OS DEZ MARCOS DA VIDA DE JESUS

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Quais são os fatos mais importantes da vida de Jesus? A resposta depende do ponto de vista, do critério usado (por exemplo, importância teológica, impacto sobre os discípulos ou significado histórico).

Para fazer minha lista, usei um critério bíblico: inclui nela os fatos que foram descritos nos quatro Evangelhos. Esse critério parte do princípio que cada evangelista escolheu aquilo que iria relatar com base no que considerou mais importante para a audiência que pretendia atingir. Foi por causa disso, por exemplo, que somente dois dos quatro evangelistas (Mateus e Lucas) escolheram falar da infância de Jesus.

Imagino que quatro evangelistas, com pontos de vista tão diferentes, escolheram todos relatar determinado fato é porque ele foi considerado de extrema importância por toda a comunidade cristã. Simples assim.

Quais são então esses fatos? São dez apenas e vamos a eles:

1. O batismo de Jesus (Mateus 3:1-2 e 13-17, Marcos 1:1-11, Lucas 3:1-23, João 1:19-34)

O ministério de João Batista – profeta que veio preparar o caminho para Jesus, convocando o povo judeu para o arrependimento –  foi considerado pelo próprio Jesus de enorme importância. Ele chegou a afirmar que nenhum homem judeu (nem Abraão, Moisés ou Davi) tinha sido mais importante do que João Batista.

E a maior prova dessa importância dada ao ministério de João Batista foi o fato de Jesus ter-se deixado batizar por ele. É óbvio que Jesus não tinha pecado e, portanto, não precisava se arrepender ou se batizar. Mas como a culpa, em Israel, era sempre considerada na coletividade como um todo, tal batismo teve razão de ser.

Depois de ser batizado, Jesus passou um período como discípulo de João, antes de começar seu próprio ministério. E vários dos discípulos do Batista, como Pedro e André, tornaram-se depois discípulos de Jesus.

2. A multiplicação dos pães e peixes (Mateus 14:13-21, Marcos 6:30-44, Lucas 9:10-17, João: 6:1-14)

Trata-se do milagre em que Jesus multiplicou uns poucos pães e peixes para alimentar uma multidão de vários milhares de pessoas. Com esse milagre, Jesus reafirmou sua posição como o “Pão da Vida”, nossa fonte permanente de alimentação espiritual.

Escrevi recentemente sobre esse milagre em maior detalhe ( ver texto ). 

3. Jesus purifica o Templo (Mateus 21:12-17, Marcos 11:115-18, Lucas 19:45-46, João 3:13-17)

O Templo de Jerusalém era o centro da vida religiosa do povo judeu. E esse complexo religioso era totalmente dominado pela classe sacerdotal que se aproveitava desse fato para enriquecer.

Com efeito, só podiam ser sacrificados ali animais considerados puros, isto é sem defeitos ou máculas. E quem determinava tal pureza eram os próprios sacerdotes – naturalmente privilegiavam os animais que eles mesmos criavam e vendiam, através de terceiros, por preços acima do mercado.

Além disso, todo judeu era obrigado a pagar uma taxa para o funcionamento do Templo. E os sacerdotes estabeleceram que essa taxa somente poderia ser paga numa moeda do Líbano, chamada didracma, difícil de encontrar. Então as pessoas precisavam fazer câmbio de dinheiro, ao chegar a Jerusalém, para poder cumprir sua obrigação.

E quem dominava o comércio de câmbio de moedas? Evidentemente, os sacerdotes, que enriqueciam com essa prática.

Foram exatamente os cambistas de moedas e vendedores de animais que Jesus expulsou do recinto do Templo, quando afirmou que ali era lugar de oração e não de comércio. E com isso criou inimigos mortais entre os sacerdotes.

4. A denúncia do traidor (Mateus 26:21-25, Marcos 14:18-21, Lucas 22: 21-23, João 13:21-30)

Judas, diferentemente do que muitos possam pensar, não estava pré-destinado a ser o traidor de Jesus – se fosse assim, ele não seria realmente culpado pelo que fez.

Não, Judas agiu por conta própria, pois tinha caráter mau – tanto assim, que roubava dinheiro do grupo de Jesus, do qual era tesoureiro (João 12:1-8).

Mesmo sabendo que Judas seria o traidor, Jesus o tratou sempre com grande consideração – por exemplo, deu-lhe um bocado na boca para comer, o que era considerada grande honra.

Judas traiu por escolha própria. Seus atos pecaminosos deram a brecha para que Satanás o dominasse.

5. A prisão de Jesus e a fuga dos discípulos (Mateus 26:36-56, Marcos 14:32-52, Lucas 22:39-53, João 18:1-12)

Depois de tomar a última ceia com seus discípulos, Jesus foi para um lugar chamado Getsêmani, também conhecido como Jardim das Oliveiras. Ali existia um local para espremer azeitonas e fazer óleo, produto de alto valor comercial. Esse jardim ainda existe nos dias de hoje, pois as oliveiras são árvores que podem viver milhares de anos. É um local pequeno, com cerca de 50 m x 50 m mais ou menos.

Ali Jesus ficou profundamente angustiado – sabia o sofrimento que lhe estava reservado e seu lado baqueou, tanto assim que chegou a suar sangue. E Ele enfrentou essa dificuldade como sempre fazia: orando, pedindo ao Pai que lhe desse forças para resistir.

E naquele mesmo Jardim Jesus foi encontrado pelos guardas do Templo e outras pessoas mandadas pelos líderes religiosos judeus. Entre eles estava Judas, que identificou Jesus com um beijo.

É interessante perceber que a mesma palavra usada para o beijo da traição foi usada por Jesus na parábola do “Filho Pródigo”, na cena em que o pai (Deus) beijou o filho arrependido (o pecador), que voltava para casa.

Um beijo – o do ser humano em Deus – foi para traição, enquanto o outro beijo – o de Deus no ser humano – foi de perdão e aceitação. Que contraste!

Os discípulos tentaram reagir à prisão de Jesus – Pedro chegou a ferir Malco, servo do sumo-sacerdote -, mas foram impedidos por Ele. A violência não era a resposta certa para o que estava acontecendo ali.

Restou, então, aos discípulos fugir para salvar suas próprias vidas. E deixaram Jesus sozinho.

6. Pedro nega Jesus três vezes (Mateus 26:58-75, Marcos 14:66-72, Lucas 22:54-62, João 18:15-18)

Pedro fora avisado que haveria de negar Jesus por três vezes. E o próprio Jesus fez essa profecia num momento em que Pedro, sempre impulsivo, afirmou amar seu Mestre sobre todas as coisas. A imagem que Jesus usou foi interessante: Satanás iria “peneirar” Pedro.

É de se notar também que, nesse mesmo diálogo, Jesus diz para Pedro: “tu pois, quando te converteres…”

Ou seja, depois de três anos de convivência com Jesus, Pedro ainda não havia se convertido! E isso continua a acontecer hoje em dia: as igrejas cristãs estão cheias de pessoas não convertidas. Gente que frequenta, participa dos rituais e até dá seu dízimo mas, por exemplo, não consegue amar o próximo.

A profecia de Jesus se confirmou e Pedro realmente negou Jesus e fez isso diante de uma simples escrava, pessoa do mais baixo nível da escala social da época. Pedro negou por medo, por se sentir embaraçado de ser visto como seguidor de Jesus.

Tanto Pedro como Judas cometeram pecados terríveis – ambos traíram Jesus. A diferença é que Pedro se arrependeu e confiou na misericórdia de Deus,  tendo sido perdoado e restaurado, enquanto Judas se desesperou e se matou: o primeiro foi salvo, enquanto o segundo não.

7. Jesus perante Pilates (Mateus 27:2-26, Marcos 15: 1-15, Lucas 23:1-25, João 18:28-40)

Pôncio Pilatos foi governador da Província Romana da Judeia entre os anos de 26 e 36 da nossa era. Era homem corrupto, injusto e violento. Foi demitido pelo Imperador romano e acabou sua vida exilado.

Os líderes judeus recorreram a Pilatos porque a pena de morte naquela situação deveria ser aplicada pelo governador. E ao fazer isso, contribuíram para que fosse cumprida a profecia de que o Messias haveria de ser “pendurado no madeiro” – se a punição tivesse sido aplicada pelos próprios líderes judeus Jesus teria sido apedrejado, como aconteceu com o diácono Estevão (Atos 7:54-60).

Pilatos foi colocado pelos líderes judeus numa situação difícil: sabia que Jesus era inocente mas não queria contrariar os alto-sacerdotes. Esse é um dilema comum na nossas vidas: de um lado, o dever (fazer aquilo que é certo) e de outro o interesse pessoal (aquilo que gera vantagens). Pilatos escolheu ficar com seu interesse e mandou crucificar Jesus.

Os relatos também falam que os judeus preferiram que Pilatos soltasse Barrabás, um criminoso, em lugar de Jesus. Preferiram a violência do primeiro em lugar do amor do segundo. A anarquia de um em lugar da lei e da ordem do outro. O pecador no lugar d´Aquele sem mácula.

8. A crucificação e morte de Jesus (Mateus 27:31-50, Marcos 15:20-37, Lucas 23: 26-46, João 19:16-30)

A crucificação era o pior castigo que os romanos aplicavam, pois se tratava de suplício particularmente doloroso – o condenado morria aos poucos, por asfixia. Estava reservada aos piores criminosos e às pessoas que se revoltavam contra o domínio romano.

A crucificação era sempre precedida pelo chicoteamento (flagelamento) e pelo desfile vergonhoso do condenado carregando a trave horizontal da cruz onde seria crucificado (o patíbulo). Jesus passou por tudo isso, conforme a descrição detalhada dos Evangelhos.

Também eram práticas correntes a divisão das vestes do condenado entre os soldados e a atestação final da morte através da penetração de uma lança no corpo do condenado, coisas pelas quais Jesus também passou.

Jesus disse sete frases durante sua agonia na cruz, normalmente repetidas durante as comemorações da Sexta Feira da Paixão:

  • Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem.
  • Mulher [falando com Maria, sua mãe], eis aí teu filho [referindo-se ao apóstolo João].
  • Hoje mesmo estarás comigo no paraíso [dirigindo-se ao ladrão que o aceitou como Salvador e estava morrendo ao seu lado noutra cruz].
  • Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste.
  • Tenho sede.
  • Está consumado.
  • Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.

9. O sepultamento de Jesus (Mateus 27:57-61, Marcos 15:42-47, Lucas 23:50-56, João 19:31-42)

O sepultamento de Jesus foi feito às pressas porque Ele morreu numa sexta feira, pouco antes do por do sol, quando começava o sábado, período no qual não se podia realizar qualquer trabalho.

Mediante a interferência de José de Arimateia, homem rico e importante, que falou com Pilatos, o corpo sem vida de Jesus foi retirado da cruz e levado para uma sepultura que nunca tinha sido usada e que foi cedida pelo próprio José.

Jesus foi sepultado num jardim, o que é altamente simbólico: foi num jardim (o Éden) que o pecado entrou no mundo e foi noutro jardim que o pecado foi derrotado.

10. Aparições do Cristo ressuscitado (Mateus 28:16-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:12-53, João 20:1-29)

Depois de ressuscitar, durante quarenta dias, Jesus apareceu para muita gente. Primeiro, para Maria Madalena, que teve essa honra, no domingo logo cedo, quando ela foi visitar a sepultura. Depois, apareceu para outras mulheres, para dois discípulos a caminho da cidade de Emaús, para os onze apóstolos restantes, para sete discípulos na Galileia, para Tiago e para uma multidão no monte das Oliveiras.

Essas aparições tiveram por objetivo atestar que Jesus tinha mesmo ressuscitado e elevar a moral dos seus seguidores. 

E aqui termino o relato dos principais marcos na vida de Jesus. É interessante observar que ficaram de fora eventos da maior importância, como a última ceia de Jesus com seus discípulos, quando Ele comparou o pão ao seu corpo e o vinho ao seu sangue, ou a transfiguração, quando suas vestes ficaram alvas como a neve, ou ainda os ensinamentos do Sermão da Montanha. Como disse, a lista final sempre depende do critério de escolha que for utilizado.   

Com carinho