UM GRANDE ENSINAMENTO PARA ESTE NATAL

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A época do Natal tornou-se uma das mais afetadas pelo desejo de consumir. A figura de Papai Noel, carregado de presentes, passou a competir com a de Jesus, ainda recém-nascido, deitado numa manjedoura. E infelizmente, essa é uma batalha que Papai Noel vem ganhando.

E isso é fruto do fato que vivemos numa sociedade voltada para o consumo. Tudo hoje em dia chama a pessoa para consumir e essa tendência pode ser facilmente notada.

Um bom exemplo é a propaganda de novos produtos que vem de todos os lados. Um estudo recente do jornal New York Times avaliou que um(a) americano(a) médio(a) é exposto(a) a uma quantidade assustadora de anúncios todos os dias: cerca de 3500. Não tenho dados similares para o Brasil, mas não ficamos muito abaixo disso.

Outro bom exemplo da predominância da sociedade de consumo é a “obsolescência programada” dos produtos. Eu me explico: os produtos consumidos são cada vez mais concebidos para ficarem obsoletos e serem trocados periodicamente.

E em dois setores isso fica muito evidente. Primeiro, nos celulares: a cada ano uma nova leva de aparelhos aparece no mercado, com mais funcionalidades. E os novos softwares (aplicativos) são feitos para tirar proveito dessas novas funcionalidades e assim os celulares antigos vão ficando rapidamente obsoletos. Então, a cada dois ou três anos é preciso trocar de celular.

O outro setor onde a “obsolescência programada” domina as relações de consumo é a moda, especialmente a feminina. Num ano, os sapatos da moda são de bico fino; já no ano seguinte, o bico passa a ser arredondado. Num ano, os estampados estão na moda; enquanto no ano seguinte, predominam as listras. E o que está fora da moda não pode mais ser usado, sob pena da pessoa ficar se sentindo mal. 

As coisas já nascem para saírem de moda ou ficarem tecnologicamente atrasadas, dando assim origem a novas compras. A obsolescência programada está presente em quase todos os mercados, não apenas nos celulares e na moda. A mesma coisa acontece com os automóveis, os eletrônicos em geral, os artigos para maquiagem e assim por diante.

A força da sociedade de consumo é tão grande que inúmeras datas comemorativas foram criadas para incentivar as pessoas a comprar, como o dia dos namorados, o dia das mães, o dia dos pais e o dia das crianças. E o Natal, antes uma data essencialmente religiosa, também passou a ser dominado pelo consumo.

O que está por trás disso é simples: a necessidade do capitalismo moderno. É necessário produzir cada vez mais, para gerar mais lucro, e a produção existente precisa ser escoada, o que somente pode ser conseguido se as pessoas consumirem mais e mais.

Um famoso analista do mercado de vendas em massa, Victor Lebow, declarou lá atrás, em 1955, o seguinte (referindo-se à economia dos Estados Unidos): “Nossa economia tão produtiva… requer que venhamos a tornar o consumo nosso meio de vida, que venhamos a transformar a compra de coisas em rituais, de onde iremos tirar satisfação tanto espiritual, como para nossos egos…”.

Ela preconizou que o consumo deveria virar uma verdadeira “religião” e isso de fato aconteceu. E essa “religião” começou dominando os Estados Unidos e, a partir de lá, contaminou o mundo todo. E a “religião do consumo” também dá as cartas no Brasil hoje em dia.

O(a) consumidor(a) é ensinado(a), com base na propaganda, a nunca ter seus desejos saciados. Sempre deve haver algo diferente, mais moderno e mais bonito apelando para ser consumido. É uma roda viva que não tem fim.

E para que isso aconteça, as pessoas são doutrinadas a pensar antes de tudo em si mesmas. Primeiro vêm seus desejos e necessidades. A palavra de ordem é “eu mereço”. Não é por acaso, portanto, que na sociedade atual a solidariedade humana esteja em baixa e o egoísmo em alta.

O cristianismo sempre lutou contra essa tendência: Jesus falou bastante contra o egoísmo e a falta de solidariedade. E sempre enfatizou que o importante não são as coisas materiais e sim os valores espirituais.

O fato é que os valores cristãos estão em choque com os valores da sociedade de consumo. O cristianismo, de certa forma, prega contra o consumo e por isso tornou-se um inimigo – é preciso minimizar sua importância. A substituição de Jesus pelo Papai Noel, nas comemorações de Natal, exemplifica bem o que acabei de dizer.

O que fazer? Como enfrentar esse estado de coisas? Pode ter certeza que há sim muita coisa que pode ser feita. E a base da resistência é o que se chama “mordomia cristã”: o incentivo às pessoas para investir seu tempo e outros recursos, inclusive dinheiro, no desenvolvimento da obra de Deus. 

Mas para que a “mordomia cristâ” floresça, é preciso cultivar alguns princípios de vida contrários às tendências atuais. E começo falando da generosidade. A mentalidade consumista foca no egoísmo, no atendimento antes de tudo das próprias necessidades e desejos.  Mas quando se tem a generosidade como prática de vida, o foco passa a ser “dar” em lugar de “receber” ou “adquirir”. O foco passa da própria pessoa para o próximo.

Outro princípio de vida que precisa ser cultivado é a gratidão a Deus. Ser grato a Ele por tudo aquilo que se tem e usufrui diariamente – o teto sobre a cabeça, a comida disponível, as roupas que se veste, a família que dá carinho e conforto, etc.  

E essa é a visão embutida na oração que Jesus ensinou, o Pai Nosso: a orientada dada foi pedir apenas pelo “pão de cada dia”, ou seja pedir pelo atendimento das necessidades diárias. E quando atendidas, isso deve ser sempre motivo de agradecimento a Deus.

Finalmente, é preciso afastar-se periodicamente do ambiente contaminado da sociedade de consumo para manter uma perspectiva diferente. É preciso sair da “roda viva” que escraviza a tudo e todos.

E a forma de fazer isso é particpar de atividades que incentivem o florescimento espiritual e minimizem a importância das coisas materiais. Por exemplo, frequentar cultos semanais numa igreja. Participar pelo menos quinzenalmente de estudos bíblicos e/ou grupos de louvor. Estar presente, sempre que possível, em retiros espirituais, em companhia de uma comunidade de fé, com o objetivo de “descontaminar” e “recarregar as próprias baterias”.

Concluindo, não é possível escapar da sociedade de consumo – de uma forma ou outra todos(as) vivem dentro dela. Mas é possível sim aprender a resistir. A não se deixar dominar por ela. A mater os olhos abertos para o que realmente importa. E é isso que Deus espera de cada um(a) de nós.

Feliz Natal!

Com carinho