POR QUE AS PESSOAS GOSTAM TANTO DE FOFOCA?

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O interesse pela vida do próximo, especialmente quando envolve coisas “picantes”, é quase universal. E isso fica muito evidente na mídia: há sites, revistas e até programas de tv especializados em fofocar sobre a vida de pessoas famosas. E qualquer fofoca “interessante” costuma gerar uma enorme audiência – basta ver o interesse que os detalhes da separação de Fátima Bernardes e William Bonner gerou recentemente nas redes sociais.

Mas não são somente pessoas famosas que atraem fofocas. Nas igrejas, por exemplo, qualquer desvio de conduta costuma ser objeto de inúmeras fofocas. E se o assunto envolver alguma questão de natureza sexual, o interesse pela fofoca cresce exponencialmente. O mesmo costuma acontecer nas famílias e em grupos de amigos(as). 

“Fofoca” costuma ser definida como “falar de forma maliciosa, ou até cruel, de aspectos morais da vida de alguém, quando essa mesma pessoa não está presente na conversa“. Refletindo sobre essa definição, acho ser evidente que todo mundo já participou ou costuma participar de fofoca.

Sendo assim, é preciso discutir esse assunto partindo do princípio que Jesus estabeleceu: “aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra…” (João capítulo 8, versículos 3 a 11). É com humildade e olhando para mim mesmo, em primeiro lugar, que falo dessa questão aqui.

E começo comentando que exatamente por ser um tipo de pecado quase universal e tão comum que a fofoca é extremamente perigosa. Trata-se de um tipo de pecado com o qual nos acostumamos e nos sentimos confortáveis e, portanto, não combatemos. Vivemos confortavelmente com ele.

Por que a fofoca é tão irresistível? Acho que uma boa resposta é aquela dada por dois pesquisadores sobre o tema, Sarah Wert e Peter Solovey: trata-se de um ótimo instrumento para comparação social. Interessar-se pela vida alheia gera informações que podem ser úteis e permitem que comparemos nosso comportamento com o de outras pessoas e aprendamos sobre o prejuízo que podemos trazer sobre nossas próprias reputações, dependendo do que viermos a fazer.

Outra razão para a presença quase universal da fofoca é a promoção dos próprios interesses egoístas. Usando a fofoca é possível prejudicar alguém com quem competimos sem sujar as próprias mãos – basta espalhar de forma habilidosa, aqui e ali, informações que prejudiquem a imagem do(a) competidor(a).

Talvez o campo de atividade em que isso se torna mais eficiente é a política. Há incontáveis exemplos de políticos(as) famosos(as), tanto no Brasil como no exterior, que são (ou foram) artistas na arte de usar a fofoca. Por exemplo, a história conta que o Imperador Romano Júlio César usava esse expediente muito bem,  pagando pessoas a peso de ouro para espalhar inverdades a repeito dos seus inimigos políticos.

Hoje em dia esse mesmo tipo de atividade é desenvolvido nas redes sociais. Os(as) políticos(as) importantes costumam dar apoio financeiro a sites, blogs, operadores de contas de twitter, etc que se encarregam de espalhar notícias favoráveis a eles(as) mesmos(as) e ruins a sobre os(as) oponentes.

Quando o Governo Temer assumiu o poder, cortou a verba de dezenas de canais de difusão de informações desse tipo, que ajudavam a gestão da Dilma Rousseff. E tornou isso público. O que não foi revelado abertamente é que o novo Governo passou a dirigir verbas para outros canais de difusão de notícias, esses a seu favor.

Estudos recentes sobre o fenômeno da fofoca, conduzidos pelo professor Frank McAndrew, do Knox College, ensinaram algumas coisas interessantes:

  • O interesse na fofoca é maior quando se refere a pessoas com quem nos identificamos (mesmo sexo, idade parecida, etc) e com quem convivemos.
  • O interesse por fofocas sobre celebridades acontece porque tais pessoas são consideradas como “próximas” – parece ser que as conhecemos e são nossas amigas. 
  • O interesse feminino sobre o que acontece com outras mulheres é mais aguçado do que o interesse masculino sobre outras pessoas do mesmo sexo – já sabíamos disso de forma intuitiva, mas esse conhecimento foi comprovado cientificamente.
  • Notícias positivas interessam somente quando se referem a amigos, parentes ou outras de pessoas de quem gostamos. No caso de pessoas de quem não gostamos ou com quem não nos identificamos, só interessam notícias negativas.

O que a Bíblia diz sobre a fofoca? Muito. É claro que o texto bíblico usa outras expressões – por exemplo, fala sobre o mal ou pecado da língua. Por exemplo:

Semelhantemente, a língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha. Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniquidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno… a língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero. Tiago capítulo 3, versículos 5 a 9

O texto acima ensina com clareza que precisamos aprender a “domar a língua”, ou seja controlar aquilo que falamos contra as outras pessoas.

E o primeiro passo para conseguir fazer isso é reconhecer que o problema existe – reconhecer que fofoca, de uma forma ou outra, é um pecado presente das nossas vidas. Enquanto pensarmos que está tudo bem, que não cometemos tal tipo de erro, não vamos trabalhar para resolvê-lo.

Com carinho