A DECADÊNCIA DO “DEUS DAS BRECHAS”

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As descobertas científicas e os desenvolvimentos tecnológicos sempre geram ameaças de todo tipo: comerciais, profissionais, intelectuais e pessoais. Basta lembrarmos das profissões que desapareceram (operador de elevador, acendedor de lampião, fabricante de chapéus e, futuramente, entregador de jornais/revistas e caixa de agencia bancária); dos setores da economia que foram destruídos (máquinas de escritório mecânicas, fábricas de cassetes, lojas para aluguel de vídeos, etc); bem como das mudanças nos nossos hábitos (ninguém envia mais cartão de natal, os convites são feitos via facebook, etc), para compreender bem o tamanho desse tipo de ameaça.   

Naturalmente essas ameaças tendem a gerar reações boas ou ruins nas pessoas, conforme  sejam positivas ou negativas para cada uma delas. E as reações ruins podem se tornar até violentas, como aconteceu na Inglaterra no século XVIII, quando a mecanização das fábricas começou a desempregar a mão de obra menos qualificada, o que gerou motins.

E é exatamente isso que ocorre hoje no debate entre ciência e fé cristã. De um lado estão os cientistas, a maioria deles ateu, e do outro lado, clérigos, teólogos e os demais seguidores de Cristo. É uma verdadeira guerra travada através da mídia, nas universidades, em livros, etc. Os cientistas defendem que as descobertas científicas estão  tornando Deus desnecessário,  enquanto os cristãos defendem sua fé a ferro e fogo, muitas vezes demonizando os do lado contrário.

É preciso tentar mudar o foco desse debate e torná-lo mais civilizado e produtivo, pois certamente um lado pode e deve aprender com o outro. Afinal ciência e fé se complementam e não são substitutas uma para a outra. Por exemplo, a ciência não tem e nem nunca terá explicações para questões como o sentido da vida humana, a vida depois da morte, etc, o que cabe à religião fazer.

Organizando o debate
Quando as mudanças geradas pelos avanços científicos e tecnológicos confirmam a visão de mundo que as pessoas já têm, não há qualquer problema. Por exemplo, os cristãos ficaram muito satisfeitos com a teoria, hoje comprovada cientificamente, do Big Bang (começo do universo através da explosão de um “ovo” de matéria), pois ela é absolutamente compatível com a visão cristã da criação do mundo a partir do nada. Essa é a situação ideal em que vemos a fé e a ciência darem as mãos e ficarem mutuamente felizes.

Mas infelizmente não é sempre assim que acontece. Quando as mudanças ameaçam a visão de mundo cristã, a reação pode ser radical. Foi exatamente isso que aconteceu com Galileu – a igreja cristã via na posição do planeta terra como o centro do universo a demonstração prática da importância do ser humano para Deus. Ora, se a terra fosse relegada, como hoje sabemos ser a realidade, a um cantinho do universo, como ficaria a nossa relação com Deus? A cultura cristã teve que se modificar para conseguir aprender a conviver com essa realidade, o que acabou sendo até bom para o cristianismo. E hoje essa questão não leva ninguém mais a perder o sono. Mas naquela época Galileu acabou sofrendo com esse dilema, junto com vários outros cientistas, o que foi um grave erro da igreja.

Por outro lado, muitos cientistas ficam intimamente satisfeitos ao comprovarem teses científicas que pareçam diminuir o papel de Deus na nossa vida. Sendo assim, não se trata na prática apenas de um debate sobre verdades científicas, já que há também por parte deles uma agenda ideológica que procura fazer avançar o ateísmo. E ao se comportarem assim, esses cientistas também dão sua colaboração para o tal clima de guerra.

Vemos isso com clareza no debate sobre a evolução. Muitos cristãos pensam que se a teoria da evolução ganhar o debate, Deus deixará de ser necessário e a Bíblia terá sido provada errada. Logo, trata-se de guerra que o cristianismo não pode correr o risco de perder. E diversos cientistas e intelectuais, como Dawkins, Hitchens, Hawkins, dentre outros, insuflam o clima negativo nos seus escritos bombásticos, dizendo que a ciência vai acabar com as bobagens do cristianismo.

Os erros dos cristãos
O nosso principal erro é aceitar como esse debate é formulado: se a ciência provar tal e qual coisa, a Bíblia estará errada e toda a construção teológica feita sobre Deus ira desmoronar. Eu afirmo, sem qualquer medo de errar, que nenhuma teoria científica jamais vai provar a Bíblia errada e nem tornar Deus irrelevante, por isso mesmo nenhum debate científico sério me abala. Mas os cristãos entram de bobos nesse tipo de armadilha por causa de uma visão filosófica errada, que nada tem com o cristianismo em si. 

E essa visão errada têm dois aspectos complementares. O primeiro deles é atribuir a um mistério vindo de Deus tudo aquilo que sabemos explicar – essa posição teológica é chamada de “Deus das brechas”. Os mistérios divinos, segundo essa percepção, preenchem todas as limitações que existem no conhecimento humana.

Ora, à medida que a ciência avança, Deus vai então ficando cada vez menor. Por exemplo, o trovão era antes a voz de Deus, depois se percebeu ser um fenômeno natural; antes a morada de Deus era um local físico que ficava acima da terra, enquanto hoje sabemos que, no espaço sideral, o conceito de “acima” e “abaixo” não tem qualquer relevância; etc. 

E o “Deus das brechas” não irá desaparecer de todo, pois sempre haverá o que explicar cientificamente, mas vai ficar cada vez mais irrelevante.

O segundo erro é ler a Bíblia literalmente, onde ela não foi escrita para isso. Imagine que eu precise contar para um índio sobre a descida do homem na lua. É claro que vou ter que adaptar a linguagem e os conceitos sobre o que aconteceu ao universo cultural daquela pessoa. Isso não quer dizer que estarei mentindo, mas certamente o relato que farei não será científico, senão o índio nada iria entender.

Agora, quando Deus, através de Moisés e outros, nos deu o relato da criação do mundo, no Gênesis, o problema foi parecido. Era preciso contar que Ele tinha criado o universo a partir do nada para um povo com muito pouca cultura científica (esse relato foi feito cerca de 3.500 anos atrás). É claro que o relato teve que ser adaptado à cultura da época e não poderá nunca ser tomado literalmente. É o sentido, o espírito da coisa, que deve ser considerado. Mas muitos cristãos pretendem ler o Gênesis como um relato científico e aí ficam na posição estranha de ter que defender o indefensável – por exemplo a idade da terra ser sete mil anos – ou aceitar que há erros na Bíblia. A verdade é que o problema está na perspectiva usada na leitura e não na Bíblia.

Portanto, o literalismo bíblico, agregado ao conceito do “Deus das brechas” faz com que muitos cristãos se sintam ameaçados por questões como a evolução. Na verdade, mesmo que Darwin estivesse totalmente certo – e não estou defendendo isso aqui, apenas usando essa hipótese para construir um argumento –, em nada a Bíblia e a fé cristã seriam diminuídas. 

Jesus continuaria a ser o Salvador da humanidade, o homem continuaria a lutar contra o pecado e apenas algumas leituras do texto bíblico ficariam superadas, como aconteceu com aquelas que colocavam a terra no centro do universo. Ou seja, não se trata de uma disputa de vida e morte para o cristianismo e erram aqueles cristãos que aceitam o problema colocado nesses termos. 

Conclusão
Deus é muito maior do que qualquer um de nós pode entender e avaliar (há vários textos neste blog onde falo sobre isso). Não será Darwin ou seus seguidores, ou filósofos como Nietzsche e outros, que vão torná-lo irrelevante. Aliás se isso fosse possível, Deus não seria o Ser que eu penso que Ele é e não deveria ser adorado pelos cristãos. Deus não está morto ou muito menos em crise. O que está em crise ou morrendo é a visão do “Deus das brechas” e o literalismo obscurantista defendido por muitos.

E eu até me atrevo aqui a fazer uma sugestão que acredito ajudaria muito os cristãos a terem uma posição mais aberta e construtiva no debate entre ciência e fé cristã: o ensino da ciência nas igrejas, o que poderia ser feito inclusive com o apoio de cientistas que não concordem integralmente com a visão cristã, o que iria gerar debates muito interessantes. Afinal, quanto maior o conhecimento, mais clara será a visão do cristão e, com certeza, mais forte e sólida será sua fé.

Com carinho

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