FURANDO “BOLHAS” SOCIAIS

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O cientista social Dan Kahan, da Universidade norte-americana Yale, em 2013, realizou pesquisa muito interessante sobre a forma como as pessoas tratam dados que confirmam ideias as quais rejeitam. Elas levam em conta esses dados e mudam de opinião? Ou mantem sua predisposição inicial?

Nessa pesquisa, o cientista usou um tema muito polêmico nos Estados Unidos: o direito dos cidadãos de comprarem e portarem armas de fogo. As discussões sobre esse tema naquele país são intermináveis e geram muita emoção. Por causa disso, quase todos os cidadãos norte-americanos têm opinião prévia, contra ou a favor, em relação a esse tema.

O cientista apresentou para 500 pessoas um conjunto de dados científicos, todos fictícios (embora as pessoas não soubessem disso), que davam suporte à ideia que o direito às armas é prejudicial para a sociedade. E para outras 500, outro conjunto de dados, também fictícios, comprovando exatamente o oposto. 

O pesquisador imaginava que as pessoas iriam se deixar convencer pelos dados científicos, mesmo quando contrariassem suas ideias prévias. E mudariam sua convicção. Mas não foi bem isso que aconteceu. 

Mesmo recebendo dados comprovando que estavam erradas naquilo que pensavam, elas encontraram uma forma de re-interpretar os dados recebidos, acabando por reforçar aquilo que já pensavam antes. Não adiantou fornecer dados contrários, o pensamento das pessoas não mudou e até foi reforçado. Prevaleceu quase sempre a predisposição inicial.

Tenho  pensado sobre isso ao ouvir os debates sobre o processo de impeachment da Presidente Dilma – se ela cometeu ou não crime de responsabilidade com as tais “pedaladas fiscais”. Quanto mais argumentos técnicos são apresentados, tanto de uma parte como de outra, mais as pessoas reafirmam sua opinião inicial. 

Mas não é só no caso da Dilma que essa situação ocorre. Em outros casos polêmicos – por exemplo, a legalização da pena de morte ou do casamento homo-afetivo – quase não adianta argumentar e apresentar dados científicos. As percepções iniciais quase sempre definem a conclusão final das pessoas.

Isso comprova que existem “bolhas” sociais, isto é grupos de pessoas que comungam de determinadas ideias comuns a todas elas e se aferram a suas posições, até porque elas acabam por definir sua identidade. Exemplos de “bolhas sociais” são os partidos políticos, as torcidas organizadas de times de futebol ou as denominações evangélicas. 

Tentar apresentar ideias contrárias às que prevalecem dentro de uma “bolha” é sempre difícil. Os participantes resistem às tentativas de “furá-las”. Por exemplo, tente dizer para membros da torcida organizada do Flamengo que o Fluminense é melhor. Ou um para um partidário do PT, que o PSDB tem razão em determinado assunto. Ou ainda para um ativista de esquerda, ser o aborto pecado. 

Essa situação tornou-se ainda mais aguda com o aparecimento das redes sociais, como o Facebook. Tornou-se ainda mais fácil formar “bolhas”. Basta aceitar algumas pessoas, com as quais se tenha afinidade, na categoria de “amigas”, e rejeitar outras.

Ora, cada vez mais é nas redes sociais que as pessoas buscam se informar. E elas só recebem informações vindas de dentro da “bolha” onde habitam. Assim, se sou cristão, meus “amigos” no Facebook serão esmagadoramente cristãos e serei sempre exposto a versículos de encorajamento, a pregações inspiradas, a louvores bonitos, etc. Meus “amigos” do Facebook dificilmente vão postar algo mostrando, por exemplo, abusos de líderes cristãos.

Agora, se outra pessoa acha que o cristianismo não é tão bom assim, terá muito mais chance de ser “amiga” no Facebook de quem concorde com essas ideias e vai receber muitos posts contrários ao cristianismo, o que irá reforçar aquilo que ela já pensava.

Da mesma forma, se alguém é de esquerda tenderá a ter muito mais “amigos” com essa inclinação política e vai receber continuamente informações reforçando essas ideias. E assim por diante.

Esse problema ainda fica agravado pelo fato de não haver qualquer controle no conteúdo veiculado nas redes sociais  – e essa não deixa de ser uma das grandes qualidades delas. É fácil para as pessoas postarem nelas informações absurdas e até inverídicas. 

Um estudo recente do professor Pablo Ortellado, da USP, demonstrou a verdade do que acabei de falar. Usando o caso do impeachment da Dilma como exemplo, ele encontrou muita gente contra ela que acredita em declarações do tipo “o PCC é o braço armado do PT“. Em contrapartida, várias pessoas a favor dela acreditam piamente em declarações como “os protestos contra a corrupção no Brasil são uma armadilha montada pelos Estados Unidos para se apropriar do petróleo brasileiro“. Em resumo, a racionalidade do debate desapareceu completamente. E a mesma coisa acontece em relação a outros temas polêmicos. 

Mas o que tudo isso tem a ver com você? O que importa para sua vida? Penso que há duas coisas importantes que podemos tirar dessa discussão.

A primeira é entender o fenômeno das “bolhas sociais”. Todo mundo pertence a uma ou mais delas e acaba sendo influenciado pelo que ouvi e vive dentro delas. E isso certamente vai nos tornar mais tolerantes com quem pensa e age diferente de nós. E esse foi o ensinamento que Jesus nos deixou.

A segunda lição tem a ver com o mandamento de Jesus para pregarmos o Evangelho para todo mundo. Isso significa falar sobre ideias cristãs para pessoas que não as conhecem e das quais podem até nem gostar. Em outras palavras, para evangelizar é preciso “furar bolhas sociais” usando as ideias do cristianismo como “agulha”. E se você quer falar sobre o Evangelho de Jesus, precisa aprender a fazer isso. 

E há duas formas. A primeira é começar a conversa sobre Jesus dentro da “bolha” onde a pessoa se abriga e trabalhar a partir daí. “Furar a bolha” de dentro, garantindo resistência menor. 

E isso deve ser feito demonstrando compreensão com o pensamento que a pessoa já têm, o que não significa concordar com as ideias dela e sim não demonizá-las. Vou explicar isso melhor com um exemplo.

Imagine que você está tentando converter uma pessoa espírita. Alguns evangélicos, quando encontram gente assim, vão logo dizendo que a pessoa está sujeita a demônios e vai para o inferno. Procuram exorcizá-la. Tentam “furar a bolha” de fora.

A forma melhor é pedir que essa pessoa explique sua crença e tentar entender como ela absorveu aquelas ideias – talvez essa tenha sido sua formação ou não tenha sido exposta ao cristianismo na hora e na forma certas.

Depois, reconheça a parte boa da crença da pessoa – sempre há algum ponto positivo em qualquer crença. Por exemplo, no caso do espiritismo, o ponto elogiável é a dedicação em praticar a caridade, coisa que costumam fazer melhor do que os(as) próprios(as) cristãos(ãs).

A partir desse ponto de concordância, vá mostrando as contradições no pensamento da pessoa, incentivando-a a pensar por si mesma. Chegar às suas conclusões. Voltando ao exemplo que venho discutindo, uma das contradições do espiritismo é que o sofrimento atual das pessoas é fruto de pecados cometidos nas suas vidas anteriores – a tal lei do “karma”.

Sendo assim, o sofrimento existente no mundo é, de certa forma, inevitável, pois é através dele que as pessoas são corrigidas e evoluem. Logo, não há incentivo, dentro da doutrina espírita, para combater os males da sociedade, nos caberia apenas atenuá-los.

Ao perceber as contradições naquilo que pensam, a pessoa pode evoluir e decidir sair da “bolha” onde está. E não há dúvida que irá acabar por entrar em outra “bolha”, pois essa é a ordem natural das coisas.

Outra forma de furar a “bolha” por dentro é usar o depoimento de quem já fez a mesma transição, de quem já furou a mesma “bolha” no passado. No exemplo, seria usar o depoimento de quem já se converteu do espiritismo para o cristianismo. 

Quem já fez o mesmo trajeto pode testemunhar de forma construtiva o que o(a) levou a sair da sua “bolha” e a mudar sua vida. Por isso, testemunhos de conversão são tão importantes, fundamentais mesmo. E precisam ser incentivados.

Com carinho

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