O SOFRIMENTO CAUSADO PELAS “DÍVIDAS SIMBÓLICAS”

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Conheço uma mulher que tinha um histórico de passar por explosões de ira períódicas. Esses episódios tinham um importante componente espiritual, o que lhe tirava a condição de controlá-los. Por conta disso, ela passou a ser vista pela própria família como criadora de caso – foi construida pelos familiares toda uma “lenda” em torno dela, sempre repetida quando a oportunidade se apresentava.

Os especialistas nos ensinam que, em casos como esse, a pessoa adquire uma “dívida simbólica” com os outros. E o problema com as “dívidas simbólicas” é que normalmente elas não podem ser pagas, não importando o que o “devedor(a)” faça ou deixe de fazer. 

E isso ficou claro no caso a que me referi acima. Minha amiga converteu-se ao Evangelho, resolveu suas questões espirituais e conseguiu grande melhora, praticamente eliminando os episódios de ira. Sua mudança foi reconhecida pelos familiares, mas nem assim eles consideraram a “dívida” como paga. Como o início dessa melhoria coincidiu com o casamento da minha amiga, a família passou a atribuir a melhora ao marido. O “mérito” foi todo transferido para ele e minha amiga continuou “devedora”, agora também do marido, pois ela não o merece.  

Outro exemplo que fiquei conhecendo envolve outra amiga, moça brilhante e de personalidade muito forte. Ela engravidou muito cedo e acabou se casando com o namorado. Aí ela passou a ser considerada pela família do rapaz como tendo aplicado o “golpe da barriga”, uma espécie de “alpinismo social”. Para pagar essa “dívida” e conseguir o respeito que julgava merecer, minha amiga lançou-se num regime de trabalho muito pesado, para provar que não precisava do dinheiro de ninguém. E acabou por se tornar a principal fonte de receita da família que formou com o pai do seu filho. Mas nem assim a “dívida” foi considerada paga – ela só conseguiu mesmo prejudicar a própria saúde. 

A Bíblia também tem exemplos desse tipo de situação e um deles é o caso do apóstolo Paulo. No ínicio da sua vida pública, Paulo achou que os cristãos eram hereges e se tornou particpante ativo na perseguição que os judeus promoveram para acabar com aquela heresia. Mais adiante, ele converteu-se ao cristianismo, quando em viagem de Jerusalém para Damasco, através de uma visão que teve de Jesus Cristo. E acabou tornando-se o maior líder dos primórdios da história da igreja cristã – escreveu quase 60% do Novo Testamento e foi responsável por boa parte da difusão o crisitianismo conseguiu entre os não judeus. Por conta disso tudo, Paulo, muito justamente, passou a se considerar apóstolo de Jesus, até porque essa posição carregava consigo uma autoridade espiritual especial. 

Mas, por outro lado, a tradição estabeleceu que somente deveriam ser considerados apóstolos aqueles doze homens que tinham sido pessoalmente escolhidos por Jesus antes de começar seu ministério e Paulo não estava entre eles. E assim, muitos cristãos entendiam que Paulo tinha usurpado uma posição à qual não tinha direito de fato. E o apóstolo teve que enfrentar essa questão durante todo o seu ministério – em algumas passagens das suas cartas ele chegou a se justificar (por exemplo, 1 Coríntios capítulo 9). 

Jesus também carregou sua quota de “dívida simbólica”. Como sua origem nunca foi completamente explicada para as demais pessoas com quem conviveu – Maria, sua mãe, apareceu misteriosamente grávida e ninguém entendia como isso tinha sido possível -, Jesus sempre carregou consigo o estigma de ser um bastardo. Não deve ter sido fácil para Ele viver esse tipo de situação numa sociedade, como a judaica, que dava tanto valor às origens das pessoas.

Conforme disse acima, “dívidas simbólicas” normalmente não podem ser pagas, não adianta o que a pessoa faça ou deixe de fazer. Paulo ainda tentou se defender nas suas cartas, mas nunca conseguiu resolver a polêmica que gerou. Jesus nem tentou explicar sua origem para as pessoas, pois sabia que não teria qualquer resultado prático.

Palavras finais
É possível que você carregue o peso de uma “dívida simbólica” como as que discuti acima. Talvez as pessoas atribuam a você características ou ações que você sabe não serem verdadeiras, mas apesar de todos seus esforços você não consegue obter a aceitação que faz por merecer.

Como esse tipo de “dívida” nunca é paga, a solução é não se deixar definir por essa questão. E foi esse o erro que uma das minhas amigas cometeu, quando construiu sua vida profissional de forma a provar para os outros que ela era independente. Paulo chegou a se defender nas suas cartas, mas não deixou que a “dívida” definisse seu ministério. Foi em frente e fez tudo que lhe cabia fazer. 

E essa é a resposta que existe para você enfrentar o mesmo tipo de problema. Sua importância real é estabelecida por aquilo que Deus pensa a seu respeito, não pelo que as pessoas em torno definem. Vá e viva sua vida da forma que você e não se preocupe muito com a opinião dos demais. Afinal, se lhe impuseram uma “dívida” desse tipo, você não vai mesmo conseguir pagá-la.

Com carinho

 
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Vinicius Moura

Nasci em 1951. Já estou entrando naquela idade em que as pessoas não mais buscam aventuras, mas, de certa forma, este blog é uma aventura para mim, pois não sei bem o que esperar dele. Sou evangélico desde o nascimento. Sou também autodidata e venho me dedicando a esse tipo de estudo há mais de 20 anos. Tenho a oferecer, no papel de mediador deste blog, a experiência que acumulei ao longo de todos esses anos. Quero mostrar para as pessoas um cristianismo que liberta o ser humano – do pecado, das ansiedades, da falta de sentido, etc – e não uma religião dogmática, que aprisiona, pela imposição de um monte de regras e através da culpa.

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