O EQUILÍBRIO DO SER HUMANO

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O ser humano geralmente enfrenta grandes desafios para manter seu equilíbrio pleno, para conseguir levar uma vida com saúde física e emocional, desfrutando de paz e alegria, bem como manter-se em harmonia com Deus e seu próximo.

Problemas como doenças físicas, insegurança, medo, ansiedade, rancor, depressão e remorso são como ervas daninhas, pois se manifestam em qualquer pessoa, a qualquer momento, e acabam por afetar seriamente a manutenção desse equilíbrio.

O cristianismo e a ciência sempre procuraram encontrar as causas dos problemas humanos e a forma de tratar essas questões, embora tenham seguido por caminhos diferentes. As abordagens defendidas por esses dois campos costumam ser totalmente separadas entre si e muitas vezes um campo rejeita o que o outro tem a oferecer.

Estudiosos do comportamento humano, como Freud e outros, entendem que as respostas para os problemas humanos só podem ser encontradas na psicoterapia, que pode seguir diferentes abordagens (como a psicanálise ou a terapia comportamental).

Boa parte dos psiquiatras e outros partidários da chamada “solução Prozac” entendem que os remédios têm a resposta mais rápida e fácil para as dificuldades humanas – basta identificar o medicamento adequado e a dosagem certa que o equilíbrio é re-estabelecido.

A maioria dos líderes cristãos, especialmente aqueles de linha evangélica, costuma pensar que a dimensão espiritual predomina sobre qualquer aspecto físico ou emocional do corpo humano e por isso ela precisa ter prioridade. E, com base nessa percepção, foram desenvolvidas duas abordagens tradicionais, distintas entre si, para lidar com os problemas humanos.

A primeira abordagem privilegia a ideia que todos os problemas humanos, no fundo, se devem à influência negativa de espíritos malignos, da qual a pessoa precisa ser libertada – essa é a essência da abordagem recomendada nas igrejas de corte pentecostal.

A outra abordagem adotada pelos líderes evangélicos parte da noção que praticamente todas as questões humanas têm raiz no pecado e, em consequência, a solução delas sempre passa pelo arrependimento e o perdão de Deus – essa é a linha de pensamento do movimento chamado “Aconselhamento Cristão”, seguido por muitos psicólogos/as e terapeutas evangélicos/as.

Infelizmente, as duas abordagens desenvolvidas no meio cristão geraram uma consequência indesejada: a crença firme que cristão/ã não precisa tomar remédio ou fazer terapia para resolver seus problemas. Afinal, para que tomar remédio ou fazer terapia se o problema é a ação de espíritos malignos ou uma consequência do pecado? Esse pensamento está hoje em dia muito arraigado no meio evangélico.  

Ouvindo a voz da razão
Felizmente, sempre existe quem ouça a voz da razão em meio a essa confusão toda. E esse caminho sábio começa quando se reconhece haver enorme complexidade no ser humano. Ele  têm múltiplas dimensões (física, emocional e espiritual) e elas se interligam, trazendo impacto umas sobre as outras. Portanto, não há mais lugar para pensar o ser humano como um ser formado por três “compartimentos” independentes entre si, como as abordagens tradicionais costumam fazer.

É preciso deixar de lado tanto os “dogmas” da ciência, como aqueles trazidos pela religião, e olhar para as questões humanas com maior flexibilidade.

Aí ficará mais fácil compreender que, muitas vezes, o problema da pessoa é realmente físico e somente vai ser curado com remédios, mesmo que ela seja uma boa cristã. Esse é o caso, por exemplo, de muitos tipos de depressão, como a pós-parto, que têm a ver com o desequilíbrio da química do cérebro. São os remédios que permitem re-estabelecer a saúde em casos como esses.

Outras vezes será possível entender que as dificuldades são de fundo exclusivamente emocional e somente uma psicoterapia bem conduzida vai conseguir libertar a pessoa do seu sofrimento. Por exemplo, as sequelas causadas por abuso sexual sofrido durante a infância ou pelo abandono dos pais costumam requerer esse tipo de abordagem. 

E também reconhecer que existem sim questões causadas essencialmente por aspectos espirituais e não haverá como tratar a pessoa sem reconhecer isso. Por exemplo, sem dúvida existe a ação de espíritos malignos – Jesus mesmo expulsou demônios de um homem tido como louco e ele se curou (Marcos capítulo 5 versículos 1 a 20). E pecado também pode gerar sérios problemas, por exemplo, a depressão, como aconteceu com Davi depois de cometer adultério com Bate–Seba (ver Salmo 38).

Agora, o mais importante é entender que há uma interconexão entre as consequências físicas, mentais e espirituais. Males físicos ou emocionais quase sempre geram consequências espirituais –  por exemplo, a pessoa doente pode rifar Deus da sua vida, por não se conformar com o próprio sofrimento e culpar Deus por isso. Num caso como esse, será necessário um acompanhamento espiritual paralelo ao tratamento físico e/ou psicoterapêutico.

De igual forma, questões espirituais também podem gerar doenças físicas e/ou emocionais, as quais precisarão ser tratadas por profissionais capacitados, ao mesmo temo em que o/a pastor/a ou o/a conselheiro/a espiritual faz seu trabalho.

Repito, não devemos nunca ser dogmáticos, declarando não aceitar medicação pois basta orar para o problema ir embora, ou desprezar totalmente a dimensão espiritual por achar que o mal é todo físico. 

As contribuições da ciência e da religião podem e devem ser combinadas, buscando enfrentar todas as dimensões das dificuldades presentes na vida humana. E essa é uma lição que precisamos aprender. 

Com carinho

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