DEUS PODE SE ARREPENDER DO QUE FEZ?

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Há várias passagens na Bíblia falando sobre o arrependimento de Deus de ter feito uma coisa ou outra. Esses textos apontam para o fato d´Ele não ter gostado ou ter sido surpreendido pelo resultado gerado pelos seus próprios atos e decidido mudar o rumo das suas ações. Por exemplo: 

  • Então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra e isto lhe pesou no coração“. Gênesis capítulo 6, versículo 6
  • O Senhor arrependeu-se de ter feito Saul rei sobre Israel“. 1 Samuel capítulo 15, versículo 35 

Esse tipo de declaração gera muita dúvida. Primeiro porque a própria Bíblia fala em outros lugares que Deus não se arrepende – por exemplo, em Números capítulo 23, versículo 19: “Deus não é homem, para que minta, nem filho do homem, para que se arrependa“. Parece haver contradição entre esses dois tipos de declaração. 

Depois, por conta daquilo que sabemos a respeito da natureza de Deus. A Bíblia ensina que Ele sabe tudo e faz tudo com perfeição, portanto, não há como Deus se surpreender com qualquer coisa ou ter escolhido um curso de ação que não iria trazer os resultados desejados. Isso é impossível.

Afinal, Deus pode se arrepender ou não do que fez? Antes de dar uma resposta direta – e não estou enrolando, pode acreditar – preciso esclarecer uma coisa.

É quase impossível para o ser humano falar sobre Deus, simplesmente porque nossa linguagem não foi feita para descrever um Ser que é eterno, sabe tudo, pode tudo, está fora do tempo e do espaço, etc. Não conhecemos nada remotamente parecido com Ele. 

Para você entender melhor, essa situação, imagine que fosse preciso descrever um avião para uma tribo de índios que nunca viu nada nem remotamente parecido com tal tipo de máquina. A pessoa encarregada dessa tarefa somente teria uma saída: usar uma metáfora, comparando o avião com alguma coisa que tivesse a ver com o dia-a-dia dos índios. Assim, provavelmente iria dizer que um avião é como um “pássaro feito de metal, mas grande como uma oca” (a casa dos índios). 

É claro que a descrição de um “pássaro de metal” introduz imprecisões porque o avião não é vivo, trata-se apenas de uma máquina. E quando os índios tiverem oportunidade de ver um avião de verdade, se forem procurar por um coração ou olhos, ficarão desapontados e/ou confusos.

O mesmo acontece quando falamos sobre Deus: usamos metáforas tiradas da nossa experiência de vida pois não temos palavras suficientes para descrever a realidade. É por causa disso que falamos dos “braços” ou dos “olhos” ou ainda da “boca” de Deus. Mas é claro que Deus não tem braços, olhos, boca e outras coisas desse tipo.

Ele nem é um ser físico como nós e sim um espírito, coisa bem diferente. É claro que Ele consegue ver o que fazemos e pode nos sustentar fisicamente (como se estivéssemos no seu “colo”) e nos fala coisas, mas não tem olhos, braços ou boca, pelo menos não no sentido que damos a essas palavras.

Usar exemplos tirados do corpo ou do comportamento humano para descrever coisas que não são humanas é um processo chamado de “antropomorfismo”. Isso é muito comum, por exemplo, em desenhos animados, onde os animais falam e se comportam como nós. 

É claro que se levarmos o antropomorfismo a sério demais, vamos criar problemas. Se passarmos a acreditar que ratos e cavalos podem falar e cantar iremos ficar confusos quando virmos animais reais e eles não se comportarem assim. 

O mesmo acontece com Deus: se levarmos o antropomorfismo a ferro e fogo, vamos gerar problemas conceituais importantes. Portanto, quando os autores bíblicos disseram que Deus se arrependeu de algo, estavam usando uma experiência humana para descrever como o comportamento d´Ele lhes pareceu ser.

Para o observador humano, por exemplo, pareceu ser que Deus se arrependeu de ter escolhido Saul para ser rei de Israel, quando aquele homem demonstrou não estar à altura de tal função. Isso não quer dizer que Deus se arrependeu de fato, porque isso não é possível, conforme a própria Bíblia diz em outros textos. O escritor do texto bíblico quis dizer que o comportamento de Deus pareceu-lhe ser de arrependimento. Só isso. 

Logo, não há contradição nenhuma: em alguns textos os autores falaram da sua percepção pessoa a respeito do comportamento de Deus – foi a maneira como conseguiram explicar algumas circunstâncias que experimentaram. Em outros textos, quando disseram que Deus não se arrepende, os autores estavam fazendo uma reflexão teológica sobre Ele e acertadamente explicaram que Deus não muda e, portanto, não pode se arrepender.

São coisas diferentes. Mas infelizmente as palavras usadas foram as mesmas e isso se explica pelo fato do vocabulário humano ser limitado, conforme já comentei.

Concluindo, Deus não se arrepende, até porque esse tipo de situação não faria qualquer sentido no caso d´Ele. Simples assim.

Com carinho

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