OS CAMELOS E A BÍBLIA

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Cerca de 4 anos atrás, diversos jornais importantes, como o New York Times, publicaram os resultados de um estudo feito numa Universidade de Israel, usando ossos de camelos, descobertos em escavações recentes.

Os resultados desse estudo indicaram que os camelos só teriam aparecido no cenário da Palestina por volta do ano 1.000 Antes de Cristo. Ora, como a Bíblia, no livro do Gênesis, refere-se à presença de camelos já na época dos Patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó), mais ou menos 2.000 anos Antes de Cristo, os autores do tal estudo concluíram haver um erro no texto bíblico.

Situações desse tipo – estudos que tentam provar erros na Bíblia – são frequentes e o script desse tipo de “drama” é quase sempre o mesmo. O estudo é publicado, a mídia dá enorme destaque, muita gente ganha dinheiro com os artigos, livros e entrevistas, e alguns cristãos ficam assustados com as possíveis consequências da descoberta sobre sua fé – por exemplo, eu recebi diversas perguntas aqui no site na época que o estudo sobre os camelos foi publicado.

Ora, a resposta para esse tipo de “ataque” também é sempre a mesma, abrangendo dois aspectos diferentes: primeiro, o significado do estudo em si, e, depois, o possível impacto dele sobre a fé cristã.

O significado do estudo
Se os resultados do tal estudo forem analisados com cuidado, fica claro que eles não são conclusivos (e nem poderiam mesmo ser). Foram descobertos ossos de camelos que parecem ser os mais antigos na história da Palestina e eles datam mais ou menos do ano 1.000 Antes de Cristo. Daí decorreu a conclusão tirada.

Ora, há aí um tipo de falácia (erro de lógica) bem conhecido: confundir ausência de evidência com evidência de ausência. Vou dar um exemplo desse tipo de situação. 

Até cerca de 25 anos atrás, não havia qualquer registro arqueológico relacionado com o rei Davi – todas as referencias a ele estavam restritas ao texto da Bíblia. Por conta disso, alguns arqueólogos construíram a teoria que Davi não tinha existido de fato, seria uma figura meramente lendária (o que seria um golpe terrível para a credibilidade da Bíblia).

Até que em 1993 foi encontrada, numa escavação arqueológica, uma placa comemorativa que citava claramente a “casa” (linhagem) de Davi. Os estudiosos que defendiam que Davi era uma lenda ainda tentaram argumentar que a tal placa era forjada, mas não conseguiram convencer ninguém. Hoje sua teoria caiu em desgraça. 

Repare que é exatamente o mesmo tipo de erro: como não foram encontradas evidencias concretas de algum fato ou pessoa, imagina-se que o fato não aconteceu ou a pessoa não existiu.

A falácia nesse tipo de raciocínio é que não há como ter certeza que não vão aparecer evidencias antes desconhecidas (como aconteceu no caso de Davi) e derrubar as conclusões. A evidencias podem existir e apenas não terem sido encontradas por se referir a fatos ou pessoas muito antigas.

E isso se aplica ao estudo feito com os ossos dos camelos. O fato de não ter sido ainda encontrada evidencia de camelos mais antigas que o ano 1.000 Antes de Cristo não prova que não existiram camelos na Palestina antes dessa época – simplesmente não é possível saber. 

Portanto, o tal estudo não provou nada de importante. No máximo, os autores dele podem dizer é que há probabilidade dos camelos na Palestina somente terem aparecido bem depois do que a Bíblia relata. Nada mais que isso.

O impacto do estudo na fé cristã
O segundo aspecto a considerar é o significado desse fato (o possível erro em citar camelos no livro do Gênesis). Não acredito em absoluto que esse erro exista, mas para efeito do argumento que estou desenvolvendo, qual seria o impacto na fé cristã?

Seria irrelevante, afinal, o fato dos camelos terem ou não existido no tempo dos Patriarcas bíblicos não mudaria em nada, por exemplo, o papel de Jesus como Salvador da humanidade.

O impacto seria indireto, na credibilidade da Bíblia. Afinal, se erros forem identificados, a Bíblia perde parte da sua autoridade. Só isso.

Não seria um golpe mortal no cristianismo. Não mudaria em nada aquilo que acreditamos. Seria uma curiosidade mais do que qualquer outra coisa.

Concluindo, o estudo publicado não prova de forma nenhuma que a Bíblia contem um erro. Eu, por exemplo, continuo acreditando que a palavra de Deus não contem erros.

E, ainda que tal erro histórico tivesse sido provado, nada de significativo teria mudado na fé cristã. Continuaríamos acreditando que Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade.

O tal estudo gerou muito barulho e fez muita gente ganhar dinheiro, mas  não tinha grande substância, como sempre acontece nesses casos.

Com carinho

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