A TECNOLOGIA DIGITAL NO USO DA BÍBLIA

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Sou inteiramente a favor do uso da tecnologia digital em todos os aspectos da vida cristã – não admitir isso seria ficar para trás e tornar mais difícil difundir a mensagem do Evangelho de Cristo no mundo atual. E isso se aplica, em particular, também à leitura e ao estudo da Bíblia. 

Agora, é preciso ter em mente que o uso de novas tecnologias costuma causar mudanças de comportamento inesperadas. E algumas dessas mudanças podem ser negativas.

Por exemplo, a popularização do uso dos smart phones entre os/as jovens fez com que eles/as passassem a ficar totalmente alheios durante as reuniões familiares – mesmo estando presentes fisicamente, passam o tempo todo trocando mensagens com amigos/as e/ou navegando na Internet. 

Uma tecnologia maravilhosa (os smart phones) está causando grande impacto negativo nas relações familiares, coisa que ninguém tinha previsto.

Um exemplo histórico do impacto da tecnologia no uso da Bíblia
Cerca de 1.000 anos atrás, foram incorporados ao texto bíblico os números dos capítulos e dos versículos, que não existiam no texto original. Isso permitiu  que as pessoas passassem a encontrar com muito mais rapidez a passagem que queriam ler, no meio de um texto que é enorme. 

Esse avanço tecnológico trouxe um efeito secundário que pouca gente esperava: as pessoas passaram a procurar na Bíblia apenas suas partes preferidas, como os versículos contendo promessas ou consolo. E, ao agirem assim, acabaram perdendo o “fio condutor” de cada relato da Bíblia – antes, elas precisavam ir lendo todo o texto para chegar no ponto desejado -, empobrecendo muito seu entendimento do texto.

Um recurso simples (números dos capítulos e versículos) mudou a maneira como as pessoas se relacionavam com o texto bíblico e essa mudança trouxe vantagens (mais facilidade), como também desvantagens (em muitos casos, perda da ideia geral do texto). 

O perigo da tecnologia digital no uso da Bíblia
De igual forma, o uso da tecnologia digital para acessar a Bíblia pode vir a causar um problema importante. Na verdade, está sendo construída uma “camada” de tecnologia digital (os aplicativos) entre a Bíblia e os/as leitores/as, fazendo com que eles/as passem a se relacionar mais com essa “camada” do que com o texto bíblico propriamente dito.

Vou me explicar melhor. Os aplicativos têm várias vantagens. Por exemplo, evitam que seja preciso carregar um livro grosso (a Bíblia) por aí – basta ter o aplicativo adequado que o texto bíblico pode ser acessado de forma muito simples e prática.

Outra vantagem é contar com diferentes tipos e tamanhos de letras, o que torna a leitura mais agradável. Outra vantagem importante é ter pronto acesso a várias traduções da Bíblia – eu tenho um aplicativo muito útil que permite colocar duas traduções para comparação imediata. Muito interessante também é a possibilidade de fazer notas sobre o texto bíblico e compartilhá-las com outras pessoas de determinado grupo.

Agora, o acesso à Bíblia passou a ser intermediado pelo aplicativo que a pessoa venha a usar. A forma como as coisas são organizadas nesse aplicativo em particular determina como a pessoa passa a interagir com o texto bíblico.

Por exemplo, conheço um aplicativo onde a pessoa precisa digitar as duas letras iniciais do nome do livro da Bíblia que deseja ler, seguido do número do capítulo e do versículo desejado. Há outros aplicativos que apresentam uma lista alfabética dos livros da Bíblia e a pessoa escolhe qual deles quer ler, seguido do número do capítulo e versículo.

É fácil se acostumar com essa forma de procurar o texto bíblico desejado, esquecendo que não passam de invenções de quem desenvolveu o aplicativo em uso e nada têm a ver com o texto da Bíblia em si. Quem procura os textos bíblicos dessa forma, não precisa mais conhecer a ordem dos livros da Bíblia e essa ordem é importante para entender a mensagem geral que está sendo passada, pois há uma lógica nela (veja mais).

Com os aplicativos, as pessoas ficam mais distantes do texto, pois deixou de ser necessário conhecer como ele está organizado, pois a “camada” digital faz esse trabalho por elas. 

Não é de estranhar, portanto, que as pessoas cada vez conheçam menos sobre as características da Bíblia e, frequentemente, não saibam onde se dirigir para encontrar aquilo que querem.

Está se tornando popular também o uso de aplicativos que contém planos de leitura da Bíblia e que passam diariamente para as pessoas pequenos textos bíblicos para meditação.

Já vi aplicativos com diversos “temas”, como “consolo”, “exortação”, “promessas”, etc. Há aplicativos que mandam também sugestões de textos bíblicos, com base em perguntas que são feitas pelas pessoas. 

Isso não deixa de ser bom, por um lado, pois incentiva as pessoas a se lembrarem sempre de ler a Bíblia e até a memorizarem versículos úteis em determinados momentos da vida. Mas, por outro lado, cada vez mais as pessoas deixam por conta de terceiros (no caso quem organizou os aplicativos) a decisão do que elas vão ler na Bíblia.

Elas correm o risco de se limitar a ler os textos que lhes forem indicados pelo aplicativo que usam, sem nunca terem curiosidade de buscar por si mesmas aquilo que precisariam ler. 

Essa camada de “inteligência” (o aplicativo), situada entre o/a leitor/a e o texto bíblico, me lembra de um problema que existia na Idade Média, antes da Reforma Protestante. Naquela época, a Bíblia somente estava disponível diretamente para os sacerdotes, pois seus textos eram copiados à mão, o que tornava os exemplares da Bíblia muito caros.

Assim, cabia a esses sacerdotes mediar o uso do texto bíblico pelas pessoas, escolhendo as passagens a serem lidas, lendo essas passagens para elas e explicando-lhes seu significado. E esse controle sobre o texto bíblico gerou enormes abusos por parte dos sacerdotes e essa foi uma das razões para a Reforma Protestante – não por acaso, uma das primeiras providencias de Lutero foi traduzir a Bíblia para alemão (até, então, ela só existia em latim) e incentivar a impressão de exemplares dela, barateando o seu custo. 

Por outros caminhos, a situação que hoje se desenha vai se tornando similar – as pessoas que concebem e gerenciam esses aplicativos podem acabar, de certa forma, controlando que partes da Bíblia os/as usuários/as vão ler 

A “camada” tecnológica corre o risco de, cada vez mais, se interpor entre as pessoas e o texto da Bíblia, por um lado, facilitando sem dúvida o acesso ao texto bíblico, mas, de outro, tornando as pessoas dependentes das regras e forma de funcionamento dos aplicativos.

Concluindo, nada deve substituir seu acesso direto ao texto da Bíblia. Você precisa saber como o texto está organizado e o que cada livro contém (pelo menos em termos gerais), para que saiba sempre encontrar aquilo que deseja.

Você precisa fazer seu próprio plano de leituras bíblicas, conforme seja do seu interesse e necessidade, nunca se limitando a programas pré-estabelecidos por terceiros, que podem influenciar você de forma indevida. 

Muito cuidado com essa questão, pois o domínio da Bíblia é vital para a vida espiritual de qualquer cristão/ã. A Bíblia é seu manual de vida dado diretamente por Deus e você precisa conhecer bem o que esse manual contém.

Use a tecnologia digital, mas nunca se deixe influenciar demais ou escravizar por ela.

Com carinho

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Vinicius MouraRoberta Koren Recent comment authors

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Roberta Koren
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Roberta Koren

Moro há 17 anos na Costa Rica e dependo muito da tecnologia pra poder me manter em comunhão com DEUS! Por favor em nome de JESUS continuem o bom trabalho porque esse site é a minha única igreja atualmente!!!