QUANDO FICA DIFÍCIL SABER O QUE É CERTO OU ERRADO

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Há situações na vida onde há um escolha a ser feita e nenhuma das alternativas disponíveis parece ser moralmente certa ou todas parecem ser igualmente boas. Nessas situações as pessoas, mesmo as muito bem intencionadas, têm dificuldade em definir a conduta certa, aquilo que é realmente aprovado por Deus.

Popularmente, chamamos essa situação de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…” Por exemplo, imagine uma situação onde um bandido ameaça assassinar uma pessoa e a única forma de evitar que isso aconteça seria matá-lo. Se nada for feito, uma pessoa inocente acabará morta, situação típica de pecado por omissão. Mas para evitar esse crime será preciso matar o bandido, o que também irá violar um mandamento bíblico. 

Conflitos éticos são bastante comuns e não há como evitá-los – cruzamos com eles todos os dias. Por exemplo, devemos dar dinheiro (pagando impostos) para um governo sabidamente corrupto? O patrão deve mandar um empregado embora, para melhorar a situação da empresa, mesmo sabendo que ele vai ter dificuldade para encontrar outro emprego? A igreja deve investir os recursos escassos de que dispõe em missão ou em assistência social? E assim por diante.

Às vezes a solução do conflito ético parece ser simples, como no caso de ser preciso matar um bandido para salvar uma pessoa inocente – a própria lei brasileira estabelece isso, definindo que a morte do bandido foi feita em !legítima defesa de terceiros”.

Já em muitos outros casos, as respostas são bem mais difíceis. Por exemplo, escolher qual dos vários filhos deve receber uma bolsa de estudos que “caiu do céu”, dando-lhe condições de estudar na melhor faculdade possível. Ora, seja qual for o critério para fazer a escolha do filho a ser beneficiado, ela vai acabar criando uma hierarquia de filhos “ganhador” e “perdedores”. Há um filme – “A escolha de Sofia” – que trata exatamente de uma situação desse tipo.

Quando um(a) cristão(ã) é envolvido num conflito ético o que ele(a) deve fazer? Como enfrentar esse tipo de situação? A regra mais recomendada pelos(as) filósofos(as) é buscar fazer o maior bem possível ou evitar o mal maior. Em outras palavras, dentre as alternativas disponíveis, deve ser escolhida aquela que leva ao maior bem que estiver ao alcance ou evita o mal maior. 

Por exemplo, imagine que seja preciso permitir o sacrifício de duas pessoas (digamos, dois policiais) para evitar a morte de uma centena de inocentes. Haveria justificativa ética em fazer isso, pois estaria sendo evitado um mal maior (a morte de maior número de pessoas).  

Mas escolher o maior bem ou evitar o mal maior pode até levar à escolha correta mas ainda assim ela não deixa de gerar sofrimento para as pessoas envolvidas. No exemplo acima, as famílias dos dois policiais sacrificados vão sofrer com a morte deles, embora venham a encontrar algum consolo no fato que seu sacrifício evitou a morte de cem pessoas. Mas o sofrimento vai existir das famílias vão existir e não há como evitar isso.

A história da família de Jacó                                         Famílias costumam ter problemas – não conheci nenhuma que não tivesse sua quota deles. Mas, a de Isaque e Rebeca excede todas as medidas (Gênesis capítulos 27 a 32).

Os filhos gêmeos deles, Esaú e Jacó, não se pareciam fisicamente nem agiam como irmãos. Disputavam tudo: os direitos de primogenitura, o amor dos pais e a benção de Deus.

Isaque e Rebeca eram marido e mulher, mas não se comunicavam. Cada um deles preferia um dos filhos – Isaque preferia Esaú e Rebeca preferia Jacó – o que acirrava ainda mais a rivalidade entre os rapazes.

Jacó tinha perdido a primeira “batalha” da “guerra” entre os irmãos, ao nascer depois de Esaú. Desde seu nascimento, ele teve sempre que correr atrás do irmão mais velho para, por exemplo, garantir o afeto do pai. Mas sempre esteve em desvantagem. Isaque via no filho mais velho, robusto e viril, o líder ideal para a família – Jacó era mais intelectual e caseiro.

Para complicar ainda mais o quadro, uma profecia dada a Rebeca, antes dos filhos nascerem, estabeleceu que Jacó, embora mais novo, haveria de herdar a Promessa originalmente dada por Deus ao avô deles, Abraão. Esaú também seria pai de um povo numeroso, mas a linhagem da Promessa de Deus passaria por Jacó.

Rebeca, ciente da profecia, viu-se diante de um conflito: pensava ser sua obrigação proteger Jacó para garantir que a profecia fosse cumprida. Por outro lado, ao fazer isso, Rebeca alienou Esaú, que se sentiu discriminado pela própria mãe. 

O drama se acentuou quando Isaque estava no seu leito de morte e ia transmitir a benção da Promessa ao herdeiro, tendo escolhido, como seria lógico, o primogênito, Esaú.

Na verdade, Isaque não conseguia ver seus filhos como realmente eram: confundia a robustez de Esaú com capacidade de liderança (que o filho não tinha) e era insensível às maiores qualidades de Jacó. 

Naquele momento crucial, Rebeca entendeu que precisava agir para não permitir a escolha do filho errado. Ela incentivou Jacó a enganar o pai, que tinha vista muito fraca – o rapaz “disfarçou-se” de Esaú e literalmente roubou a benção destinada ao irmão. Ao se dar conta do que tinha acontecido, Esaú ficou enfurecido e Jacó teve que fugir para a terra dos parentes de seu pai, Harã, onde ficou exilado por longos anos.

Essa história mostra vários dilemas éticos. O primeiro deles lida com a questão: é correto privilegiar um filho por ser o mais adequado para dar suporte à família? No caso do exemplo que citei acima, de escolher qual filho deve receber a bolsa de estudos, o benefício poderia ir para o mais inteligente e que fosse melhor aluno dentre eles, imaginando que esse rapaz provavelmente irá ter mais sucesso profissional mais condições de sustentar a família. 

Mas o que fazer então com os filhos não escolhidos? Não é fácil responder essa questão e o exemplo de Rebeca mostra bem as consequências desse dilema. Certamente a resposta correta não é ficar indiferente aos filhos que não forem beneficiados, como Rebeca fez (talvez ela tenha agido assim por não saber bem como lidar com a situação que vivia). 

O segundo dilema ético foi colocado diante de Jacó: até quando alguém deve ir para garantir um direito seu? Se Jacó nada fizesse, perderia a posição de líder da família, à qual entendia ter direito. Por outro lado, não havia uma forma ética para fazer o pai escolhê-lo em lugar de Esaú.

Jacó é um dos mais interessantes personagens da Bíblia – trata-se do primeiro anti-herói dela. Sobrecarregado emocionalmente, facilmente manipulável e inescrupuloso, não parecia ter as qualidades necessárias para um Patriarca bíblico.

Jacó entendeu que o fim (ser escolhido para receber a benção da promessa) justificava meios menos éticos (enganar o pai e trair o irmão). É claro que sua ação errada acabou lhe trazendo muitos problemas: precisou se exilar em Harã e acabou sendo afastado para sempre da sua mãe.

Ele aprendeu, de maneira dura, que os meios escolhidos são tão importantes quanto o fim avisado. Em outras palavras, é preciso sempre medir as conseqüências do que se faz.

Agora, o caso da família de Isaque e Rebeca traz um outro ensinamento importante sobre os dilemas éticos: é sempre preciso envolver Deus nas escolhas que fazemos. E Rebeca não fez isso, cometendo um erro grave.

Ela pensou que tinha apenas duas alternativas: nada fazer e deixar que fosse escolhido o filho errado ou enganar o marido, para garantir a escolha do filho certo. Mas havia um terceira alternativa que ela não considerou: deixar o assunto nas mãos de Deus. Afinal, a profecia tinha sido estabelecida por Ele e lhe cabia fazer cumpri-la. Bastava que ela deixasse Deus atuar, para que tudo tivesse sido resolvido da melhor forma possível. 

É interessante perceber que em nenhum momento essa terceira alternativa correu nem a Rebeca e nem a Jacó. E aí está outro grande ensinamento: muitas vezes definimos mal as alternativas que estão á nossa frente. Ao não chamar Deus para dentro do dilema ético, deixamos de explorar a melhor solução, aquela que virá d´Ele. 

Concluindo, dilemas éticos são naturais. E quando colocados diante deles, precisamos analisar com cuidado as alternativas disponíveis, Princípios como garantir o maior bem ou evitar o mal maior ajudam muito nessa análise.

Mas, sobretudo, precisamos sempre consultar Deus sobre o que escolher. Qual caminho tomar. Afinal, as escolhas d´Ele serão sempre as melhores e poderão apontar para possibilidades e caminhos que nem tínhamos imaginado serem possíveis.

Com carinho

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