JESUS TEVE IRMÃOS E IRMÃS?

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Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe.                              Mateus capítulo 12, versículo 46

A controvérsia sobre a existência de irmãos/irmãs de sangue de Jesus, por parte de Maria, tem dividido o povo cristão há séculos: de um lado, a Igreja Católica e alguns outros grupos afirmam que Jesus não teve irmãos/irmãs de sangue, enquanto, do outro lado, praticamente todos os grupos de protestantes e evangélicos afirmam que Jesus, sim, teve irmãos/ãs de sangue. 

Essa questão é mais do que uma simples curiosidade histórica, pois está no centro da discussão sobre o papel que Maria deve ter na fé cristã.

Para os católicos, Maria é a mãe de Deus e isso já diz tudo. Portanto, assim como Jesus, ela não teria pecado e foi transladada para os céus, atuando como mediadora entre Deus e os homens – esse conceito está presente na famosa oração “Ave Maria”, na parte em que se diz “… rogai por nós pecadores…”. 

E a virgindade perpétua de Maria, com a exclusão da possibilidade de ter tido outros filhos/as, é parte importante da doutrina católica relacionada com ela.

Já para os protestantes e evangélicos, Maria foi uma pessoa muito especial – a Bíblia a chama de “abençoada entre as mulheres“. E, não foi escolhida para ser mãe de Jesus por acaso. Portanto, ela é digna de toda consideração.

Mas, seu papel não vai além disso. Para esses grupos de cristãos, Maria é mãe de Jesus, ou seja da manifestação humana (encarnação) do Filho de Deus. Portanto, ela não é mãe de Deus, simplesmente porque Deus é eterno e não pode ter mãe.

A diferença é bem expressiva: sendo Maria apenas a mãe de Jesus, ela não tem qualquer papel de intermediação para entre os seres humanos e Deus. 

E não há porque deixar de considerar que Maria teve uma vida normal com José, após o nascimento de Jesus, tendo tido inclusive vários /as filhos/as, o que significa que Jesus teve sim irmãos e irmãs

Análise da controvérsia
Quem afirma que Maria não teve mais filhos/filhas precisa explicar as inúmeras referências aos irmãos e irmãs de Jesus existentes na Bíblia, como aquela citada no início deste post.

Há duas explicações que tradicionalmente têm sido dadas pelos católicos para enfrentar esse desafio. Uma delas praticamente já caiu em desuso, pois tem pouca base – trata-se de considerar as referencias bíblicas como tendo sido feitas a primos/primas e não irmãos/irmãs de Jesus.

Há pouca base para essa alegação porque a palavra usada em todas essas referências bíblicas significa, sem qualquer dúvida, irmãos/irmãs e interpretá-la como primos/as é simplesmente “forçar a barra”.

A outra possível explicação é mais realista e ainda largamente adotada pelos católicos. Essa alternativa parte do princípio que José era viúvo, quando se casou com Maria, e já tinha filhos/filhas doe casamento anterior. E  Bíblia se refere a esses/as meio-irmãos/ãs. E Jesus foi de fato o único filho de Maria.

Há um argumento importante para justificar essa interpretação que se apoia na passagem onde Jesus entregou Maria aos cuidados do apóstolo João, pouco antes de morrer (João capítulo 19, versículos 26 e 27). Segundo os que defendem essa tese, caso Maria tivesse outros filhos de sangue, não haveria necessidade de Jesus ter feito isso, pois os outros filhos haveriam de cuidar dela. 

Agora, também há argumentos fortes contra essa tese do casamento anterior de José. Primeiro, na descrição feita na Bíblia sobre a família de Jesus, antes do seu nascimento, somente são citados José e Maria, não havendo qualquer referencia a outros filhos/filhas de José.

Além disso, quando os pais de Jesus fugiram para o Egito (por causa da perseguição que o rei Herodes fazia aos recém nascidos judeus) e lá ficaram exilados por pelo menos dois anos, os/as filhos/filhas de José teriam sido deixados à própria sorte, em Nazaré, e isso parece bem improvável. 

E o fato de Jesus ter entregue Maria para o apóstolo João tomar conta, mesmo tendo ela outros filhos de sangue, pode ser perfeitamente explicado pelo fato que esses filhos, até então, não aceitavam Jesus como o Messias e tinham até se voltado contra Ele (Marcos capítulo 3, versículo 21) – os outros filhos de Maria somente vieram a se converter mais adiante.

Assim, Jesus teria entregue sua mãe para João cuidar porque ela queria ficar no meio do povo cristão e ali ela não contava com o apoio dos seus outros filhos.

Finalmente, quando a Bíblia se refere a Maria e aos irmãos de Jesus, ela os trata como uma unidade, um conjunto familiar. Se os outros filhos de José não fossem também filhos de Maria, isso não aconteceria – a Bíblia tem vários relatos de famílias com filhos de múltiplas mulheres e cada núcleo familiar é tratado de forma independente, como no caso dos filhos de Jacó.

Conclusão 
Esse é apenas um resumo dos argumentos pró e contra relacionados com essa controvérsia e servem para dar uma ideia de como o assunto pode ser tratado, de forma respeitosa, mas com clareza e de forma conclusiva. 

Minha avaliação pessoal é que há muito mais suporte bíblico para a tese que atribui outros/as filhos/filhas a Maria – inclusive os/as historiadores/as independentes (não cristãos/ãs), de forma quase unânime, concordam com essa abordagem. 

Penso também que mesmo Jesus não tendo tido outros/as irmãos/irmãs de sangue, nem assim há suporte bíblico para a tese que Maria permaneceu virgem e não teve uma vida normal com José, conforme defendem os católicos. Muito menos para sua vida sem qualquer pecado e sua subida aos céus.

Finalmente, a Bíblia é muito clara que apenas Jesus é o intermediário entre Deus e os seres humanos, portanto não há como atribuir esse papel também a Maria.

Agora, nada disso desmerece a figura e a atuação dessa mulher extraordinária, que se viu grávida ainda na adolescência (com quatorze ou quinze anos), enfrentou grandes dificuldades e ficou ao lado de Jesus até sua morte. E esse grande mérito ninguém pode tirar dela.

Com carinho

3 Comentários


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    Lindomar Lima

    Na cultura judaica e patriarcal da época era quase impossível uma mulher casada não ter filho e se não tivesse era descriminada e quanto a José ter outros filhos só sae ele fosse viúvo antes de conhecer Maria nã tem relato histórico comprovando isso … Há conjecturas no assunto e muita pollêmica também.


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    Andrea Lacerda

    Olá Vinícius,
    Não sou uma estudiosa da Bíblia, mas percebo que as famílias e clãs são retratados sempre com muitos detalhes. Exemplo, todos os filhos dos patriarcas são minuciosamente citados, seus filhos, os filhos deles (Jacó, Esaú, etc). Isso no Antigo Testamento.
    Acredito que se José tivesse filhos, eles teriam sido exaustivamente citados, assim como as histórias e casos envolvendo-os.
    De qualquer forma, me parece que os apóstolos de Jesus foram um pouco mais vagos em relação às citações (ou seriam as traduções e ocultações do texto?), diferenciando no estilo da escrita do antigo testamento, quando citavam a família de Jesus. Eles são citados nas histórias, mas não há frases taxativas sobre a como a família de Maria e José se formou, como costumava-se fazer no antigo testamento para meio que “catalogar” os descendentes dos patriarcas, o que vc acha?

    Abraço,


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      Vinicius Moura

      Cara Andrea

      O que você falou a respeito da história dos clãs ser bem detalhada é verdade sim. Mas apenas para o Velho Testamento. Sabemos muito pouco sobre as famílias do Novo Testamento, exceto no que tange a Jesus. Por exemplo, de Pedro sabemos apenas que era casado e que a sogra vivia com ele. Não sabemos quantos filhos teve, o nome da esposa, como ele a conheceu, etc. De Paulo, então, só sabemos que o pai era cidadão romano.

      E essa diferença tem uma explicação simples: O Velho Testamento é também a história de um povo. Daí ser natural que as origens desse povo – os Patriarcas – sejam bem detalhadas, o que explica o interesse de relatar todas esses fatos. Já o Novo Testamento fala de algo bem diferente e nele não há lugar para a história das famílias dos envolvidos. E mesmo da família de Jesus, sabemos muito pouco, levando em conta que sua vida é contada em quatro Evangelhos.

      Sendo assim, não é possível tirar conclusões que os irmãos e irmãs de Jesus não teriam existido pelo fato de serem pouco referenciados no Velho Testamento. Isso seria mesmo de se esperar. Agora, as referencias que existem, penso eu, são suficientes para garantir que eles(as) existiram.

      Abs

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