QUEM TEM PODER PARA PERDOAR PECADOS?

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Dias atrás, o Papa Francisco surpreendeu o mundo ao mudar as regras que a Igreja Católica adotava até então para lidar com a questão do pecado relacionado com o aborto. De acordo com a regra anterior, esse tipo de pecado, pela sua gravidade, só poderia ser perdoado por um bispo. A partir de agora, os padres passaram a ter tal direito. 

Essa decisão foi muito elogiada, pois caminha no sentido da descentralização do poder dentro da Igreja Católica. E eu não questiono que isso é positivo.

Também reconheço o papel firme que a Igreja Católica tem na questão da condenação do aborto, que infelizmente para muita gente se transformou num em mais um processo para evitar a concepção indesejada, o que é um absurdo. A Igreja Católica não tem se envergonhado em afirmar, alto e bom som, que aborto é pecado e deve ser reconhecida por isso, pois as pressões que sofre para flexibilizar sua posição são muito grandes.

Mas a questão que quero tratar aqui é bem outra e tem a ver com o princípio que está implícito nessa notícia: padres ou bispos, podem perdoar pecados. Será que esse princípio adotado pela Igreja Católica é sancionado pela Bíblia? Acredito que não.

E vou explicar minhas razões, começando por citar um texto do Evangelho de Marcos:

Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os seus pecados estão perdoados”. Estavam sentados ali alguns mestres da lei, raciocinando em seu íntimo: “Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?” Marcos capítulo 2, versículos 5 a 7

Jesus foi questionado pelos mestres da Lei porque perdoou os pecados de um paralítico. E esse questionamento lhe foi feito porque, segundo o Velho Testamento (por ex. Isaías capítulo 43, versículo 25), somente Deus tem poder para perdoar pecados. Portanto, ao perdoar os pecados de um homem, Jesus se auto-declarou Deus, o que, aos olhos dos doutores da Lei, constituiu uma blasfêmia. 

Ora, se apenas Deus pode perdoar pecados, onde a Igreja Católica busca respaldo para o princípio que adota? A resposta está na seguinte passagem:

Novamente Jesus disse: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio”. E com isso, soprou sobre eles e disse: “Recebam o Espírito Santo. Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados”. João capítulo 20, versículos 21 a 23

Jesus deu aos seus apóstolos o direito de perdoar pecados e a Igreja Católica entende ser herdeira desse mesmo direito. E essa “herança” estaria estabelecida por outra passagem:

“E vocês? “, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou? ” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus. O que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. Mateus capítulo 16, versículos 15 a 19

A interpretação da Igreja Católica é que a chefia da Igreja Cristã foi dada por Jesus a Pedro e como o Papa é o sucessor desse apóstolo, ele tem os mesmos direitos, dentre os quais o de perdoar pecados. E pode transmitir para seus bispos e padres, através da imposição de mãos, os mesmos direitos.

Ora, na construção desse raciocínio há uma série de pressupostos importantes que ficam implícitos, ou seja não estão muito claros. O primeiro é que o direito de perdoar pecados, dado por Jesus aos apóstolos, poderia ser passado por esses a outras pessoas. E a Bíblia não afirma isso em lugar nenhum.

A passagem em que Jesus dá esse direito aos seus apóstolos está inserida no contexto em que Ele os enviou pelo mundo para pregar o Evangelho E é nesse contexto supre especial que esse ato de Jesus deve ser entendido, não havendo nenhuma razão para crer que se estendeu para outras pessoas.

A segunda premissa implícita é que Jesus fez de Pedro o chefe da Igreja cristã. E isso não está expressamente dito no texto bíblico e muito menos encontra sustentação na história. O líder de fato da primeira comunidade cristã, em Jerusalém, foi Tiago, irmão de Jesus, conforme o relato de Atos dos Apóstolos deixa claro – basta notar que Tiago é o último a falar, quando dos debates do primeiro concílio da Igreja (capítulo 15, versículos 12 a 20).  Além disso, o apóstolo Paulo foi muito mais importante para o desenvolvimento do cristianismo do que Pedro e sua autoridade espiritual ia ao ponto dele dar broncas em Pedro, como está dito no relato da carta aos Gálatas (capítulo 2, versículos 11 a 21).

Outra premissa implícita absolutamente questionável é o fato do Papa ser o sucessor do apóstolo Pedro. Esse dogma vem do próprio ensinamento da Igreja Católica, não tendo qualquer suporte bíblico.

Concluindo, não há porque afirmar que qualquer ser humano, por melhor e mais desenvolvido espiritualmente que seja, tenha poder para perdoar pecados. Isso não tem respaldo na Bíblia.

Somente Deus tem esse poder e o direito que os apóstolos receberam de Jesus para fazer isso foi algo específico para eles, para o momento em que viviam.

Com carinho 

3 Comentários


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    Márcio Chaves

    Graça e paz meu querido irmão.

    Navegando, cheguei ao seu blog e fiquei maravilhado com algumas postagens, meus parabéns! Entretanto, ei de discordar em amor nesta em específico meu irmão. Também sou evangélico, a bem menos tempo que o irmão, logo, perdoe se, compreendi de forma errada, tão pouco sou à favor do Aborto! estou aqui para aprender também.

    Em João 14.12, Jesus diz: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”.
    Jesus veio para nos ensinar os princípios corretos e assim tratarmos todos em amor. Quanto à questão de perdoar pecados, este é um dos maiores dons e uns dos primeiros dados a nós que morremos para o mundo, o dom de perdoar aqueles que nos maldizem ou nos causam algum tipo de mal. Só quem possui o espirito santo de Deus consegue perdoar, pois se esvaziou de si mesmo e se encheu do pai.

    Contudo, compreendo que este perdão no qual se refere vai além de um perdão de um para com outro, e sim pela colocação de poder “imposta” e assim um perdão perante todos e perante Deus a um pessoa que cometeu pecado de morte. Entendo que para haver perdão, o pecador deve ter se arrependido primeiro, um arrependimento genuíno! e assim como cita em João 8 onde os escribas e fariseus trouxeram até Jesus uma mulher apanhada em adultério e quiseram apedrejá-la e Jesus com mansidão e amor, disse-lhes: Aquele que de entre vós não tem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E nenhum dos acusadores ousou lançar uma pedra si quer, e a deixaram, e o mestre disse: Vá e não peques mais. Acredito que Jesus sondou o coração daquela mulher e viu medo, angustia, tristeza e com certeza arrependimento.

    Conclusão
    Se Jesus, que sofreu por nós para nos ensinar o seu amor e abençoa-nos e perdoa-nos todos os dias, quem somos nós para não perdoar quem desfalece de amor, pois uma pessoa estruída no Senhor, não aborta, ela ama, mais se por ventura abortar, precisa do nosso amor e não do nosso julgamento, a diferença entre nós, são apenas os pecados que são diferentes. Eu e você Vinícius somos perdoados todos os dias, e não por direito, mais para aprendemos do próprio Deus, que o perdão vem do Senhor e é uma das maiores provas de amor que existe.

    Minha oração hoje será:
    – Senhor, te peço, levanta mais perdoadores genuínos, que em amor, perdoam em teu nome pai…

    • Deus te abençoe e continue trazendo a paz de Cristo para nós meu irmão. Fica na Paz

    • Caro Márcio

      Antes de tudo, obrigado pelas suas palavras.

      Nos seus comentários há mistura de dois conceitos: o perdão de Deus e o perdão dos homens. E acho que não é de estranhar que isso ocorra pois usamos a mesma palavra – perdão – para as duas coisas, embora sejam questões muito diferentes.

      O tema do meu post era o perdão de Deus (e não o perdão humano). E o perdão de Deus tem consequências mais sérias, pois influencia a questão da salvação – somente quem é perdoado dos seus pecados por Deus pode ser salvo.

      O que discuti é que nenhum homem pode falar em nome de Deus no que tange ao perdão dos pecados. Somente Deus pode falar por si mesmo. É isso que procurei discutir no meu texto.

      Agora, isso nada tem a ver com o mandamento de Jesus para que perdoemos uns aos outros.

      Abs

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