OS INVISÍVEIS

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… Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

…E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…

Parte da letra da música “Construção” de Chico Buarque

Em nosso país, não temos “intocáveis”, como ocorre na Índia, mas, temos algo tão ruim quanto: os “invisíveis”. São aquelas pessoas que não são vistas pelas outras no dia a dia: os garis, os porteiros, os faxineiros, os operários da construção civil, os pedintes nos sinais de tráfego, etc. Estão presentes, mas não são notadas, os que as faz ter autoestima muito baixa. Recentemente vi um programa em que um repórter se vestiu de gari e passou alguns dias circulando pela cidade e falou da angústia que é não ser visto pelas pessoas. Acabou deprimido.


Ninguém gosta de ser invisível e a propaganda trabalha exatamente para isto: nos vender coisas que vão nos fazer notados e importantes, bem visíveis. 


Os invisíveis em nosso país são aqueles que morrem nas filas do SUS, por não serem atendidos em tempo; habitam lugares de risco, pois não tem condições de morar em locais melhores; sofrem brutalidades dos policiais; passam fome, vendo os outros se fartarem; e assim por diante.


Eles não contam, não opinam , não influem, enfim não valem quase nada – são apenas números nos relatórios do governo. Eles somente se tornam “visíveis” quando uma grande tragédia, como aquela que acabou de se abater sobre a região Serrana do Rio de Janeiro, deixa diversos corpos no meio da rua e não dá para deixar de vê-los. É como a música de Chico Buarque, cuja letra está acima: “morreu na contra mão, atrapalhando o tráfego” – quando a vida normal (o “tráfego”) é atrapalhada, aí sim é preciso fazer algo… 


Os “leprosos”, na época de Jesus, eram todas as pessoas que tinham doenças de pele que causavam lesões visíveis – por exemplo, psoríase – e não somente aqueles que tinham hanseníase. Os leprosos eram considerados impuros pelas autoridades religiosas e afastados do convívio social, passando a viver miseravelmente, da caridade pública. E assim, tornavam-se invisíveis para quase todos os judeus. E o pior, é que havia uma percepção pública de que eles tinham feito por merecer tudo isto, por que tudo era culpa dos seus próprios pecados, ou dos pecados de seus pais.


Hoje não é muito diferente. Ouvimos a toda hora comentários sobre os invisíveis do tipo: “eles são assim por que não se esforçam para serem melhores”; ou ainda “no fundo, eles gostam de viver essa vida”. Há uma percepção disseminada que eles têm grande culpa por estarem nessa condição.  


Jesus diversas vezes interagiu com os leprosos e curou vários. Somente pelo fato de interagir com essas pessoas, Ele muitas vezes foi criticado pelas autoridades religiosas, porque estava se contaminando, ao ter contato com pessoas impuras, mas nunca se deixou impressionar. Ele via os invisíveis e nos ensinou a fazer o mesmo.


Ele nos disse que nenhum gesto de bondade que fizéssemos para essas pessoas deixaria de ser recompensado por Deus, pois ao fazer por esses pequeninos, estaríamos fazendo pelo próprio Jesus. Ou seja, ao ver os invisíveis, estaríamos vendo o próprio Jesus. Essas são palavras fortes e definitivas, sem dúvida.


Aí fico me perguntando: quantas vezes seguimos isto de fato? Somente quando há uma comoção nacional, como agora, e a tragédia bate à nossa porta “atrapalhando o tráfego”, ou temos como estilo de vida vê-los sempre, pois estão todos os dias em nossa frente? Para ter uma resposta clara, responda com sinceridade, para você mesmo, algumas perguntas relacionadas com esse tema. Eis alguns exemplos:

  • Você já tentou se colocar no lugar de qualquer dessas pessoas para tentar entender como elas se sentem?
  • O que você sabe da vida e dos problemas dos invisíveis que estão presentes no seu dia a dia?
  • As pessoas menos favorecidas à sua volta recorrem rotineiramente a você para pedir ajuda? Afinal, elas sabem a quem podem recorrer.

Se você ainda não vê os invisíveis que Deus colocou no seu caminho, lembre-se que Jesus espera que você os veja e se relacione com eles. Às vezes, o que eles precisam é muito pouco: um sorriso, uma palavra de carinho e alguma atenção.


Com carinho

Vinicius

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