Você já ouviu falar da Lei Oral?

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Moisés recebeu de Deus a Lei, um conjunto de regras definindo como nosso Criador esperava que os seres humanos se comportassem. Moisés organizou esse material e o transmitiu para o povo israelita, conforme podemos ver nos livres de Êxodo, Levítico, Número e Deuteronômio, especialmente no segundo deles. Esse conjunto de regras ficou conhecido como “Lei Escrita”.

A parte mais conhecida dessa Lei é constituída pelos Dez Mandamentos, que boa parte das pessoas sabe de cor. Mas vai muito além disso, tratando dos principais aspectos da vida do povo judeu, como relações sociais e vida em família, economia, prestação do culto religioso, etc. 

Ora, esse sistema legal precisava ser aplicado na prática para resolver disputas entre pessoas, punir crimes, estabelecer políticas econômicas, dentre outras coisas relevantes. No início, essa tarefa coube ao próprio Moisés, como líder inconteste do povo e alguém que sabidamente era inspirado por Deus. E todos aceitavam bem suas interpretações da Lei e decisões.

Mas os líderes que sucederam Moisés não tinham o mesmo prestígio dele e começaram a surgir dúvidas no meio do povo sobre como a Lei Escrita deveria ser aplicada na prática. Por exemplo, os Dez Mandamentos estabeleciam ser proibido trabalhar no sábado, dia reservado para descanso e culto a Deus.

Mas o que isso queria dizer na prática? As pessoas poderiam alimentar os animais, cuidar dos doentes, lutar numa guerra ou cozinhar suas refeições nesse dia? A Lei Oral surgiu exatamente para preencher essa necessidade.

A tradição israelita ensinava que o núcleo original da Lei Oral também foi dada por Deus a Moisés e por isso tinha a mesma autoridade que a Lei Escrita (contida na Bíblia). As coisas não ocorreram assim, mas era isso que os judeus acreditavam no tempo de Jesus.

Na verdade, a Lei Oral foi sendo desenvolvida aos poucos. Toda vez que aparecia a necessidade de lidar com uma questão nova, se não havia uma regra bíblica lidando com aquela questão, uma nova regra era introduzida na Lei Oral. E assim, esse corpo de legislação foi crescendo aos poucos até atingir um tamanho considerável – tornou- se tarefa para quase toda uma vida conhecê-lo todo.

É interessante comentar aqui sobre um paradoxo: sem dúvida a Lei Oral inicialmente foi transmitida  informalmente, essencialmente boca a boca, mas com o tempo acabou sendo codificada e escrita, embora continuou a ser conhecida como Lei Oral, para diferenciá-la dos mandamentos contidos na Bíblia, a Lei Escrita.

No tempo de Jesus, portanto, quando os judeus se referiam à “Lei”, estavam falando não somente daquilo que estava nos cinco primeiros livros do Velho Testamento, mas também do conjunto de regras que compunham a Lei Oral.

O problema é que a Lei Oral, por ser obra humana, foi pouco a pouco modificando o espírito original da Lei de Deus. E isso acabou gerando muitos problemas: os judeus se tornaram legalistas e faziam coisas pensando estar atendendo à vontade de Deus, quando não estavam. 

Jesus se insurgiu contra esse estado de coisas, tanto assim que os quatro Evangelhos mostram inúmeras discussões dele com fariseus, escribas e doutores da Lei, que pretendiam ser os “guardiões” tanto da Lei Escrita como da Oral. Por causa dessas divergências, Jesus atraiu para si muita animosidade e foi alvo de muitas fofocas.

Um excelente exemplo desse tipo de divergência apareceu na discussão do que poderia ser feito no sábado. O mandamento bíblico diz ser obrigatório separar o sábado para Deus, logo não se podia trabalhar nesse dia. E a Bíblia lista 39 atividades proibidas no sábado, mas os autores da Lei Oral foram criando mais e mais regras derivadas dessa proibição original e o conjunto de regras para o sábado acabou se tornando enorme.

Isso tornou a vida dos judeus no sábado bastante difícil – podemos ver um eco hoje em dia no comportamento dos judeus ortodoxos, proibidos de fazer coisas simples como entrar num carro ou até mesmo apertar o botão de comando de um elevador.

Aí Jesus veio e explicou que esse enorme conjunto de regras violava o espírito da Lei de Deus e explicou a razão de forma brilhante: o sábado tinha sido estabelecido para o homem e não o contrário (Marcos capítulo 2, versículos 23 a 27).

Em outras palavras, o sábado foi estabelecido por Deus para que o ser humano não se tornasse um “burro de carga”, trabalhando todos os dias da semana. Era preciso haver um momento separado para o lazer, para a vida em família e para o louvor a Deus. A enorme quantidade de regras estabelecidas na Lei Oral acabaram por tornar o sábado uma preocupação e de certa forma escravizaram os judeus. O sábado tinha sido estabelecido por Deus como uma dádiva e acabou se tornado fonte de preocupação. E foi exatamente para esse absurdo que Jesus apontou.

O Novo Testamento relata muitos outros exemplos como esse. Vejamos alguns deles. Começo lembrando que a Bíblia estabelece ser proibido assassinar alguém, mas era na Lei Oral que se definia a questão da intenção para caracterizar se o ato cometido tinha sido ou não justificável.

Aí Jesus ensinou que antes do fato físico de matar, nasce no coração do assassino a vontade de fazer isso, por raiva, ciúme, ambição ou qualquer outro motivo torpe. O pecado, portanto, nasce antes do ato em si e mesmo que a pessoa acabe por não matar, ainda assim pecou (Mateus capítulo 5, versículos 21 e 22). Esse é o espírito da Lei de Deus.

Outro exemplo é o adultério: antes do ato físico em si, aparece no coração da pessoa a vontade de manter uma relação ilícita. Portanto, somente o desejo de adulterar já constitui pecado (Mateus capítulo 5, versículos 27 a 30). O mesmo vale também para a ofensa ao próximo e muitos outros casos.

A tarefa de combater o legalismo e de defender a aplicação correta do espírito correto da Lei dada por Deus trouxe muitos problemas para Jesus. Mas Ele enfrentou tudo isso porque se tratava de missão muito importante – valia a pena pagar o preço.

Como o legalismo e a interpretação distorcida da Lei de Deus continuam presentes nos dias de hoje, tanto quanto no tempo de Jesus, a missão à qual Jesus deu início continua em aberto. 

É incrível como pastores(as) gostam de criar regras de vida para as pessoas e as impõem de forma até truculenta. Regras sobre o que se pode vestir, que música é lícito ouvir, que lugares podem ser frequentados, que coisas podem ser usadas nas decorações das e assim por diante. É como se esses(as) pastores(as) estivessem revivendo a Lei Oral.

Outro dia uma pessoa escreveu para mim contando que seu pastor exige que os fiéis chamem Jesus pelo seu nome original – Yehoshua ou Yeshua -, ameaçando com a punição divina para quem não fizer isso. Parece até ridículo, mas é a mais pura verdade.

Assim, como Jesus fez, nós também precisamos nos insurgir contra o legalismo e a distorção do espírito da Lei de Deus. Como disse antes, essa missão continua em aberto e cabe a cada cristão(ã) de boa vontade levá-la adiante.

Com carinho

1 Comentário

  1. Concordo Infelizmente Existe Alguns Pastores que Criam Regras que NÃO são Mandamento de Deus.eu Sou Contra essas regras que são mandamento de Homens.

    Mandamentos de Homens.
    1-vestir só roupa social.
    2-proibem ouvir Musica Secular.
    3-proibem ir ao cinema.
    4-proibem o uso moderado de bebida alcoolica.

    Eu sou CONTRA esses mandamentos de Homens.eo só obedeço aos Mandamentos de Deus que estão escritos no Novo Testamento.eu sou Cristão.

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