ONDE ESTAVA DEUS?

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“Na noite que meu filho Lukas morreu atropelado saindo de uma festa com os irmãos, antes de ir ele me ligou e me disse que estava meio cansado, a fim de dormir, e que se fosse seria apenas pelos irmãos da Igreja Presbiteriana Betânia … “Vá meu filho! Vai ser legal! … foi o que eu disse; e ele foi… eu sabia que não fora a “minha força” que o pusera no chão daquela estrada fria de Itaipu. Havia um caminho naquela estrada que estava para além de mim… A gente aprende que todos estão a um passo de qualquer coisa. A gente aprende que por vezes nem todos os esforços do mundo mudam determinadas realidades. A gente aprende que muita dor culposa que se sente decorre da culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos. A gente aprende a discernir quais são as coisas que  se pode esperar ante um desespero e quais não se pode… A gente aprende, sutilmente, o que é agenda da estrada e o que é agenda do caminho.”  Pastor Caio Fábio 

As tragédias se sucedem, umas após as outras. A enchente na região serrana do Rio de Janeiro, o assassinato de 12 crianças por um psicopata numa escola carioca, o terremoto e a tsunami no Japão, o assassinato de 73 pessoas, na sua maioria jovens, num acampamento na Noruega, os atentados terroristas em Paris, os massacres nos Estados Unidos, a guerra na Síria e assim por diante.

Quando nos vemos diante de fatos como esses, muitas pessoas ficam perplexas e perguntam: Onde estava Deus, que permitiu essa tragédia?

No começo deste post transcrevi o depoimento do conhecido Pastor Caio Fabio sobre a perda do seu filho Lukas – ele falou isso numa carta aberta que mandou para uma evangelista, que tinha passado por perda similar. Ele demonstra que há quem responda de forma diferente aos dramas da vida. Há quem ensine com seu exemplo 

O texto acima, na beleza triste de quem sabe o que é sofrer, ensina três coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que há coisas sem explicação, além do entendimento humano.

Essa percepção é fundamental para que quem sofre não fique buscando causas, razões, cadeias de responsabilidade e outras coisas assim e acabe atribuindo culpa a si mesmo ou às outras pessoas. Por exemplo, Caio Fabio entendeu não ter sido seu conselho a razão para colocar seu filho no caminho da morte (e se pensasse assim, seria corroído pela culpa, como acontece com muita gente.

O segundo ensinamento importante está presente na frase: “…a culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos…” Caio Fabio alertou que muitos(as) cristãos(ãs), até de forma bem intencionada, ensinam que os seguidores de Jesus estão livres das tragédias. Estão imunes a elas. E isso não é verdade.

Numa enchente na região serrana do Rio de Janeiro, somente numa única igreja metodista, cerca de 100 pessoas morreram e muitas outras perderam tudo. Sofreram o que todas as outras da mesma região sofreram.

Não há promessa bíblica afirmando que cristãos(ãs) serão poupados de tragédias – as catástrofes relatadas na Bíblia, de forma geral, caíram tanto sobre o justo como o injusto. Não há uma grande “redoma” protegendo os(as) filhos(as) de Deus e acreditar nessa falácia é meio caminho para a pessoa acabar desapontada com Deus. 

A diferença que existe entre cristãos(ãs) e outras pessoas é simplesmente a fé que a morte, por mais dolorosa que seja, constitui a porta de entrada para algo melhor (nossa vida junto a Deus). E aí está o consolo do(a) cristão(ã) em meio à dor.

O terceiro ensinamento do texto acima é que o desespero não pode paralisar a vida espiritual de quem sofre. A “agenda da estrada” – a trajetória do ser humano no mundo – não pode desviar a pessoa da “agenda do caminho” (Jesus Cristo).  

Há um outro ponto que não foi abordado por Caio Fábio mas é igualmente importante. A pergunta “onde estava Deus?”, feita após a desgraça, é dirigida à pessoa errada. Ela aponta para Deus quando deveria ser dirigida para sua Igreja (aqui entendida como o grupo de pessoas que segue os ensinamentos de Cristo).

Afinal, foi para essa comunidade de fé que Jesus deixou a tarefa de mudar o mundo e se fazer presente nas necessidades daqueles(as) que sofrem. 

E essa pergunta é feita porque a Igreja de Cristo, isto é, nós mesmos, falhamos nas nossas responsabilidades. Por exemplo, será que o assassino das crianças na escola no Rio de Janeiro teria cometido aquele crime horrível se, na manhã do dia fatídico, alguém tivesse lhe falado sobre Jesus e orado com ele? Acredito que não.

A evangelista Bráulia Pedroso, para quem Caio Fabio dirigiu o depoimento acima, contou publicamente uma conversa que teve, exemplificando tudo isso:

“Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontrei com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixou do abandono. Ninguém a visitava. Além dos filhos, perdeu também os amigos. A morte incomoda. as pessoas não sabem como se portar diante da dor dos outros e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como de uma lepra. Por quê?”

A dor de um(a) irmão(ã) tem que ser a dor de todos(as). E é no rosto de cristãos(ãs) solidários(as) e amorosos(as) que quem sofre vai sentir a presença de Jesus. E poderá enfim dizer: “Deus não me abandonou, pois mandou seus filhos(as) para ficarem comigo“. 

Com carinho

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