COMO MENTIR COM ESTATÍSTICAS

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Cerca de três anos atrás, a mídia brasileira noticiou com grande destaque o erro cometido pelo IPEA numa pesquisa sobre a condição da mulher brasileira. O texto original da pesquisa indicou que cerca de 65% da população acreditaria que o estupro pode ser justificado quando a mulher se veste de forma provocante. Depois veio a correção: a percentagem de pessoas que acredita isso é alta – cerca de 25% – embora muito menor do que inicialmente afirmado. O IPEA se desculpou, dizendo que cometeu um erro honesto.

Nesse caso parece que foi realmente um erro honesto, embora, naturalmente, a credibilidade da pesquisa ficou prejudicada. Agora, boa parte das estatísticas publicadas pela mídia cometem erros que não são tão inocentes assim – seu objetivo é influenciar a opinião pública num sentido ou no outro. São manipulações pura e simples.

E esse tipo de manipulação contra o cristianismo é mais comum do que você talvez imagine – são comuns as pesquisas que procuram apresentar cristãos(ãs) como pessoas retrógradas, intolerantes, hipócritas, etc. 

Vou dar um exemplo que demonstra bem como isso funciona. São comuns pesquisas comparando o comportamento dos(as) cristãos(ãs) com não cristãos(ãs) para estabelecer qual o peso verdadeiro da crença cristã no comportamento das pessoas. 

O problema é que a maioria dessas pesquisas é feita de forma errada, algumas propositadamente outras não. Normalmente, os(as) pesquisadores(as) identificam quem é ou não cristão(ã) simplesmente perguntando sobre isso às pessoas entrevistadas. 

Ora, sabemos que muitas pessoas se dizem cristãs mas não o são de fato, pois não vivem de acordo com os ensinamentos do cristianismo – são crentes puramente nominais, ou “não praticantes”. Essas pessoas quase nunca têm contato com alguma igreja exceto em batizados, casamentos, enterros e outras ocasiões especiais.

E quando o(a) pesquisador(a) considera ao comportamento desse tipo de pessoa como representativo do mundo cristão, comete um erro metodológico sério. Se alguém quer saber mesmo como os(as) cristãos pensam precisaria conversar com quem vive de fato essa fé. 

Esse costuma ser o caso, por exemplo, das pesquisas que comparam a taxa de divórcios entre casais “cristãos” e “não cristãos” – e não por acaso esse tipo de pesquisa costuma apontar que a situação não é muito diferente entre os dois grupos de pessoas, parecendo indicar que a fé cristã não faz muita diferença no que tange à estabilidade dos casamentos, o que acredito não ser verdade.

Outro tipo de erro frequente, que também pode ser casual ou ter uma motivação mais profunda, aparece na escolha da amostra usada na pesquisa. Quando o(a) pesquisador faz isso, ele(a) parte da ideia que essa amostra, contendo um número de pessoas que consegue entrevistar, é representativa da população com um todo – é exatamente isso que as pesquisas eleitorais fazem com algum sucesso. 

É claro que, ao modelar uma população de 200 milhões de pessoas numa amostra de, digamos, dois mil entrevistados(as), a pesquisa introduz uma margem de erro, que costuma ser divulgada junto com a pesquisa. Até aí tudo bem.

Mas, se a amostra não for bem escolhida, isto é, se ela não for representativa do todo, a pesquisa não vai servir para nada. Seu resultado será errado.

No Brasil, os(as) pesquisadores lutam com muita dificuldade para conseguir montar suas amostras de pesquisas. Normalmente, é preciso que as pessoas preencham questionários grandes e os(as) brasileiros(as) não costumam ter paciência para fazer isso, especialmente quando não ganham nada por fazer isso (pagar os(as) entrevistados(as) tornaria a pesquisa muito cara).

Na prática, os(as) pesquisadores(as) brasileiros(as) se viram como podem –  entrevistam amigos(as), familiares e colegas de trabalho, enfim pessoas que aceitam ter o trabalho de serem entrevistadas. E mesmo fazendo isso, costumam conseguir entrevistar menos pessoas do que precisariam. Como as amostras são construídas com que se dispõe a participar (e não com que deveria participar) e seu tamanho muitas vezes não é adequado,  o erro dessas pesquisas é muito grande. Na prática, elas não provam muita coisa. Mas ainda assim são usadas…

Recentemente, foi publicada uma pesquisa na revista “Isto É” com o título “O novo retrato da fé no Brasil”. Lá pelo meio do artigo, uma pesquisadora apresentou a conclusão que 16,5% dos protestantes históricos vieram de igrejas pentecostais – seriam pessoas que mudaram de linha teológica no meio da sua vida religiosa.

A mesma reportagem ainda informou que essa conclusão foi tirada entrevistando apenas 193 pessoas, amostra que dificilmente é representativa da população brasileira de protestantes históricos. Em outras palavras, essa estatística não tem muita validade e as conclusões tiradas dela – como fez o texto da tal reportagem – não esclarecem muito.

Quando você ler uma pesquisa sobre o cristianismo, tenha cuidado com as conclusões nela apresentadas. Tente entender como a pesquisa foi feita e se há base para as afirmações que são feitas nela. 

A seguir algumas dicas que podem ajudar você a separar o “joio” do “trigo”:

  • Nunca aceite resultados de pesquisas que não possam ser verificados. Certa vez li uma pesquisa que analisava pessoas evangélicas que abandonaram sua fé na juventude. Era indicada a percentagem dessas pessoas que voltaram à fé inicial antes do fim da vida. Mas de onde veio esse dado saiu? Afinal, naturalmente as pessoas ainda estavam vivas quando foram entrevistadas (no máximo, a pesquisa poderia indicar a proporção dessas pessoas que pretendia voltar ao Evangelho).
  • Analise sempre se as amostras pesquisadas são representativas do universo estudado. Além dos casos que já citei, aí vai um outro exemplo interessante: Se o estudo falar da população brasileira como um todo, a percentagem de homens e mulheres deve ser mais ou menos a mesma na amostra, pois essa é a realidade da nossa população. Mas, se o estudo falar dos(as) cristãos(ãs), a percentagem de mulheres deve ser muito mais alta (cerca de dois terços), pois essa é a realidade nas nossas igrejas cristãs.
  • Analise se as perguntas feitas às pessoas entrevistadas não geram confusão – no caso da pesquisa do IPEA, que citei no início desta postagem, aí nasceu o erro do estudo.
  • Não acredite muito em pesquisas que têm interesses comerciais por trás – a distorção nesses casos costuma ser ainda maior.

Concluindo, não acredite em tudo que você lê por aí, mesmo quando a pesquisa tiver sido publicada em veículos da mídia que tenham prestígio. Infelizmente, essa é a realidade que vivemos.

Com carinho

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