DEUS SE AUTO-LIMITA PARA NOS BENEFICIAR

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Num vídeo que vi certa vez um jogador de basquete profissional dos Estados Unidos disputou um jogo-treino com alguns alunos pré-adolescentes de uma escola. Durante o jogo-treino, a diferença de capacidade entre os garotos e o atleta profissional não parecia ser tão grande assim – desavisados(as) poderiam até pensar que os garotos eram bons jogadores ou o atleta não era tão bom assim.

Agora, quando o jogo-treino acabou, o atleta profissional deu uma exibição, quando enfim mostrou todo o seu talento. Aí a diferença de categoria entre ele e os garotos ficou evidente.

Isso exemplifica bem a distinção que há entre a capacidade da pessoa para fazer determinada coisa e seu desempenho real. O atleta profissional propositadamente limitou seu desempenho durante o jogo-treino para dar emoção aos garotos – se tivesse jogado tudo o que sabia, nem teria havido graça de olhar o jogo-treino.

Talvez eu surpreenda você ao afirmar que Deus faz exatamente isso na sua relação com as pessoas: há uma significativa diferença entre sua capacidade real e o que Ele de fato faz. E age assim exclusivamente para nos beneficiar.

O melhor exemplo que posso dar em relação a isso é a questão do livre arbítrio: Deus deu às pessoas a capacidade de escolher o que querem fazer (livre arbítrio) e isso é um enorme bem. Afinal, sem livre arbítrio, não poderia haver amor sincero, criatividade artística, invenções, etc.

O livre arbítrio só é possível porque Deus, embora seja onipotente, limita voluntariamente sua ação sobre a vida das pessoas para dar-lhe espaço para fazer suas próprias escolhas. Isso não quer dizer que Deus tenha perdido a capacidade de obrigar as pessoas a fazer o que Ele quer, mas sim que escolheu não agir assim, resolveu se auto-limitar.

Essa auto-limitação divina tornou-se uma necessidade porque  Deus não poderia, ao mesmo tempo, dar o livre arbítrio para as pessoas, por um lado, e forçá-las a cumprir seus mandamentos (evitando que venham a pecar), por outro, pois isso contraria a lógica. E nem Deus pode contrariar as lógica.

Era preciso fazer uma escolha e Deus preferiu se auto-limitar para poder permitir às pessoas escolher o que desejam, mesmo correndo o risco de pecar. Infelizmente, essa realidade não é bem entendida e muita gente culpa Deus pelo mal que existe no mundo, achando que Ele poderia evitar todos os problemas, esquecendo-se que as coisas ruins são fruto das escolhas das próprias pessoas.

Outro exemplo de auto-limitação de Deus pode ser encontrado na dupla natureza (humana e divina) que Jesus teve quando viveu na terra. E essa convivência das duas naturezas somente foi possível, segundo a própria Bíblia, porque Jesus “esvaziou-se” da sua natureza divina. Ou seja, conservou o poder associado à sua natureza divina intato, mas nunca o usou.

Por isso, enquanto viveu aqui, Jesus não podia tudo, nem sabia tudo, nem esteve em todos os lugares ao mesmo tempo, como acontece com Deus Pai e o Espírito Santo. E isso fica bem claro quando o relato bíblico fala, por exemplo, das inúmeras vezes em que Jesus perguntou coisas que desconhecia.

Sendo assim, os milagres feitos por Ele não tiveram por base seu próprio poder, como Deus. Jesus realizou essas obras maravilhosas usando apenas sua fé e invocando o poder do Espírito Santo. Por isso Ele também pode afirmar que seus seguidores conseguiriam fazer o mesmo, bastando ter fé suficiente – foi assim que Paulo, Pedro e outros discípulos conseguiram fazer muitos milagres, ressuscitando pessoas, promovendo curas impressionantes, dentre outras realizações.

Outros exemplos de situações onde Deus se auto-limitou podem ser facilmente encontrados na Bíblia, como quando Ele interagiu com Moisés ou Elias, no Monte Sinai, ou fez aliança com Abraão. Esses contatos não teriam sido possíveis se Deus tivesse demonstrado todo o seu poder e majestade – nenhum ser humano poderia chegar perto d´Ele nessas condições. Ele teve que se auto-limitar. Simples assim.

Deus é um Ser impressionante – sua dimensão, poder e santidade chegam a ser incompreensíveis. Só pode interagir conosco porque se auto-limita. E você precisa se lembrar disso quando se dirigir a Ele em oração ou louvor, ou quando pedir a presença do Espírito Santo em sua vida.

Com carinho

2 Comentários


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    marcelo victor

    Nobre amigo,
    Lendo o texto, surgiram duas curiosidades:
    1 – A onipotencia de Deus poderia incluir o poder da auto-limitaçao?
    2 – Deus seria escravo de Seus atributos, de tal forma que, mesmo querendo, Ele nao pudesse se auto-limitar em algum aspecto?
    Se considerarmos que Deus è onisciente, onipresente e onipotente e que ele busca um relacionamento sincero com Suas criaturas, a impossibilidade de auto-limitaçao divina (em alguns aspectos), transforma a historia humana numa grande peça de teatro ou uma especie de jogo de faz-de-conta (falo como homem).
    Assim sendo, se isso nao fosse possivel, como poderiamos explicar, entao, o fato da Biblia demonstrar, em determinadas passagens, que:
    1 – Deus estava incerto em relação a alguns eventos futuros (Am 5.15; Ex 32.30; Ez 12.1-3 e Jr 26.2-3);
    2 – Deus estava frustrado porque pensava que o Seu povo ira agir de forma diferente (Jr 3.7 e Jr 3.19-20)
    3 – Deus se ira em determinados momentos (Sl 30:5);
    4 – Deus nao é indiferente, apatico e destituído de afeto, mas demonstra simpatia e compaixão para com Suas criaturas (Is 40.11; 49.15; 53; 63.1-10; 66.13; Jo 3.16; Ef 4.30; Hb 4.14-16).
    5 – Deus pode ser afetado positivamennte com as nossas oraçoes (1 Rs 8.12-66);
    6 – Deus pode ser afetado negativamente pelo pecado e impiedade humanas, a ponto de desencadear o Seu juizo (Jr 4.23-28 e Jl 2.10).
    7 – Deus, na pessoa de Jesus Cristo, expressou tamanha ternura e compaixão para com Suas criaturas, chorando com os que choravam e se alegrando com os que se alegravam (uma prova clara de toda a Sua sensibilidade e de que seus sentimentos nao eram meros antropomorfismos)?
    O Bispo Ildo Mello costuma dar um exemplo que parece caracterizar muito bem a relaçao entre Deus e Suas criaturas. Ele compara tal relaçao com a gravaçao de uma corrida de Formula 1, a qual ele nao pôde assistir, em virtude de um compromosso que tinha exatamente na hora em que a corrida aconteceu.
    Ao final do compromisso, ele retorna para casa, fazendo questao de nao saber o resultado da corrida, de forma que, ao chegar em casa, ele a possa assistir como se ela estivesse acontecendo naquele exato momento.
    Dessa forma, para ele, as ações de Deus não estao predeterminadas e dependem, em parte, das ações dos homens, de tal sorte que tais ações contribuem significativamente para a construção do futuro.
    Para ele, Deus seria um grande mestre de xadrez que, a despeito dos lances do adversário, conduz o jogo para sua vitória, lançando mao da Sua onisciencia somente quando lhe conviesse.
    Deus te abençoe!!!


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      Vinicius Moura

      Você fez perguntas interessantes e vou tentar respondê-las:

      A onipotência divina significa que Deus pode fazer tudo aquilo que não contraria a lógica. Assim, um Deus eterno não pode se suicidar, pois Ele não tem começo nem tem fim, senão não seria eterno. Em outras palavras, o conceito de eternidade não convive com a ideia de suicídio – são incompatíveis entre si. Não é possível ter as duas coisas ao mesmo tempo, assim como não é possível também ser e não ser ao mesmo tempo.

      Nesse sentido, há coisas que Deus não pode fazer. Não digo que ele seja escravo dos seus atributos, mas sim que tais atributos o caracterizam e não é possível fugir disso.

      A história humana não é uma farsa porque Deus nos deu o livre arbítrio e podemos fazer nossas escolhas livremente. E o fato de Deus saber o que vamos escolher, não significa que somos obrigados a escolher determinada coisa. Por exemplo, eu conheço meus filhos tão bem que posso dizer com antecipação, sem medo de errar, o que eles vão comprar numa determinada situação. Mas a escolha foi deles, não minha. A responsabilidade é deles.

      E por que Deus sabe tudo que vai acontecer? Simples, porque Ele está fora do tempo. Ele criou o tempo, logo não pode ser dependente e limitado por ele, como nós. Para Deus, não existe diferença entre passado, presente e futuro.

      Os textos bíblicos que falam de Deus mudando de ideia, frustrado, etc, são fáceis de explicar: são antropomorfismos. Como para nós é tão difícil entender Deus e suas coisas, precisamos buscar exemplos nas coisas humanas. Projetamos n´Ele as nossas características. Assim, atribuímos a Deus sentimentos e comportamentos que são humanos, porque somente assim conseguimos entendê-lo.

      Agora, Jesus, enquanto esteve aqui entre nós, como ser humano, foi um caso diferente: ele viveu e sentiu como nós sentimos. Dependeu do tempo (Ele cresceu e envelheceu). Passou pelas mesmas experiências.

      E é por isso que Deus pode dizer que sabe o que sentimos, o que passamos, pois Ele passou pelo mesmo. Sem a experiência de Jesus, sempre poderíamos dizer que Deus não saberia o que é ser humano. O que é viver na nossa pele. Mas com Jesus, isso foi superado.

      O exemplo da corrida de Fórmula 1 gravada é bom por um lado, mas introduz dificuldades filosóficas: o resultado da corrida não pode ser mudado. nem nada do que ocorreu ali. O expectador é passivo.

      Gosto mais de pensar na relação de Deus conosco como uma dança – Deus responde aos nossos passos. Em outras palavras, quando sou colocado diante de uma situação, Deus já sabe quais são as consequências futuras de qualquer escolha que eu vier a fazer. Não há surpresas para Ele.

      E sabe também o que vou escolher. E assim Ele ajusta sua resposta à minha escolha e nesse sentido Ele é afetado por mim – se eu escolhesse uma coisa diferente, sua resposta poderia ter sido outra. Mas Ele é afetado apenas nesse sentido restrito.

      Espero ter esclarecido.

      Abs
      Vinicius

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