CUIDADO PARA NÃO “DEMONIZAR” O OUTRO

1
204

“Demonizar” outra pessoa é um erro muito comum. Trata-se de atribuir defeitos e/ou erros sérios a quem é visto(a) como adversário(a) – em caso extremo, chega-se a afirmar que tal pessoa faz o trabalho de Satanás.

A demonização pode começar com coisas simples, como torcedores(as) de um time de futebol afirmando que os(as) torcedores(as) do time adversário não tem educação ou bom comportamento – isso fica bem evidente nos apelidos que são dados, como urubu, pó de arroz, bambi, porco e por aí vai.

O processo torna-se mais sério quando o assunto é política: por exemplo, a esquerda acha que o pessoal da direita não se preocupa com as pessoas menos favorecidas e só defendem as elites. Por sua vez, a direita acha que a esquerda pretende dar vida mole para quem não trabalha, às custas dos impostos pagos pelo restante da sociedade. E assim por diante.

Basta frequentar as mídias sociais para perceber uma verdadeira guerra de opiniões acontecendo nos dias de hoje – as discussões sobre o impeachment da Presidente Dilma são excelente exemplo desse tipo de situação, pois há ofensas sendo trocadas pelos dois lados e amizades antes sólidas acabaram abaladas.

Agora, o processo de “demonização” costuma ser ainda mais perigoso quando envolve crenças religiosas. Quando as pessoas acham que quem pensa ou age de forma diferente está pecando e/ou fazendo a obra de Satanás. Por causa disso, rios de sangue foram derramados (e continuam a ser), por exemplo, entre cristãos e muçulmanos, ao longo da história. A perseguição religiosas aos judeus na Península Ibérica, o massacre dos cátaros pelos católicos e as lutas entre católicos e protestante após a Reforma são outros exemplos importantes desse tipo de situação.

Falo tudo isso porque vejo a demonização por motivos religiosos acontecendo hoje em dia. Por exemplo, pregadores televisivos evangélicos costumam atacar a igreja católica, acusando-a de ser idólatra e fazer a obra de Satanás. E muitos(as) evangélicos(as) “compram” essas afirmações e nem verificam se isso está correto.

O processo de demonização não atinge apenas a fé católica. Há disputas também entre as próprias denominações evangélicas. Até coisas simples, como a forma de batizar ou hábitos de comportamento, podem servir de motivo suficiente para afirmar que outras pessoas estão em pecado, não serão salvas e/ou fazem a obra de Satanás. Eu mesmo já fui acusado aqui no blog por ideias que defendi.

O procedimento é ainda pior quando outras religiões não cristãs entram na discussão. Aí é que o bicho pega mesmo: tudo que não vem do cristianismo é visto como obra do Demônio. Simples assim.

As causas para a demonização
A principal razão para a demonização é a ignorância pura e simples. Recentemente, conversei com um rapaz  – cristão bom e dedicado – e ele mostrou alguns vídeos de mágicas que achou na Internet, daquelas que deixam a gente pensando como foi possível fazer aquilo. E em certo momento, o rapaz declarou: “essas mágicas têm tudo a ver com Satanás“. Expliquei para ele não ser nada disso – são apenas truques de ilusionismo. Não há qualquer aspecto espiritual envolvido.

Aquele rapaz não sabia explicar determinada coisa e pulou de imediato para uma conclusão simplista: ação satânica. Mas a consequência de sua atitude poderia ser séria…

É muito frequente as pessoas fazerem o que aquele rapaz fez e atribuírem ao  Inimigo aquilo que não conseguem explicar. Um exemplo histórico vem bem a propósito aqui: no início do cristianismo, as pessoas foram acusados de canibalismo pois “comiam” a carne e “bebiam” o sangue de Jesus e acabaram sendo perseguidos. Ora, sabemos que a referencia a carne e sangue é apenas uma metáfora que Jesus usou para falar da Santa Ceia (comunhão).

Outro exemplo bem fácil de encontrar por aí é a crítica da mídia à prática do dízimo. Não há nada de errado ou abusivo em dar o dízimo – trata-se de uma necessidade prática para poder sustentar as igrejas. É claro que podem existir abusos por parte de gente inescrupulosa, mas isso não invalida o conceito. Mas a mídia não entende a fé que está por trás do ato de dar com o coração alegre e acha que todas as pessoas que estão dando o dízimo estão sendo iludidas.

A ignorância costuma ser fruto da preguiça mental e/ou da acomodação. A pessoa não quer fazer o esforço necessário para entender o que não consegue explicar e procura caminhos fáceis. Por exemplo, recorre a fontes pouco confiáveis mas bem acessíveis, como televisão ou Internet, para buscar respostas. E frequentemente encontra, e aceita, quase qualquer coisa, mesmo coisas francamente absurdas.

É comum também a pessoa aceitar, sem questionar, simplesmente aquilo que alguém em quem confiam – por exemplo determinado(a) pastor(a) – fala. E esquecem que essa pessoa pode ter motivações próprias ou mesmo nem ter o conhecimento necessário para tratar o tema em questão.

Tempos atrás houve uma inundação séria na região serrana do Rio de Janeiro. Naquela época, uma pessoa, participante de determinado grupo de discussão evangélico na Internet, do qual eu também fazia parte, declarou ter sabido, de fonte confiável, que havia milhares de pessoas soterradas na lama e iria haver uma epidemia muito grave nos próximos dias naquela região. E, mais ainda, que as autoridades estavam escondendo esses fatos. É claro que choveram mensagens de revolta contra o governo no tal grupo, algumas até pedindo punição divina para os governantes da época.

Dois meses depois, como nada disso aconteceu, eu coloquei no mesmo grupo um comentário lembrando que o alarmismo tinha sido desnecessário, inclusive acusando pessoas de forma injusta, o que é pecado. A autora da mensagem original se defendeu dizendo que tinha ouvido a informação no cabeleireiro que frequentava… O moderador do grupo colocou “panos quentes” na discussão. E eu acabei saindo do grupo.

Voltando à questão da demonização da igreja católica, a esmagadora maioria dos(as) evangélicos(as) sabe muito pouco sobre a doutrina defendida por ela e o que sabe vem de pregadores que evidentemente têm interesse em demonizar quem pensa diferente deles.

Qual evangélico(a) já leu sobre a posição oficial da igreja católica (exposta no seu catecismo) sobre santos, imagens ou sobre a figura de Maria? Praticamente ninguém. Alguns poderiam alegar que não precisam ler sobre isso, pois testemunham como os(as) católicos(as) se comportam (p. ex. agarrando-se de forma excessiva às imagens), e eu responderia lembrando que, se formos avaliar a doutrina evangélica com base no que alguns pastores inescrupulosos fazem, chegaríamos à conclusão que está tudo errado.

É comum haver diferença entre o que a doutrina diz e o que as pessoas fazem com base nela (isto é como a aplicam na prática). A história conta que cristãos cometeram massacres, entendendo estar justificados pela sua fé, mas na verdade agiram de forma contrária ao que Jesus ensinou. Agora, esses atos maus não desqualificam os mandamentos de Jesus – comprovam apenas que quem os cometeu não eram seguidores do nosso Mestre. Somente isso.

A mesma ignorância costuma estar presente quando gente de uma denominação evangélica demoniza pessoas que seguem denominações diferentes. Por exemplo, alguém ouve do seu pastor que o batismo só vale se for assim ou assado e nem se preocupa de conhecer os argumentos contrários. E acaba concluindo que quem for batizado de forma diferente daquela aceita pela sua denominação não estará salvo. Pode ir além e pensar que um(a) pastor(a) que batiza da forma “errada” está fazendo a obra de Satanás.

O mesmo pode acontecer quando pessoas de denominações diferentes discutem hábitos de vida (ouvir música dita “profana”, ver determinados programas de televisão, colocar enfeites de Natal em casa, etc). Quem discorda dessas práticas pode demonizar quem as aceita.

Outro fonte de erro muito frequente e perigosa é a generalização. Trata-se de usar termos genéricos para classificar pessoas num mesmo grupo quando, na prática, elas são bem diferentes entre si.

Por exemplo, “evangélico” é um termo aplicado tanto a pessoas liberais como conservadores(as), tanto a carismáticos(as), como tradicionais. Quando alguém faz uma crítica aos evangélicos – por exemplo, alegando que os pastores só estão atrás de dinheiro -, atinge tanto quem de fato faz isso como também quem se opõe a essa prática.

Quem são os(as) evangélicos(as)? Os pentecostais (como a Assembléia de Deus), os protestantes históricos (como metodistas ou presbiterianos) e/ou os seguidores da Teologia da Prosperidade (como os fiéis da Universal do Reino de Deus)? Essas pessoas pensam de forma muito diferente mas acabam sendo todas jogadas num mesmo “saco”.

Mesmo onde parece haver unicidade, como na igreja católica, a realidade é diferente. Existem nela muitas vertentes, como a Renovação Carismática (Padre Marcelo Rossi e outros) e a Opus Dei (super conservadores). E o primeiro grupo está mais próximo teologicamente dos evangélicos carismáticos do que do segundo. E não é por acaso que a Renovação Carismática usa cânticos lançados pelos evangélicos, faz retiros e encontros iguais aos deles e assim por diante.

Cuidado cuidado com generalizações. Certifique-se sempre de estar identificando corretamente as pessoas (ou as ideias) sendo criticadas.

Palavras finais

Precisamos, como cristãos(âs), assumir nossa responsabilidade: demonizar outras pessoas vai contra o que prega o cristianismo. Afinal, Jesus mandou que tratássemos o(a) próximo(a) como também gostaríamos de ser tratados e ninguém gostaria de ouvir que faz a obra de Satanás.

É claro que há diferenças de pensamento que separam as pessoas, como acontece entre cristãos e muçulmanos. Devemos, quando necessário, argumentar a favor da nossa fé, mas precisamos fazer isso sempre de forma educada e respeitosa. Jamais construindo ataques pessoais e/ou incentivando discriminações contra quem quer que seja. E tomar muito cuidado quando alguém fizer correlação entre pessoas e Satanás.

Não podemos esquecer que o apóstolo Paulo ensinou que nossa “luta” não é contra “carne e sangue” (outras pessoas) mas sim contra aquilo que está por trás das ideias que elas seguem (Efésio capítulo 6, versículo 12).

Com carinho

 
The following two tabs change content below.

Vinicius Moura

Nasci em 1951. Já estou entrando naquela idade em que as pessoas não mais buscam aventuras, mas, de certa forma, este blog é uma aventura para mim, pois não sei bem o que esperar dele. Sou evangélico desde o nascimento. Sou também autodidata e venho me dedicando a esse tipo de estudo há mais de 20 anos. Tenho a oferecer, no papel de mediador deste blog, a experiência que acumulei ao longo de todos esses anos. Quero mostrar para as pessoas um cristianismo que liberta o ser humano – do pecado, das ansiedades, da falta de sentido, etc – e não uma religião dogmática, que aprisiona, pela imposição de um monte de regras e através da culpa.

1 Comentário

  1. As pessoas aprendem desde cedo a apontar, muitas acreditam piamente em qualquer coisa que o pastor/padre falam e defende até de modo irracional… Mas aprendem isso porque os líderes as vezes o fazem muito. Bom texto para refletir, valeu!

     

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here