LINCHAMENTO MORAL

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Semana passada aconteceu um ato de racismo durante jogo de futebol entre o Grêmio de Porto Alegre e o Santos. Parte da torcida do Grêmio passou boa parte do jogo fazendo insultos racistas ao goleiro do Santos, Aranha, que é negro.

Como racismo é ilegal no Brasil, o episódio gerou processo criminal. A filmagem feita pelas câmeras de segurança do estádio foi analisada e os autores das ofensas foram identificados. Entre as pessoas racistas, chamou atenção o caso de uma moça de apenas 22 anos, flagrada pelas câmeras agindo de forma vergonhosa.

O nome dela foi divulgado pela mídia e o impacto sobre a vida da moça foi enorme e imediato. Ela perdeu o emprego, precisou apagar seus perfis nas redes sociais e agora enfrenta processo criminal que pode levá-la para a cadeia por até 3 anos. Sua família precisou sair de casa pois a situação ficou insustentável. Um desastre.

Há muita coisa a comentar sobre um caso como esse. A primeira delas é que, sem dúvida, a moça cometeu falha grave. Racismo, misturado a insultos públicos, contra quem quer que seja é detestável e precisa ser evitado e coibido a qualquer custo.

Mas nada do que ela fez justifica a reação tipo “linchamento moral” que se sucedeu. Um erro não pode justificar o outro. Sem contar que a família da moça não tinha feito nada de errado e mesmo assim sofreu as consequências.

A outra questão que me chama a atenção é a motivação da moça em fazer o que fez. Aqueles que a defendem, apontam para sua juventude e tentam explicar o ato dizendo que ela foi levada pelo momento – teria tido um momento de privação dos sentidos.

Ora, não parece que foi esse o caso, pois a moça assistia um simples jogo de futebol e entrou de cabeça no abuso moral que algumas pessoas começaram a fazer. Não era uma situação de tensão ou emocional. Não poderia justificar a privação de sentidos.

O que parece ter acontecido é o chamado “efeito multidão”: em grupo, as pessoas se sentem protegidas e acabam por fazer coisas que se sentiriam constrangidas ou impedidas de fazer se estivessem sozinhas. Vemos isso com clareza nas turmas de adolescentes que fazem verdadeiras loucuras – os mesmos jovens, quando sozinhos, agem de forma totalmente diferente. Em grupo saem totalmente do controle.

Agora, o “efeito multidão” afeta sentimentos que já existem dentro das pessoas e estão reprimidos pela educação e as leis da sociedade. Portanto, se minha análise está certa, essa moça tem sim sentimentos racistas. Pode até não demonstrar no dia a dia – como muitos vizinhos dela testemunharam – mas esse lado tenebroso está lá.

E isso aponta para defeitos na sua educação, pois racismo é o tipo de coisa que se costuma aprender desde cedo, inclusive através das atitudes dos mais velhos.

Finalmente, gostaria de falar sobre a questão das coisas ruins que existem na nossa sociedade mas ficam meio escondidas. Vemos isso nas questões de natureza sexual, sempre presentes e incomodando, mas sobre as quais parece ser proibido falar.

O preconceito racial é bem assim: escondido, mas bem presente. Felizmente, nossas leis tornam ilegal as atitudes racistas, o que é um grande avanço e impede que as coisas escapem do controle. Mas o racismo mostra-se presente nas pequenas coisas.

Você já ouviu piadas racistas? Eu já ouvi muitas e, confesso, que na maioria das vezes me calei – hoje atuo de forma diferente e demonstro meu desagrado, mas já pequei muito por omissão.

O racismo também se faz presente na linguagem que usamos no dia a dia. Por exemplo, a cor negra é sinônimo de pecado, de coisa ruim. Usamos termos “o coração dele é negro” ou “o lado negro da força” (quem lembra do filme “Guerra nas Estrelas”) sem nem perceber. E assim contribuímos para perpetuar o racismo. E isso não acontece apenas contra os negros – por exemplo, o termo negativo “judiar” vem da palavra judeu, um povo sempre vitimado pelas reações racistas.

Não há dúvida que todos temos um lado tenebroso, onde florescem a inveja, os ciúmes infundados, a hipocrisia, os preconceitos, etc. Esse lado ruim espera apenas que as condições favoráveis apareçam para mostrar sua cara, como aconteceu com a moça racista e acontece de vez em quando com cada um de nós – apenas tivemos sorte de não sermos pegos em flagrante.

Combater questões desse tipo é difícil, bem mais do que parece. Afinal, trata-se de “inimigo” meio invisível. Estou falando de mudar uma forma de pensar e isso não é simples.

É tarefa que se faz aos poucos. E o único caminho que conheço é a ação do Espírito Santo em cada momento da vida da pessoa. Fazendo-a perceber quando erra. Quando se desvia do caminho. Mostrando-lhe o que deve fazer de forma diferente.

Concluindo, o moça em questão errou e muito. E seu erro é sintoma de problema mais profundo do que simples erro de julgamento momentâneo. Ela merece punição, sim, pois violou a lei. Mas também merece compreensão e ajuda para voltar a andar no caminho certo e não sofrer atos de “linchamento moral”.

Com carinho

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