de injustiça, muitos evangélicos cerraram fileiras ao lado do tal Pastor, vendo na questão mais um episódio da “guerra” travada contra todos eles – aliás, Feliciano se esforçou para passar essa imagem de mártir da fé. 

Ao ficar ao lado dele, pensando defender sua fé, pessoas corretas acabaram por parecer endossar as ideias descabeladas e o comportamento absurdo dele. E aí, contribuiram, sem perceber, para reforçar  a imagem estereotipada que os evangélicos já têm.

Resumindo, uma grande confusão se instalou e nada de bom saiu, ou vai sair, dessa discussão toda. É uma pena.

Na verdade, penso que o único ganhador nessa situação é o próprio Feliciano, que virou figura nacional, o que vai lhe garantir uma releição tranquila, com muito mais votos  – quem viver verá. 

Com carinho

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