OS ÓCULOS QUE VOCÊ USA E NEM PERCEBE…

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Você usa um óculos com lentes coloridas e que colore tudo que você vê. E nem sabia disso. 

Refiro-me ao “óculos” da cultura onde você foi criado e/ou vive – tudo que você avalia se está certo ou errado, comenta, escolhe, etc sofre influência dessa cultura (as “lentes coloridas dos seus óculos”).

E essa influência está tão entranhada e se dá de forma tão automática que você nem se dá conta. Daí eu ter dito que há um “´óculos de lentes coloridas” que você nem percebe que está lá.

Trinta anos atrás, quando fui fazer meu mestrado na Universidade de Londres, cheguei na Inglaterra para morar e passei por um “choque cultural” significativo, embora a Inglaterra seja um país ocidental, cujos hábitos e costumes não são tão diferntes assim dos brasileiros. Se eu tivesse me mudado para a Índia ou a China, o choque teria sido bem maior.

Achei que muita coisa era diferente na Inglaterra. Por exemplo, as pessoas dirigiam na mão errada (para nós). A comida era bem diferente – as pessoas adoravam um feijão em calda doce (“baked beans”), que achei insuportável. E assim muitas outras coisas.

A vida era bem diferente lá quando comparado ao Brasil. Certas coisas eram bem melhores (por exemplo, tudo era mais organizado) e outras piores (foi difícil fazer amigos). 

Os tais “óculos coloridos” pela cultura, que usamos e nem percebemos, também impactam o estudo da Bíblia. Não há como deixar de reconhecer que nossa interpretação do Evangelho sofre influência da cultura onde estamos imersos.

Feche seus olhos e tente mentalizar as figuras de Deus Pai e Jesus. Você muito provavelmente imaginou Deus Pai como um senhor bonito, poderoso, de barbas e cabelos brancos. E Jesus, como um jovem branco, bonito, com cabelos compridos e cara de sofrimento.

Ora, Deus Pai não é assim como você imaginou. Você tem na sua mente, sem perceber, a imagem que diversos pintores ocidentais, como Michelangelo, fizeram consturiam nas suas obras e a visão deles acabou se tornando a sua – veja abaixo a figura que Michelangelo pintou de Deus na Capela Sistina:

A imagem que você provavelmente tem de Jesus é aquela que viu em filmes de Hollywood, onde os diretores mostraram nosso Mestre como um jovem branco, bonito e de cabelos brancos. Agora, compare sua imagem mental com aquela que estudiosos construíram, poucos anos atrás, com base em estudos arqueológicos, de um homem de trinta e cinco anos no tempo de Jesus:

Confesso, que quando eu vi essa concepção artística, tomei um choque.

Construir imagens físicas de Deus Pai ou Jesus erradas não tem tanta importância assim – é mais uma curiosidade. Mas o problema é que fazemos o mesmo com os conceitos teológicos.

Tempos atrás, uma leva de estudantes da Coreia do Sul, país asiático, mas de maioria cristã (lá estão as maiores igrejas protestantes do mundo, algumas com mais de 200.000 membros), foram estudar em seminários dos Estados Unidos.

E nas discussões em grupo, os(as) coreanos(as) perceberam valorizar muito mais a autoridade e a liderança pastoral do que os(as) americanos(as). A cultura coreana, de matriz oriental, é muito mais reverente com as posições de autoridade do que a cultura americana. 

Os(as) coreanos sempre olhavam para passagens bíblicas que enfatizam a importância dos(as) líderes espirituais, enquanto os(as) americanos(as) traziam para a discussão os versículos que falam dos limites que a ação desses(as) líderes devem estar sujeitos – e acreditem em mim, há na Bíblia versículos que falam as duas coisas.

As pessoas com predisposição cultural para aceitar lideranças mais fortes, buscavam versículos que reforçavam sua orientação e o mesmo ocorria com aquelas que tinham posturas mais democráticas. 

Outro ponto onde as diferenças culturais costumam gerar posturas distintas é na questão das riquezas. A Bíblia tanto diz que Deus abençoou Abraão e ele enriqueceu, como mostra Jesus falando que é mais fácil uma corda grossa passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.

Assim, numa igreja povoada por pessoas de classes economicamente mais favorecidas, o normal é enfantizar a prosperidade de gente como Abraão e dar pouca importância à advertência de Jesus às pessoas ricas. Já numa igreja onde as pessoas lutam para sobreviver e elas se sentem exploradas economicamente por chefes insensíveis, a advertência de Jesus tende a fazer eco muito mais forte.

E foi o mesmo fenômeno do “óculos” cultural que fez com que muitos(as) cristãos(ãs) defendessem fortemente a escravidão, inclusive encontrando passagens bíblicas para justificar sua posição. E o mesmo corre ainda hoje com o machismo.

Concluindo, não há como tirar os “óculos” da cultura quando se vai interpretar a Bíblia – esses “óculos” são parte integrante da forma como cada um é. Simples assim. 

Mas podemos estar conscientes que os tais “óculos” existem e que, portanto, não somos donos(as) da verdade. As conclusões que tiramos da Bíblia, muitas vezes, não são absolutas, pois foram coloridas pela cultura onde estamos imersos.

Precisamos deixar nossas mentes abertas a outras abordagens, vindas de pessoas pertencentes a outros extratos socioeconômicos, ou faixas etárias, ou mesmo vindas de outros países. Todas essas diferenças tendem a gerar olhares distintos sobre as coisas – um bom exemplo é o choque cultural que o comportamento dos jovens, com seus piercings, tatuagens e música barulhenta, causa nos mais velhos.

Pessoas com matrizes culturais distintas vão olhar para os ensinamentos bíblicos de forma diferente e precisamos ser tolerantes a isso. Não digo que devemos comprometer, por conta dessa tolerancia, os ensinamentos básicos do cristianismo, mas aceitar que as diferenças existem e são saudáveis. parte da vida.

Em outras palavras, não há uma maneira única e exclusiva de viver corretamente os ensinamentos do Evangelho de Jesus Cristo.

Com carinho

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