O QUE O EVANGELHO DE MARCOS TEM DE DIFERENTE

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Os quatro Evangelhos da Bíblia – Mateus, Marcos, Lucas e João – são quatro pontos de vistas diferentes sobre os mesmos eventos: a vida, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus. Sendo assim, cada Evangelho tem algumas características especiais, que o distinguem dos demais.

Marcos foi o primeiro Evangelho a ser escrito, conforme admitem praticamente todos os estudiosos da Bíblia. E provavelmente Marcos foi usado como referência por Mateus e Lucas. Logo, esse texto é de grande importância para o cristianismo.

O que esse Evangelho tem de diferente dos demais? O que há de especial nele? É o que vou tentar responder abaixo.

A tradição aponta João Marcos como o autor desse Evangelho, daí o nome que o texto tem. João Marcos foi inicialmente companheiro de viagem de Paulo, mas não teve comportamento muito responsável durante a primeira viagem missionária realizada por esse apóstolo.

Por causa disso, Paulo não quis levá-lo na sua segunda viagem e essa decisão acabou gerando uma briga entre Paulo e Barnabé (que era tio de João Marcos) – o nepotismo também era uma realidade presente na igreja apostólica. Paulo e Barnabé se separaram e o apóstolo seguiu viagem somente na companhia de Silas (Atos 15:36-40).

Como Deus sempre dá uma segunda chance para as pessoas, Marcos acabou se tornando companheiro importante de Pedro (1 Pedro 5:13), indo com ele para Roma, onde escreveu seu Evangelho.

O Evangelho de Marcos contém o ponto de vista do apóstolo Pedro sobre os fatos ocorridos com Jesus, já que ele foi a principal fonte de informação usada por João Marcos. Mas o autor também colheu informações por conta própria, pois morou na Palestina (Atos 12:12) e provavelmente conheceu Jesus.

Talvez a característica mais marcante do Evangelho de Marcos seja seu ritmo rápido – o foco está sempre sobre os fatos ocorridos com Jesus e suas ações (curas, libertação de demônios, etc). Não há muita preocupação em registrar as pregações (com exceção do que está relatado nos capítulos 4 e 13).

Para você ter uma ideia de como Marcos avança rápido no relato do que aconteceu, o centésimo versículo desse Evangelho já mostra Jesus desenvolvendo seu ministério. Em comparação, o centésimo versículo de Lucas ainda está falando do nascimento de Jesus (os pastores tendo a visão dos anjos).

Por conta do ritmo rápido do relato, uma das características de Marcos é o uso das expressões “imediatamente” ou “logo após”, para fazer a ligação entre um acontecimento e o seguinte.

O texto de Marcos costuma apresentar três públicos para as pregações de Jesus: 1) os escribas e fariseus; 2) a multidão; e 3) os discípulos. 

Os escribas e fariseus, quando apresentados em grupo, invariavelmente respondiam de forma negativa à pregação de Jesus, conforme o relato de Marcos. Criticavam-no abertamente, questionavam “quem ele pensa que é“, achavam que Jesus estava blasfemando e assim por diante. Veja um exemplo:

E outra vez entrou na sinagoga, e estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada. E estavam observando-o se curaria no sábado, para o acusarem… E, olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra. E, tendo saído os fariseus, tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam. Marcos capítulo 3, versículos 1 a 6

A multidão é sempre apresentada por Marcos como maravilhada pelos ensinamentos de Jesus. As pessoas comentavam entre si: “nunca vimos uma coisa assim…” Veja um exemplo:

E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam, dizendo: De onde lhe vêm estas coisas? e que sabedoria é esta que lhe foi dada? e como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Marcos capítulo 6, versículo 2

Embora maravilhadas, elas não fizeram nada de concreto com os ensinamentos recebidos. Seguiram Jesus e o ouviram pregar, sempre que puderam. Mas o que ouviram nunca se transformou em ação positiva. Muito ao contrário. E isso ficou claro quando a multidão se voltou contra Jesus e pediu que Pilatos o crucificasse (Marcos capítulo 15, versículos 12 a 14). 

Nossa impressão é que os discípulos seguiram Jesus para aprender e ao final do seu treinamento, saírem pelo mundo pregando a mensagem da salvação e da vinda do Reino de Deus. Mas não é isso que o relato de Marcos indica: Jesus teve muito trabalho para colocá-los no caminho certo.

Na verdade, na maioria das vezes os discípulos não conseguiram entender o que Jesus disse. Interpretavam quase tudo que Ele falava de forma errada. Faziam perguntas estúpidas e totalmente fora do contexto. Veja um exemplo:

E eles se esqueceram de levar pão e, no barco, não tinham consigo senão um pão. E ordenou-lhes [Jesus], dizendo: “Olhai, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes”. E discutiam entre si, dizendo: “É porque não temos pão”. E Jesus, conhecendo isto, disse-lhes: “Para que dizeis que não tendes pão?” “Não considerastes, nem compreendestes ainda?”… “Tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos, não ouvis?” Marcos capítulo 8, versículos 14 a 18

Toda vez que um desses grupos aparece no texto de Marcos, o(a) leitor(a) já sabe mais ou menos o que vai acontecer. Se forem escribas e fariseus, a reação será negativa. Se for uma multidão, as pessoas irão se maravilhar. Se forem os discípulos, haverá uma reação meio sem noção.  

Esses três públicos representam três formas erradas de reagir à pregação de Jesus. Há quem responda negativamente ao que Ele ensinou. Questione tudo e até ache que Jesus estava errado. Essas pessoas são como os escribas e fariseus. 

Há também quem ouça a mensagem de Jesus e se entusiasme, como fazia a multidão. Mas nada faça a partir daí. Os ensinamentos de Jesus ficam na memória, mas não criam raízes no comportamento, não trazem mudança de vida real.

E finalmente, assim como os discípulos, há quem não entenda o que Ele ensinou. Talvez porque seus preconceitos e forma estreita de pensar torne difícil entender uma mensagem de amor e perdão.

Concluindo, o Evangelho de Marcos é um texto curto – apenas dezesseis capítulos – e fácil de ler. Vale a pena investir seu tempo em conhecê-lo. Você vai gostar e aprender muito. Acredite em mim. 

Com carinho