O MUNDO MUDA. E AS IGREJAS?

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A foto que ilustra este post é muito interessante: mostra a candidata favorita à Presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, num encontro com apoiadores. Analisando com cuidado a foto, é possível perceber uma coisa surpreendente: praticamente todas as pessoas estão de costas para Hillary. Protesto? Desrespeito? Nada disso.

A explicação é simples: cada pessoa queria tirar uma foto sua com a Hillary. E a melhor forma de fazer isso seria ficar de costas e tirar uma foto de si mesma (selfie) com a candidata, sorridente, ao fundo. Daí decorreu a situação aparentemente bizarra: todo mundo ficou de costas para Hillary.

Essa foto surpreendente me fez refletir sobre como os costumes mudam. Ficar de costas para um político importante seria impensável tempos atrás – uma demonstração de desrespeito. Hoje o significado é diferente.

Eu nasci e cresci num mundo que tem pouca coisa em comum com a realidade que vivo hoje. Muita coisa mudou: as vestimentas usadas, o que se come, a forma de se comunicar com outras pessoas, a música e até a maneira adequada de se comportar num culto (antes seria impensável levantar as mãos, bater palmas e outras coisas assim).

Lá atrás as tatuagens eram reservadas a pessoas de vida pouco recomendável – uma pessoa considerada “de família” jamais faria uma coisa dessas e se fizesse, seria considerado um escândalo. Hoje os jovens amam as tatuagens e elas se tornaram comuns – tem até concurso na televisão sobre isso. 

Sessenta anos atrás, a música religiosa era tocada em órgãos e nenhum outro tipo de instrumento, exceto violino e harpa, eram considerados apropriados para ser usados nas igrejas. Hoje, a música “gospel” é tocada com guitarras, baterias, teclados eletrônicos e instrumentos de sopro. E a música religiosa baseada em órgãos é considerada chata pela esmagadora maioria das pessoas.

Antes, o telefone era fixo e havia um número por residência (quando havia). Hoje, cada pessoa (até as crianças) tem seu número pessoal e muitas casas já nem têm mais telefone fixo. E o celular deixou de ser apenas um instrumento para telefonar. É muito mais: virou um computador pessoal, dando acesso às redes sociais, tirando fotos, controlando a agenda e até fazendo pagamentos. 

As mudanças são enormes e parecem ir se acelerando. Não sou saudosista, daqueles(as) que ficam dizendo “bom era no meu tempo“. Nada disso. Só estou fazendo uma reflexão sobre uma realidade  que vem mudando rapidamente. Coisas antes inaceitáveis, tornaram-se comuns. Já hábitos e comportamentos antes amplamente aceitos, caíram em desuso.

Agora, o que isso tudo tem a ver com a fé cristã? Muito. Poderia falar muitas coisas, mas vou me concentrar num tópico: a necessidade de aceitar as mudanças, naquilo que é de cunho cultural, e a capacidade de manter intacto o núcleo da fé cristã. Eu Vou explicar melhor o que quero dizer com dois exemplos.

Quando eu estava entrando na adolescência, o mundo passou por uma revolução na música popular, gerada pelos Beatles e outros conjuntos famosos – aqui no Brasil foi a turma da “Jovem Guarda”, liderada pelo Roberto Carlos.

E os jovens cristãos naturalmente quiseram levar para dentro das suas igrejas a música de que gostavam, baseada em guitarras e bateria. Mas esbarraram na resistência dos mais velhos, que somente aceitavam a música de órgão – na igreja que eu frequentava essa discordância quase causou um racha. Os que eram contra a música jovem alegavam que ela era um desrespeito, um sacrilégio. 

Ora, instrumentos ou o ritmo da música usada em louvores são manifestações culturais – nada têm a ver com o núcleo da fé cristã. Coisas desse tipo mudam mesmo e continuarão a mudar ao longo do tempo. E essas mudanças precisam ser aceitas, sob pena das igrejas ficarem fossilizadas e se tornarem lugares evitados pelos jovens.

O mesmo posso dizer sobre as palavras que são usadas nos cânticos, que mudam ao longo do tempo porque a linguagem é viva, evoluiu – por exemplo, quando eu era pequeno, a palavra “chato” era um palavrão…

O mesmo posso dizer quanto às roupas que as pessoas usam para ir às igrejas, a maneira de dar aula na Escola Dominical, a decoração dos templos, o uso de redes sociais para práticas de oração e estudo bíblico e assim por diante. Essas mudanças são inevitáveis.

Mas as ideias básicas do cristianismo – o que chamei de núcleo da fé cristã- essas precisam ser mantidas. Podem até ser apresentadas sob novas roupagens, mas seu conteúdo precisa permanecer. 

E quando os líderes religiosos tentam mudar esse núcleo, para tornar as ideias mais palatáveis para o gosto moderno, a mensagem do cristianismo se perde. 

Há vários(as) líderes religiosos(as) que não mais falam em pecado, porque as pessoas não gostam. Outros(as) não pregam mais sobre o arrependimento ou o perdão porque contraria a modernidade. Falar em fidelidade nas relações amorosas, então, nem pensar.

E aí o cristianismo deixa de ser cristianismo, vira outra coisa. Vira uma dessas doutrinas de auto-ajuda que vende livros. Açucarada, mas inefetiva.

Tentar impedir as mudanças culturais dentro das igrejas – como muitas pessoas tentam fazer – é ruim, pois gera o risco de torná-las locais antiquados, ruins de frequentar. É preciso ter mente aberta para aceitar mudanças naturais. Por isso há espaço para recorrer às redes sociais para colocar as pessoas em contato, usar novos ritmos e instrumentos nos louvores, aceitar comportamentos diferentes e assim por diante. 

Mas nada disso pode ser feito às custas da essência do cristianismo. Dos seus ensinamentos básicos. Isso precisa permanecer hoje como era ontem e como continuará a ser no futuro.

Com carinho

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